As férias de verão, que nos ajudam a retemperar força e energia para enfrentar os desafios do dia-a-dia que os tempos futuros nos reservam, chegam ao fim. E apesar das incertezas que continuam a pairar sobre a “normalidade” do nosso quotodiano, face às contingências da pandemia, não podemos deixar de retomar as nossas rotinas. Uma delas passa por decifrar mais um enigma…

 

TORNEIO DE INICIAÇÃO A. RAPOSO

Prova nº. 4

“Tempicos e os Irmãos Sherif”, de Raposo & Lena

Os irmãos Sherif eram gémeos monozigóticos, iguais como fotocópias, filhos de mãe alemã e de pai paquistanês.

Eram ainda crianças quando os pais se separaram e se desfez o casamento. Um ficou com o pai e o outro com a mãe.

Cresceram, assim, em ambientes completamente diferentes de crenças e hábitos. Um foi educado à maneira europeia e o outro, no Paquistão, à maneira muçulmana. Hermann veio com a mãe para a Alemanha e Malik ficou com o pai.

Quando voltaram a encontrar-se, já adultos, verificaram que tinham um certo pendor para a “golpada”, não obstante terem sido educados separadamente. A culpa talvez fosse dos genes.

Pensaram e formaram uma associação criminosa. Como eram iguais, decidiram ter a mesma identidade, isto é, serem o mesmo Sherif, Hermann ou Malik, conforme a conveniência do momento, ou serem duas pessoas diferentes, como de facto eram. Mas tudo sempre baralhado. Ambos pediram segundas vias dos respectivos passaportes (alegando extravio ou roubo) que depois trocaram entre si. Cada um passou a ter duas identidades e dois passaportes com nomes diferentes. Uma espécie de homens duplicados! Podiam, portanto, coexistir em termos de identificação documental os seguintes pares: Hermann/Malik, Malik/Malik, Malik/Hermann e Hermann/Hermann

Deste jeito, era fácil a um fazer um roubo e ao outro fornecer um álibi!

A sociedade, formada no dealbar do século XXI, foi medrando e ganhando muito dinheiro. As polícias sabiam que havia ali marosca, mas oficialmente nada podiam fazer. Faltavam as provas. Eles atuavam separados, comunicando-se por telemóvel. Por vezes, enquanto um atuava, o outro fazia-se deter por um qualquer delito menor. Passados uns dias o preso pagava a fiança e saía alegremente.

Nos assaltos “à Sherif” notava-se que o ladrão usava luvas e tinha o cuidado de não deixar qualquer resíduo orgânico, pois nunca se encontrara a mais pequena dedada, cabelo ou escama de pele que pudesse ser atribuída a um Sherif, salvo dois casos insólitos que refiro a seguir. Durante a operação do roubo, presume-se que o mano assaltante se vestia como se estivesse numa sala de operações cirúrgicas. Estranhamente, apanhou-se de uma vez um alicate e de outra uma chave de parafusos, as quais, por incrível que pareça, tinham exclusivamente as impressões digitais do mano encarcerado.

Não há muito tempo – estava eu de serviço na PJ, em Lisboa – calhou-me ir visitar (por mera curiosidade, pois aquele caso não me pertencia) a cela da Judiciária onde Malik Sherif se encontrava detido. Tinha ficado preso no dia anterior por uma questão pouco importante e fora identificado pelo passaporte.

E aconteceu o que alguns adivinhavam, o Malik fez-se prender para o seu mano atuar, fornecendo-lhe um álibi, pois, naquela mesma noite, uma ourivesaria em Frankfurt fora assaltada “à Sherif” e aliviada de imensas jóias, conforme informação posterior da polícia alemã. Um golpe de mestre.

Lembro-me bem do que vi.

O preso vestia e tinha o aspeto de um autêntico paquistanês, com uma belíssima barba a condizer. No momento em que entrei estava em plena oração, ajoelhado num tapete de sua propriedade.

A cela era pequena, mas arejada. Naquele fim de tarde, o sol entrava pela janela de grades. Pensei que a expressão “o sol aos quadradinhos” se adequava muito bem à cena, pois Sherif, ao elevar-se da prece, e antes de se voltar para mim, ficou com a quadrícula das grades desenhada na cara.

Ele falava corretamente várias línguas e saudou-me afavelmente:

– Alá é grande e Maomé o seu profeta.

Tinha dinheiro e notei que o guarda lhe facilitara a vida.

Naquela tarde de agosto o calor forte fizera com que o carcereiro (à troca de algum) lhe arranjasse uma sandes mista e uma Sagres. Sabiam melhor que o rancho do refeitório da polícia. Um livro que devia ser o Corão também lhe fazia companhia.

À saída troquei com o guarda breves impressões sobre o comportamento do preso.

Disse-me que era muito educado e cumpridor escrupuloso dos preceitos da sua religião.

– Um verdadeiro crente – acrescentei eu antes de me despedir.

Saí a pensar que um dos irmãos estivera a trabalhar e o outro a “construir” o respectivo álibi na prisão, para ser mais convincente. Porém, já estava certo sobre qual dos dois tinha pernoitado na PJ. E por exclusão, quem fizera o roubo na Alemanha.

Julgo que os meus amigos também irão descobrir quem fez uma coisa e a outra e por que razões os dois manos actuavam como indiquei atrás.

           

DESAFIO AO LEITOR

Respeitando as questões suscitadas pelo seu autor, o leitor tem agora 15 (quinze) dias para enviar para o orientador da secção uma proposta de solução ao problema acima publicado, através do email salvadorpereirasantos@hotmail.com. Aconselha-se, como sempre, leituras muito atentas.

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