Dos efeitos da pandemia muito se tem falado ultimamente, da perda de empregos no sector da hotelaria, restauração turismo e outros. Pouco se fala do sector artístico do teatro dos músicos, coreógrafos, técnicos de sala e de palco…parecem, ser seres invisíveis num cenário de guerra silenciosa.

Por isso mesmo escrevo hoje num singelo apelo, com a satisfação de voltar ao teatro, de voltar como espectador a assistir a um nova produção do Teatro Nacional São João /TNSJ/Palmilha Dentada a partir de um dos meus autores prediletos Molière. A peça O Burguês Fidalgo que ao parecer foi inspirada no autor português D. Francisco Manuel de Melo  (1608-1666). “Há quatro séculos, nasceu em Lisboa  o autor dos celebradíssimos “Apólogos Dialogais” (publ. 1721) e do “Auto do Fidalgo Aprendiz” (publ. 1676), que segundo alguns inspirou Molière no seu “Le Bourgeois Gentilhomme”.

Foi um dos grandes cultores da língua portuguesa, mas também da língua castelhana. No “século de ouro” dos Áustrias ombreou com Quevedo, e Menendez Pelayo considerou-o como referência fundamental – “o homem de mais engenho que produziu a Península no século XVII, depois de Quevedo”. É estranho, no entanto, que haja um tão grande silêncio em torno desta efeméride. Dir-se-ia que, passados os séculos, ainda continua a persistir uma incompreensível maldição em torno desta personalidade multifacetada e genial, cuja leitura e existência ainda hoje nos entusiasma e pode motivar.” https://e-cultura.blogs.sapo.pt/21286.html

Numa época em que muitos autores roubavam, temas e enredos a outros autores não admira esta atitude como sendo inédita. Conta-se que n´As Artimanhas de Scapino, Molière teria copiado literal e inteiramente uma cena do célebre autor e espadachim Cyrano de Bergerac da sua peça Le pédant joué, escrita aproximadamente em 1645-1646 peça em cinco actos, e uma das primeiras comédias em prosa deste autor.  O assunto é revelado pelo autor romântico francês Edmond Rostand na sua obra biográfica Cyrano de Bergerac, num diálogo no Ato V. Cena 6.

Do programa do TNSJ relativamente a esta montagem, citamos; “É um novo capítulo que se abre na já longa história do Teatro da Palmilha Dentada, mas talvez seja avisado moderar as expectativas. A companhia portuense faz aqui uma incursão inédita no repertório clássico, colocando pela primeira vez numa ficha artística o nome de um autor do cânone dramático ocidental. Mas, avisamos já, este Burguês Fidalgo não é “de” mas “a partir de” Molière, expediente que sinaliza uma origem e denuncia uma apropriação, isto se pensarmos no verbo “partir” na sua aceção de “fazer ou ficar em pedaços”.

Ricardo Alves e a sua trupe revisitam este clássico de 1670, uma extravagante e colorida comédia-balé escrita em colaboração com o compositor Lully, misturando danças e canções. Território que nem sequer é virgem no percurso da Palmilha Dentada, basta pensar em A Cidade dos Que Partem  (2009), também ela uma comédia de costumes travestida de musical, ou vice-versa. Retrato das ambições que tudo devoram e dos novos-ricos que tudo compram, O Burguês Fidalgo continua a falar de nós e das nossas cidades, em suma: das nossas fealdades. Assunto que tem séculos e séculos de atualidade e futuro.”

No dia 6/08/20 na retoma da atividade teatral do TNSJ, foi oferecido ao público a programação para os meses de Agosto 2020 /Março de 2021, num caderno que inclui dois belos textos dos quais queria deixar aqui um apontamento, são eles um de Pedro Sobrado Presidente do Conselho de Administração do TNSJ e outro de Nuno Cardoso Diretor Artístico do TNSJ“O teatro é hipersensível ao presente – reage prontamente, adapta-se, põe-se de imediato a discorrer sobre o que acontece –, mas na sua natureza há um princípio inactual que não conhece mutação genética: a ideia da co-presença de quem faz e de quem vê, a vocação comunitária, o carácter colectivo. É isto o que permite ao teatro, hoje como no século V a.C., exprimir e reconstituir a vida da cidade. A programação artística que Nuno Cardoso pensou para os próximos oito meses é um gesto de perseverança, e júbilo. Poderíamos, sim, ter comemorado o centenário do Teatro São João há dois anos. Estamos a comemorá-lo agora, e não poderíamos estar mais gratos por isso. Bem-vindos.” (Pedro Sobrado) E um luminoso texto que parte duma consideração de escuridão para a luz futura que emerge e emergirá sempre da função histórica do teatro. Recomeçamos. A programação do Teatro Nacional São João é isso mesmo. Um recomeço pleno de novas formas de estar junto dos outros e de praticar serviço público, descobertas neste período. Assim, o que encontramos nestas páginas é mais um passo num caminho que se quer mais próximo de todos. Resulta do esforço hercúleo de toda a nossa equipa e de todos os criadores que connosco colaboram. De todos os que não desistiram de apontar caminhos, de combater dragões e de desenhar uma cartografia de luz. Começando sempre por “Era uma vez”. Como foi ontem, é hoje, e será amanhã… Bem-vindos ao Teatro Nacional São João. O espetáculo vai começar. (Nuno Cardoso Diretor Artístico)

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