José Manuel Soares é presidente do Valadares Gaia Futebol Clube desde a sua fundação, em 2011. O presidente falou, em entrevista ao AUDIÊNCIA, sobre a paixão que o move e sobre o que diferencia este clube de tantos outros em Vila Nova de Gaia.

 

Qual é a história do Valadares Gaia Futebol Clube?
Nós quando fundamos este clube, em 2011, quisemos que ele tivesse o nome da nossa freguesia e o nome do nosso concelho, desta forma temos Vila Nova de Gaia associada ao nosso clube, não só por uma questão de marketing, mas, essencialmente, por uma questão de sentimento de pertença, por pertencermos ao terceiro maior concelho do país, com o qual nos identificamos muito. Portanto, eu associei-me a um projeto ambicioso, juntamente com uma série de pessoas, no sentido de formarmos um clube, onde pudéssemos partir da estaca zero, para não cometermos determinados erros que foram realizados no passado e foi isso o que fizemos. Eu costumo dizer que, apesar de o Valadares Gaia ter 7 anos, possui uma alma de 88 anos, porque o Valadares Gaia é um clube refundado do Clube de Futebol de Valadares, e foi com muito gosto, com muita dignidade e com muita honra que refundamos o clube, o que não é depreciativo para ninguém. Não estou a querer julgar nenhuma direção anterior do Valadares, porque o Valadares teve alguns problemas, que estavam a conduzir ao fim do futebol na freguesia de Valadares, e nós tivemos de iniciar do zero e começamos do zero em todos os escalões. Eu sou presidente do Valadares Gaia desde a sua fundação, já vou no terceiro mandato e posso dizer-lhe que o que nos move é, naturalmente, o engrandecimento do clube e continuarmos a fazer coisas novas e a proporcionar o crescimento sustentado do clube. No que respeita a nossa ambição, o que o Valadares Gaia quis fazer foi um projeto diferente, para não ser igual aos restantes clubes, pelo que nós quisemos apostar um bocadinho na diferenciação e começamos logo a fazer determinadas parcerias, que sabíamos que iam permitir potenciar o crescimento do clube e foi isso o que nós fizemos, em 2011, com o acordo com a Dragon Force, do Futebol Clube do Porto, que nos permitiu potenciar o crescimento do clube, e em 2012, ainda fomos mais audazes e mais ambiciosos e apostamos, também pela componente social, mas acima de tudo pela desportiva, num projeto estratégico totalmente diferenciador dos restantes clubes em Gaia que passou por dar a oportunidade às mulheres de poderem jogar futebol e este é um projeto que muito nos orgulha, porque os resultados estão à vista e aqui fizemos totalmente a diferenciação de todos os restantes clubes de Vila Nova de Gaia.

 

O Clube é composto por quantos escalões? Que modalidades são praticadas?
O Clube tem futebol e futsal e 22 escalões de competição, dos quais 6 são referentes ao género feminino.

 

Qual é o número de atletas que o clube tem atualmente?
O Valadares Gaia tem um total de 610 atletas, dos quais 120 são do género feminino. Eu posso afirmar que este é um número bastante ambicioso. Aliás, eu recordo-me que, em 2011/2012, durante a primeira época enquanto presidente o Valadares Gaia tinha 170 atletas, por isso, praticamente, quadruplicamos o número em sete anos.

 

Como surgiu a Academia de Futebol Feminino de Valadares?
Nós quando decidimos ter futebol feminino, sabíamos que havia uma grande lacuna no nosso concelho de Vila Nova de Gaia, porque vivemos numa sociedade muito injusta e muito discriminatória, isto porque os clubes não permitiam que as mulheres jogassem futebol, pelo que nós aqui quisemos fazer uma viragem e quisemos ser diferentes e ser diferente foi proporcionar às mulheres as mesmas condições que os homens têm e transportar essas mesmas condições para o futebol feminino. Daí nasceu o futebol feminino. Inicialmente, nós contamos ter apenas um escalão da equipa sénior, mas, entretanto, deparamo-nos com uma surpresa, que foi o facto de nos começarem a aparecer jovens de todas as idades, o que nos fez criar condições e criamos a Academia de Futebol Feminino de Valadares, a tal que é composta, hoje em dia, por 120 mulheres que estão repartidas por seis escalões do Valadares Gaia Futebol Clube.

 

O Valadares Gaia tem quantos sócios neste momento?
O Valadares tem cerca de 800 sócios e este é um número que nós gostávamos de aumentar, mas o facto de não termos uma bancada coberta não nos tem permitido fazer crescer o clube, nem o número de sócios, porque vivemos no litoral e quando temos invernos rigorosos torna-se difícil mobilizar as pessoas a deslocarem-se até ao complexo desportivo, por não existir um local abrigado de onde elas possam assistir ao jogo. Estas são lacunas graves que nós temos de construção, no complexo desportivo, que já foram identificadas por nós à Câmara Municipal de Gaia e nós temos uma Câmara, neste momento, que sabe e que está disponível, naturalmente, para ajudar o clube e para resolver os problemas. Eu penso que será uma questão de tempo até termos esta situação resolvida. Esta é uma problemática que já vem do passado e do anterior executivo, no qual as pessoas simplesmente abandonaram o clube e não quiseram saber.

 

O clube conta com o apoio de quantos técnicos efetivos?
A Dragon Force é responsável pela gestão das nossas camadas jovens masculinas até aos Sub 15. O Valadares Gaia tem a responsabilidade a partir do escalão Sub 15 em diante e por toda a Academia de Futebol Feminino. Neste contexto, posso afirmar que o Valadares gere 13 equipas de forma independente, sendo que os outros 9 escalões são geridos por equipas técnicas oriundas da Dragon Force e da estrutura do Futebol Clube do Porto.

 

Que balanço faz desta época?
Eu faço um balanço positivo desta época. Nós conquistamos alguns títulos e conquistamos o segundo título nacional de futebol feminino. Eu relembro que o Valadares é o único clube em Vila Nova de Gaia que tem dois títulos nacionais em futebol de 11 e também acabamos por conquistar dois títulos distritais nas camadas jovens. É verdade que não conseguimos almejar a subida que queríamos nos seniores masculinos, mas também não havia nenhuma obsessão. Tenho de admitir que por culpa nossa, mas também devido a outros fatores, não conseguimos a subida de divisão, mas não existia nenhuma preocupação nesse sentido. Mas a verdade é esta, eu nunca trocaria nenhum título nacional do Valadares por uma subida ou por uma presença no nacional, porque os títulos são bem mais importantes para nós e é isso o que fica.

 

A equipa B feminina conquistou a Taça de Promoção, depois de derrotar o Viseu 2001 por duas bolas a uma. Qual é o significado desta vitória?
Esta vitória teve um significado enorme para nós, porque quando nós decidimos ter a equipa B feminina, isso criou, a nível interno, alguma confusão na cabeça das pessoas, ou seja já tínhamos uma equipa A, porque motivo haveríamos de ter uma equipa B feminina e não uma equipa B masculina? A resposta é simples, foi estratégia e foi uma visão inteligente da nossa parte, porque nós, com a equipa A, sabíamos que com a entrada do Sporting e que com a entrada do Braga e agora do Benfica, que iríamos, naturalmente, perder jogadoras da equipa A para esses clubes, que têm outro potencial, outros orçamentos e outras possibilidades, que o Valadares não tem. Pelo que nós precisávamos de ter uma equipa interna, dentro de portas, que pudéssemos potenciar e contribuir para a aquisição de ritmo competitivo em jogo, e com a qual pudéssemos ganhar, para depois podermos fazer a ponte da equipa B para a equipa A. Posso dizer-lhe que esta foi uma visão acertada por parte da direção, tanto que a nossa equipa B acabou por conquistar o título nacional da segunda divisão, mais especificamente a Taça Nacional de Promoção, o que prova que a visão do clube estava correta.

 

 

 

Fale-me sobre as outras conquistas das equipas de futebol feminino e das equipas de futebol masculino.
O futebol feminino conquistou, entre 2012 e 2018, dois títulos nacionais e subiu da segunda divisão à primeira divisão nacional, o que, para seis anos, é muito bom. Nós fomos vice-campeões nacionais e estivemos em duas finais da Taça de Portugal. Posso dizer-lhe que uma das coisas das quais mais me orgulho é o facto de ter ouvido o hino nacional do nosso país ao serviço do meu clube e do clube que eu gosto, estando presente na tribuna presencial do Estádio do Jamor. Este é um momento do qual eu jamais me irei esquecer e foi uma das ocasiões mais marcantes. A realidade é que perdemos as duas finais, no entanto o Valadares Gaia foi um digno vencido e esteve presente no Jamor, feito que mais nenhum clube de Vila Nova de Gaia alcançou. Portanto, aconteceram coisas muito boas com futebol feminino nestes últimos seis anos, tal como aconteceram coisas muito boas com o futebol masculino. Nós, em 2011, começamos na segunda divisão distrital, conseguimos subir por três anos consecutivos, mas depois falhamos a quarta subida devido a uma troca de regulamentos por parte da Federação Portuguesa de Futebol e da Associação de Futebol do Porto, que impediram o acesso do Valadares ao Campeonato Nacional de Seniores (CNS), num ano em que ficamos em segundo lugar. Basta lembrar que este ano o segundo lugar da Associação de Futebol do Porto subiu de divisão e há dois anos o Valadares ficou em segundo lugar e não subiu coisa nenhuma, exatamente devido a essa troca, por isso sentimo-nos altamente injustiçados por tudo o que aconteceu, mas continuamos na luta.

 

Qual é o segredo para tão altos pergaminhos?
Não há segredo nenhum. Há muita vontade e há muito voluntarismo, porque estamos a falar de uma associação desportiva onde o voluntarismo e o associativismo é um voluntarismo e um associativismo puro, sem qualquer tipo de interesse, porque há uma grande paixão que nos move pelo clube e nós temos uma direção muito unida que é composta por 41 diretores para 610 atletas, pelo que existe muita vontade em fazer algo diferente. Por isso não há segredo nenhum, apenas paixão e vontade de tornar o clube maior.

 

Quais são as suas perspetivas para a nova época? Vai haver novidades no que respeita os treinadores e os jogadores?
Nós na equipa sénior masculina decidimos dar continuidade ao trabalho que tem sido feito e convidamos o treinador masculino a renovar para ficar connosco. No entanto, nós terminamos um ciclo de um treinador do futebol feminino que ganhou a supertaça e vamos trazer um treinador novo, muito ambicioso, um jovem da casa, que é o professor André e ele vai iniciar um ciclo novo e vai ser treinador principal, pela primeira vez, uma vez que ele já trabalhou connosco na equipa feminina. O Valadares é um clube muito estável que aposta muito na continuidade e na estabilidade e o treinador para nós não é o elo mais fraco quando os resultados não aparecem, porque nós temos o discernimento de perceber o que é que vai para além do treinador, por isso é um clube muito estável e nós com estabilidade conseguimos fazer melhor as coisas.

 

Um dos projetos do Valadares Gaia é a Sede Social, pode falar-se sobre ele? De que forma vai permitir ao clube ser independente e ter receitas próprias?
A Sede Social é também um projeto muito ambicioso do clube. Nós herdamos as antigas instalações da Polícia de Segurança Pública de Valadares, onde temos tido liberdade para reconstruir o espaço em si, a nível interior. Nós aproveitamos para fazer uma casa polivalente, na medida em que vamos ter um café-restaurante que ainda não decidimos se vamos dar á exploração ou se vai ser explorado pelo clube, decidimos ter um Lar do Jogador, que é outro projeto diferenciador e inovador porque nós podemos ter até 8 jogadores a viver dentro de portas em instalações muito condignas de habitabilidade e de higiene, temos também um espólio, uma sala museu do clube, no primeiro andar, e uma sala de reuniões, na qual reunimos os tais 41 diretores de 15 em 15 dias. Quando eu digo que esta Sede nos pode ajudar a tornar o clube não subsídio-dependente tem a ver com isto, ou seja, insere-se dentro daquela mesma estratégia do empreendedorismo que o clube tem na realização dos eventos para a angariação de receitas, para não estarmos à espera nem dos subsídios da Câmara Municipal, nem da Junta de Freguesia, por isso queremos caminhar e dar passos por iniciativa própria, passos únicos e um passo de cada vez. Este é um projeto audaz, é um projeto ambicioso e eu estou convencido que, até ao final do ano, nós vamos inaugurar a Sede Social.

 

Quais são as ambições e projetos que tem em mente para o Valadares Gaia Futebol Clube?
Como eu referi anteriormente, um dos nossos objetivos é conseguir inaugurar a Sede Social até ao final de dezembro. Contudo, a principal ambição passa por melhorar as infraestruturas do nosso complexo. Nós temos balneários metálicos, balneários que se degradam com alguma facilidade, atendendo a natureza dos materiais de construção que foram utilizados, e nós queremos muito, naturalmente, ter uma bancada coberta com os balneários por baixo, este é o grande objetivo. Nós queremos melhorar as infraestruturas, porque ao melhorar as infraestruturas o clube pode crescer noutro tipo de aspetos, quem sabe também a nível de atletas, e pode dar mais qualidade à formação e às equipas seniores. Esse vai ser o próximo grande objetivo do clube. Nós queríamos, naturalmente, aumentar o número de sócios, mas reconhecemos que para crescermos em número de sócios precisamos de melhorar as infraestruturas. É óbvio que o Valadares Gaia não consegue melhorar as infraestruturas sozinho e precisa muito do apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e da Junta de Freguesia Gulpilhares e Valadares.

O clube vive de apoios e a realização de projetos depende dos orçamentos, muitas vezes encolhidos, como tal, acha que aquilo que a Junta de Freguesia de Gulpilhares e Valadares e a Câmara Municipal de Gaia dão ao Valadares Gaia já é suficiente, ou acredita que podiam ir mais longe?
Eu acredito que nós temos de separar dois tempos, porque antigamente tínhamos um executivo que vivia muito de “show off” e que era um executivo que estava longe de tudo, nomeadamente das pessoas, das instituições e das instituições desportivas. Em contrapartida, tem existido uma aproximação muito grande da parte do atual executivo da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, para com as preocupações dos clubes e essa proximidade tem que ver com a dedicação que existe agora, porque as pessoas estão mais sensíveis, estão mais próximas, estão mais dialogantes e é mais fácil de se conseguir alguma coisa. Eu sei que Câmara Municipal está sensível aos problemas do Valadares, bem como a Junta de Freguesia, e os problemas estão identificados, as pessoas sabem e que nós confiamos muito no atual executivo e na Junta de Freguesia para resolver estas situações, porque notamos, por parte destas pessoas, um diálogo, proximidade e dedicação que, como eu já afirmei, não sentíamos no passado, por isso eu não tenho a menor dúvida de que os problemas do Valadares se vão resolver, uma vez que as pessoas sabem o que é que está a acontecer e verdade seja dita, nós também merecemos por tudo aquilo que temos feito, pelo crescimento sustentado do clube que passou de 170 atletas na primeira época para 610, por termos feito uma correção numa sociedade altamente injusta e discriminatória, porque privilegiamos a igualdade de direitos sem qualquer tipo de discriminação no futebol, aliás o Valadares foi galardoado com uma medalha de Mérito Municipal na classe de Ouro Desportivo, pela Câmara Municipal de Gaia, por todo o trabalho que foi concretizado no futebol feminino, por isso as pessoas estão muito atentas e sabem o que estamos a fazer e sei que não nos vão deixar ficar órfãos em todos estes projetos que o Valadares quer concretizar, porque não são para nós, não são para o presidente, são para a população, para uma comunidade e para uma freguesia que está cada vez mais envolvida no clube. Obviamente, a Câmara tem diversas dificuldades e não nos dá tudo o que nós pedimos, como é óbvio. Contudo, os clubes também têm de fazer pela vida, ou seja, os clubes também não podem ser subsídio-dependentes e têm de ter iniciativas próprias e nós, o Valadares Gaia, somos um clube diferenciador, nesse aspeto, porque nós não somos subsídio-dependentes. Nós achamos que a Câmara e a Junta de Freguesia têm de ajudar, dentro das suas limitações, e nós temos obtido, nestes últimos tempos, essa ajuda da parte deles, se é a que todos nós necessitávamos? Não, mas é muito melhor do que a que nós tínhamos no passado. Agora, nós fazemos uma série de iniciativas e eventos ao longo do ano, que permitem ao clube não ser subsídio-dependente. Eu posso dar-lhe um exemplo, o Valadares Gaia esteve presente na festa da Nossa Senhora dos Aflitos, com uma barraquinha de comes e bebes, pelo 7º ano consecutivo. Nós fazemos muito para as coisas acontecerem, não estamos à espera de um subsídio da Câmara ou da Junta de Freguesia para poder sobreviver.