Nasceu em S. Jorge da Beira, terra mãe das Minas da Panasqueira, concelho da Covilhã, mas aos 10 anos rumou a Angola, onde a sua vida mudou. Regressada a Portugal aquando da guerra, Adelaide Ramos Vilela admite que não se sentiu bem e decidiu rumar ao Canadá.

Foi lá que, nas palavras da própria, “renasceu como portuguesa”, voltando agora aos Açores para apresentar mais dois livros de sua autoria e prometendo regressar para outro, este dedicado à neta.

 

A sua vida desde a época da Covilhã até agora passou por muitas mudanças.
Nasci com a RTP e sempre disse à minha mãe que queria estudar e ser médica e jornalista. E a minha mãe, como foi com o meu pai para Angola, não sabia como me levar tão pequenina e com tantos sonhos. Acabou por levar três dos meus irmãos, somos seis no total, e deixou-me em Portugal para estudar. Eu tinha uma tia rica, com filhos já formados, e fiquei com ela só que entretanto perdi a voz, durante três meses não falei com saudades dos irmãos e pais, e três anos depois fui ter a Angola, depois de não me ter dado bem com os meus tios. A minha irmã também não aceitou o facto de eu ter fugido para casa dela, e lá fiquei três anos. E foram nesses três anos que nasceram algumas das histórias que vêm aí no livro.

 

Foi para Angola com que idade?
Com 10 anos. Frequentei a escola secundária, em Salazar, Luanda, entretanto fui estudar e trabalhar para Salazar e lá casei. E quando ia iniciar a Universidade começou a guerra e tive de vir embora. Em 1975 regressei a Portugal, com 20 anos, e fui viver para as Minas da Panasqueira. Mas não consegui estar lá durante muito tempo e dois anos depois fui para o Canadá, para Montreal. Quando acontece uma guerra, em que voltei sem nada com o meu marido, cheguei revoltada a Portugal e tinha um ódio de morte aos portugueses. Mas cheguei ali, e caí de paraquedas na comunidade portuguesa oriunda dos Açores, principalmente na comunidade micaelense. É engraçado que 80 por cento da comunidade é oriunda de S. Miguel. E digo sempre isto com lágrimas nos olhos, porque a comunidade recebeu-me tão bem, enchiam-me a casa embora não precisasse porque ainda tinha um pé-de-meia. Mas a comunidade portuguesa ajudou-me tanto que me convenceu que Portugal e os portugueses e as ilhas dos Açores e Madeira eram tão importantes que eu deveria renascer de novo como mulher portuguesa. Morava numa rua em que apenas existiam açorianos de S. Miguel e habituei-me a ajudar a organizar as festas do Espírito Santo, a trabalhar com eles, a organizar as festas das Domingas, aprendi a conhecer a cultura açoriana, fui ao fundo da raiz da alma e comecei a descobrir a terra do meu marido, o Norte de Portugal em que as pessoas são muito queridas.

 

O marido é de onde?
É de Vila Real, Trás-os-Montes. E foi assim que nasceu em mim uma nova Adelaide. Aprendi a amar Portugal conhecendo os Açores. E quando cá vim a primeira vez foi como se voltasse, senti-me tão pequenina… Quando pus os pés nos Açores senti-me como aquela menina que foi para Angola com 10 anos e quando regressei chamaram-me retornada e eu senti-me mal, triste e quis sair de Portugal porque eu não era retornada, era e sou portuguesa. E quando cheguei aqui chamaram-me querida, amada, Adelaide, linda, chamaram-me de tudo o que eu finalmente queria, que era carinho. Por isso, é graças aos açorianos que hoje amo muito Portugal e que canto Camões todos os dias. E devo tudo isso aos Açores, se não tivesse caído de paraquedas na comunidade portuguesa dos Açores não sei se não teria lá ficado como muitos ficaram, sem nunca mais querer saber de Portugal e da língua portuguesa. Tenho uma neta de sete anos, filha de um marroquino, que fala tão bem português como eu. E falo perfeitamente português, apesar de estar há 50 anos fora de Portugal. Da mesma forma, a minha filha tem 37 anos e fala perfeitamente, por isso, preservo a língua e cultura portuguesas.

 

Na sua chegada a Montreal já disse que encontrou um novo berço para a sua existência, que renasceu. E a partir daí o que construiu? Como foi a sua vida?
Foi um renascimento total. Quando cheguei disse algo que nunca devia ter dito. Disse que não queria fazer o que muitas mulheres faziam que era trabalhar em fábricas ou em limpezas. Não tenho nada contra, mas queria fazer algo mais por mim, pelas outras mulheres e pela comunidade portuguesa. Mas temos pessoas muito bem formadas, a nossa comunidade é rica em cultura. Então disse ao meu marido que não ia fazer o que faziam certas mulheres, não queria fazer certos trabalhos, que seriamos mais pobres durante alguns anos mas que tinha de estudar. Queria continuar aquilo que nem em Portugal nem em Angola consegui fazer. Então, fui trabalhar como rececionista, já era secretária, e depois fui para a Universidade. Mas foi muito difícil, mais tarde nasceu a minha filha, e já a minha filha tinha 12 anos quando recomecei a estudar. Queria medicina mas era má a matemática, ainda fiz a inscrição mas não deu, em matemática e física alma de artista não se encaixa. Adoraria ser médica mas fui para jornalismo. Conclui os meus estudos em jornalismo já aos 30 anos.

 

Exerceu jornalismo?
Toda a vida, até hoje. Já não trabalho para televisões nem rádios mas ainda trabalho para o Jornal LusoPress. Ainda fiz alguns trabalhos para a RTP e para a SIC, para um canal de televisão de Montreal também, e pelo mundo, porque viajo muito. Não sou uma mulher estagnada que fica em casa. Pobre do meu marido que fica muitas vezes sozinho porque viajo muito pela América Latina. Levo a bandeira às costas e levo a língua portuguesa, levo a palavra, levo os meus livros em português, levo amor pela língua de Camões e pelas nossas tradições de Portugal inteiro e das ilhas. Aliás, duas das últimas conferências que dei no Perú, no México e no Uruguai, falei da cultura portuguesa dos Açores.

 

 

 

E a sua presença no Auditório Municipal Natália Correia é pura coincidência ou o simbolismo vai para além da coincidência?
Se acreditasse em milagres diria que isto seria um milagre porque é uma das mulheres que mais admiro na vida. E já me chamaram a segunda Natália Correia, aliás, já a imitei num espetáculo no Canadá, na Casa dos Açores, e houve uma senhora que me confundiu mesmo com ela. Sempre a admirei muito, era uma senhora fora do comum, uma grande poetisa, uma grande política, uma grande Mulher no seu todo. Por isso, estar aqui, para mim, é um sonho que finalmente se concretiza e acho que este edifício é um monumento muito representativo para Fajão de Baixo e para os Açores em geral, é um grande centro. Devem fazer mais como este e devem valorizar as pessoas, não esperem que elas morram, façam em vida. Foi muito importante o que fizeram agora mas tenho a certeza que ela, já não está cá, mas onde quer que esteja, deve estar felicíssima e eu continuo a amar Natália Correia e declamo-a muitas vezes.

 

“A minha poesia é sempre muito fácil de ler, é tão simples e humilde como eu”

Os seus livros contam a sua história de vida mas o que vem exatamente apresentar aos açorianos?
Tenho um livro que tem dois capítulos dedicados aos Açores. Há um livro que tem uma poesia que se chama “A Décima Ilha, Mar em Lume”, “Amor de Paixão pelos Açores”, “Quero morrer afogada numa ilha”, coisas assim loucas por amor. Os livros que venho apresentar são “Magma de Afetos” que são histórias, algumas autobiográficas e uma delas foi mesmo escrita aqui na Lagoa. Outra comecei a escrever na ilha Terceira mas é uma história autobiográfica mas não é minha, é de um médico que trabalhou muitos anos em Boston e onde relato um pouco a vida dele. O outro livro são poesias, com 194 páginas, está dividido em capítulos como todos os outros, é muito fácil de ler e serve dos 8 aos 80. A minha poesia é sempre muito fácil de ler, é tão simples e humilde como eu, como a criança, uma flor, o mar sereno. E cada capítulo tem o seu tema, por exemplo, o primeiro fala do amor como pilar fundamental, o amor e a família, e depois sobre a religiosidade, fé, amizade, outro que é o Amor Desilusão, outro que é um sinal de alerta para o mundo de hoje, para os fogos, para os emigrantes que fogem. Os meus livros são quase todos assim, normalmente.

 

Quantos livros já tem publicados?
Tenho 10 e 20 antologias. Estes 10 livros são os meus 10 meninos, as antologias são minhas e de poetas do mundo, do Brasil e da América Latina em geral. Depois tenho também dois CD’s de poesia, minhas e de poetas do mundo também, e muitos troféus.

 

Então os livros transportam-nos pela viagem que fez pelo menos nesses três continentes, Europa, África e América?
Eu falo muito pouco de Angola. Já consegui escrever umas histórias, tenho que as por num livro, como “A Boda na Sanzala”. Fui madrinha já nos tempos da guerra, e nunca tive medo de nada, debaixo de fogo eu e o meu marido casamos, fomos padrinhos de uma noiva e fomos para a sanzala comer a boda. Aí vi corpos mortos e não conseguia falar disso ainda, não consegui ainda arranjar uma carapaça para me proteger porque como sou sensível. Gostei muito de Angola, sinceramente, ainda hoje lá viveria, foi uma terra muito especial.

 

Voltou lá?
Ainda não consegui mas pode ter a certeza que voltarei. Mas já comecei a falar das minhas vivências de Angola, no ano passado escrevi dois ou três artigos, neste livro já falo um pouco de Angola também, da viagem da minha mãe para Angola. Quando regresso a Portugal já vou colocando angola pelo meu caminho e como já estou a meio caminho, dos Açores vou para Angola facilmente.

 

E na sua terra natal, conhecem os seus livros?
Conhecem e recebem-me muitíssimo bem. A cidade da Covilhã, a Câmara Municipal, recebe-me sempre. O Dr. Carlos Pinto sempre que fazia um lançamento de um livro, durante os quatro mandatos dele, sempre me recebeu e apoiou. Este último presidente, que foi reeleito agora, não me recebeu na Câmara Municipal no ano passado mas o vereador da cultura, o Dr. Jorge Torrão, recebeu-me na Casa da Música o que foi simbólico para mim, foi onde apresentei o livro “Laços e Abraços”, que tem na capa exatamente um açoriano. Portanto, a minha cidade tem-me recebido muito bem, e o ano passado fui agraciada pelo presidente da Junta da minha freguesia. Dizem que ‘santos de casa não fazem milagres’, é mentira. Milagres há sempre, mas nós também temos de ir ao encontro das pessoas, não é chegar aqui com os livros, por o nariz no ar, montar o meu cavalo e ser mais alta que o outro. Devemos ir ao encontro da pessoa, e partilhar tudo isso que faz um grande caldeirão de afetos.

 

 

É uma mulher cheia de força e como se estivesse no inicio de uma caminha. Ainda podemos esperar muito de si?
Não sei. Há um médico que me disse em março que já não escrevia mais dois livros. O malandro do médico da Covilhã! Isto porque tenho tido vários problemas de saúde, está aqui uma mulher que já fez 29 cirurgias. Sou uma mulher meio biónica tenho próteses nos joelhos, num pé… agora tenho mais três cirurgias à minha espera mas podem esperar muito de mim. O próximo livro vou dedicar à minha neta e já prometi trazer aos Açores, só se não me quiserem receber. Vai ter fotografias de crianças, de várias partes do mundo, e vou trazer aqui para que as crianças dos Açores possam ler em português e depois veremos nas outras línguas. Mas tenho livros escritos noutras línguas já escrevi um em francês e outros em espanhol.

 

Ainda vive integrada na comunidade açoriana no Canadá?
Claro! Nunca me vou desagarrar, estou agarradinha à minha comunidade portuguesa e nunca de lá vou sair. Houve uma vez uma professora que me disse “Adelaide, quando acabares de te formar vais desaparecer da comunidade portuguesa porque não és apreciada” e eu disse que isso era um direito de cada um. Uma vez eu ia para a Universidade com a minha pasta e os livros e uma senhora perguntou-me onde ia e eu contei. Então ela pergunta-me se trabalhava lá nas limpezas ou na cantina. E eu disse que ‘todos os dias limpava as cadeias onde me sentava porque estudo lá, estou a acabar o curso em jornalismo’. Ela ficou a olhar para mim e confidenciou-me que também gostaria de estudar e acabou mesmo por fazer um bacharelato em Sociologia e ainda continua a estudar. Portanto, ainda vivo na comunidade portuguesa e irei viver até morrer.

 

O sorriso que se visualiza nos seus olhos não mente…
É inteligente ao dizer isso porque o meu editor disse-me exatamente a mesma coisa. Chamam-me poeta da luz, no Perú, porque a primeira vez que fui ao Uruguai, há 25 anos, chamavam-me para tirar fotografias e eu ia com a máquina às costas e dizia que não era importante na fotografia, eles é que eram porque a vida sem partilha não é nada. Na partilha há o amor e eu quero levar esse amor como partilha na fotografia. Porque eu queria levar aquela imagem, as pessoas e o carinho comigo. Então, passaram-me a chamar poeta da luz.

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