Ainda deve de haver por aí muita gente que se lembra do senhor José Tavares Pacheco, da Ribeira Seca, que era o cobrador da camioneta da firma Caetano Raposo & Pereira, que o senhor Duarte Caiano conduzia entre a Ribeira Grande e Ponta Delgada, muito vista pelas freguesias de Rabo de Peixe, Calhetas e Pico da Pedra. Era distinta das outras, porque para além de não ser nem Volvo, nem Mercedes, era aquela que mais apitava. Em todos os cruzamentos dizia: “pam, pam”. Já se sabia que era a camioneta do sr. Duarte Caiano e do sr. José Pacheco. Naquele tempo as crianças com menos de dez anos pagavam meia passagem. Por isso, num belo dia, uma mãe avisou ao filho que tinha dez anos para dizer ao cobrador que só tinha nove. Veio o cobrador. Para onde vão? Para a cidade. Vira-se para o rapaz: Quantos anos tens? Nove. Quando fazes os dez? Quando chegar à cidade. Ficou a mãe com cara de burra, dizendo ao rapaz que ele era um atoleimado. O cobrador soltou uma gargalhada, e como a camioneta estava quase vazia, fez de contas que se esqueceu do bilhete do rapaz. Temos a certeza de que José Tavares Pacheco teria muitas estórias parecidas com esta para contar. Trabalhou para a referida firma de 1966 a 1979. Pelo seu casamento com Alexandrina Barbosa Deus presenteou-o com dez filhos. Seis rapazes e quatro raparigas. A saber: José António, Emanuel, Rita, Beatriz, Luís, Paulo, Glória, Maria, Rui e Décio.

José Pacheco, o cobrador da camioneta, nasceu na Ribeira Seca em 1935 com todos os requisitos de ser cidadão americano, pelo facto de sua mãe ter nascido na América. Mas, ao que parece, amava o seu cantinho açoriano, onde constituiu família e desejava viver toda a sua vida. Em 1967 veio aos Estados Unidos para apreciar o modo de se viver aqui e, ao mesmo tempo, legalizar os seus papéis de cidadao americano, como americano que era, por ser filho de uma americana. Voltou a S. Miguel naquele mesmo ano com o passaporte americano. Na Ilha, pelo menos, tinha um bom emprego, com ordenado seguro, e tencionava dar estudos aos filhos, enquanto pudesse. A família morava na rua Dr. Hermano Mota, mais conhecida por Tornino, ou Torninho de Cima. O filho mais velho, o José António, a quem esta crónica é dedicada, nasceu a 28 de dezembro de 1959, no antigo hospital da Ribeira Grande, e viveu na Ribeira Seca até à idade de 17 anos. Depois da instrução primária estudou na Preparatória Roberto Ivens, em Ponta Delgada, transferindo-se, em seguida, para a Escola Industrial e Comercial, sediada na Ribeira Grande, onde frequentou o curso Geral do Comércio. Pouco tempo depois o ensino em Portugal foi transformado, e a fusão das escolas liceais e comerciais deu o Ensino Secundário Unificado. Já com sete irmãos, teve de ir trabalhar para aliviar a carga das despezas famíliares, e tornou-se empregado de escritório na Lacto Açoriana. Nunca perdendo, porém, o desejo de continuar os estudos, matriculou-se no curso nocturno.

Numa conversa que recentemente tivemos, José António Pacheco recorda a nossa Ribeira Grande da sua juventude, nestes termos:

Os cavaleiros passavam na rua aonde eu morava, para juntarem-se no largo da casa da D. Maria Mota. Depois, em desfile, passavam outra vez pela minha porta, rumo à igreja de São Pedro. São coisas que não esquece… No verão ia com os meus irmaos passar o domingo no Areal de Santa Bárbara. Muitas vezes chegava a casa com a pele toda queimada, depois de estar todo o dia ao sol, sem protector. A gente também frequentava as Poças… Lembro-me muito do meu primeiro, e único emprego em S. Miguel, no escritório da Lacto Acoreana (Fábrica do Leite). O tempo de almoço era duas horas. Eu ficava com colegas do futebol, os juniores do Ideal e Benfica  Águia, sentados no balcão (muro da ribeira), em frente ao café Paraiso. Nesta altura eu jogava nos juniores do Atlético de São Pedro, da Ribeira Seca. Ficávamos a falar sobre futebol, e tantas outras coisas… Gostava imenso de ir ao Teatro, ao domingo à tarde,  para a ver o filmes que lá passavam, e durante a semana, à noite, era a Esplanada. Além disso, gostava também de ir ao Balão, com alguns amigos, para comer frango do churrasco, ou petiscar uns canarinhos.

Filho de americano, americano é. Por isso José António Pacheco decidiu, a conselho do pai, experimentar a América. Se gostasse, era para ficar; se não, regressaria a São Miguel. Assim, para aqui veio, sozinho, aos dezassete anos de idade, em novembro de 1977, fixando residencia em Fall River, em casa de um tio. Foi um caso de amor à primeira vista, e bem cedo notou que qualquer pessoa podia ter uma vida na América muito melhor do que em Portugal. Enquanto testava a América, escrevia à mãe metade de uma folha de papel, dizendo só o essencial, mas consolava-se com as respostas, que enchiam duas folhas de ambos os lados. Contou-nos isso, porque lhe dissemos que dele é muito difícil tirar informações pessoais. Acrescente-se que é uma pessoa humilde por natureza. Foi trabalhar para a indústria téxtil, que era a predominante nesta cidade, e frequentou a escola depois do trabalho. Com esta sua vontade de vencer na vida e por gostar da América, depressa convenceu os pais a mudaram-se para os Estados Unidos.

Assim, José Tavares Pacheco, o cobrador das camionetas, voltou para a América em 1979, trazendo consigo a esposa e o resto dos filhos. Foi trabalhar para a construção. Depois, em 1984, comprou uma mercearia. A “Pacheco’s Mini-Mart”, que manteve até à sua reforma, em 2003. Tivemos o prazer de falar com ele por várias vezes, nos convívios ribeiragrandenses da Nova Inglaterra, dos quais era uma assídua presença em companhia dos filhos, e esta família sempre ocupava duas mesas no salão. Notava-se no seu rosto um orgulho sadio em cara de pessoa humilde, sem peneiras nem vaidades. Não era para menos, porque todos os seus rebentos estavam bem encaminhados na vida: José António, bem sucedido como agente de seguros e imobiliária; Emanuel, empreiteiro e construtor de casas; Rita, professora de escola primaria; Beatriz, conselheira psicológica; Luís, contabilista; Paulo, engenheiro electrónico; Glória, advogada; Maria, médica cardiologista; Rui, banqueiro; Décio, oficial de polícia na cidade de Fall River.

Voltando o fio da estória ao José António, em 1984 obteve a licença em Massachusetts de compra e venda de imóveis. Nesta altura trabalhava para a Century 21 como vendedor de propriedades. Em 1987 adquire a licença de venda de seguros em Massachusetts e Rhode Island, passando a trabalhar para a Mass. Mutual Insurance, em Providence, RI, até 1989. Em Dezembro daquele ano abriu a agência de seguros e compra e venda de propriedades, a Pacheco Insurance & Real Estate Agency. Presentemente a agência tem duas localidades: uma na Columbia Street, em Fall River; e outra na Acushnet Avenue, em New Bedford. Em 1993, juntamente com o irmão Emanuel, formou uma companhia de construção de bairros e casas novas no Condado de Bristol. Até à presente data esta firma já construiu cerca de três centenas de novas habitações e outros edifícios.

José António é casado com  Maria Helena Gervásio, natural do Porto Formoso, que veio para os Estados Unidos com 8 anos de idade. Ao casal Deus presenteou um lindo casal de filhos: Anthony e Christina. Quanto ao seu envolvimento comunitário, como já mencionámos, na Ribeira Seca jogou futebol nos júniores do Atlético de São Pedro. Em Fall River foi jogador no Fall River Sports Club e no Micaelense Club.  Posteriormente jogou nas ligas locais the Fall River e New bedford. Em 1997 foi tesouseiro da Luso American Soccer Association, e no ano seguinte presidente desta mesma associação. Presentemente ainda joga na Liga de Veteranos da Associação da Área de Boston. Foi director da associação portuguesa de negócios locais, a  “Portuguese Business Association”, e tesoureiro da comissão do Dia de Portugal, de Fall River. É membro dos Amigos da Ribeira Grande–USA, tendo sido seu presidente em 2001, quando se realizou o nono convívio. Por muitos anos foi director e membro do conselho executivo do Lafayette Bank, até esta instituição bancária ser adquirida por outra. Nos últimos anos foi tesoureiro das Grandes Festas do Divino Espirito Santo da Nova Inglaterra. José A. Pacheco é um grande apoiante das causas comunitárias, principalmente aquelas que dizem respeito à caridade e amor ao próximo.

Mas nem tudo é mar de rosas, e quem vê caras não vê corações. A segunda década deste século tem causado muitas dores, e feito derramar muitas lágrimas à família Pacheco.  o Décio, que era agente de polícia, faleceu no dia 14 de Novembro de 2015; o patriarca, cobrador das camionetas, no dia 1 de April de 2017 partiu para a eternidade; Anthony Pacheco, filho do José António, foi chamado para Deus no dia 9 de Novembro de 2017; e em 15 de Julho de 2020, Dona Alexandrina Barbosa (Pacheco) fechou os olhos ao mundo. Nem sabíamos disso, porque a pandemia nos vedou contactos em diversos sectores. Registamos, no entanto, o nosso profundo pesar a toda a família Pacheco, com um forte abraço ao nosso amigo pessoal, José António, que se classifica a si próprio como “uma pessoa simples e trabalhadora”. Acima de tudo, adora a sua familia, especialmente os seus filhos. A nível comunitário já foi alvo de diversas distinções, nomeadamente Imigrante do Ano, pelos Amigos da Ribeira Grande, no decorrer do XXVI Convívio Ribeiragrandense. A família Pacheco que o cobrador das camionetas criou é digna do nosso respeito e da nossa admiração, por ser um cartão-vivo das melhores qualidades da nossa gente no meio de tantas outras etnias e raças. Esta é uma estória que da nossa história faz parte. Um abraço ao José António e aos seus irmãos. A todos: Haja saúde!

 

Meu amigo Pachequinho,

Seguro quero comprar

Para que o meu carrinho

Nunca deixe de rodar.

 

A telha vale um escudo,

Ribeira Seca um vintém,

Mas vale mais do que tudo

Só pela gente que tem.

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