Sempre foi procedimento habitual dos comentadores de serviço ao grande capital e seus interesses, verberar com grande ousadia e desenvoltura os perniciosos efeitos das greves e das lutas de todos quantos as promoviam em defesa de direitos constantemente atropelados e postos em causa.

Ouvíamos, líamos e víamos em profusão entrevistas proporcionadas ao povo anónimo, mas também a conhecidas personalidades do nosso burgo, insurgindo-se contra esse direito constitucional, supostamente em oposição aos que trabalhavam para o bom andamento da economia do País que assim não se poderia desenvolver, apesar do dedicado esforço e sacrifício de outros empenhados em salvá-lo.

Pois são esses mesmos comentadores que, algum tempo após a tomada de posse do actual governo, consideraram estranho e lamentaram a falta de greves e concluíram pela existência duma apatia social imprevisível, ou seja, teria deixado de existir o recurso à greve e à luta dos trabalhadores e outros extractos da população com direitos ameaçados.

Uma leitura superficial desta conduta conduziria à ideia de que a desorientação se teria instalado nessa classe comentista ou, pior ainda, que a sua inspiração analítica teria sido possuída por diabólicas fontes em resultado das lutas terem acabado, se não tivéssemos conhecimento das razões desse procedimento.

O problema é outro, pois, os que anteriormente procuravam passar essa ideia de um país a fazer sacrifícios enquanto outros se dedicavam ao «folclore das greves e das lutas», faziam-no com os mesmos pressupostos e objectivos com que pretendem agora passar a falsa ideia de uma decretada paz social ou de sindicatos acomodados, ou seja, desacreditar a luta e as suas razões, tentar influenciar a acção dos trabalhadores e procurar condicionar, a partir de fora, a independência do movimento sindical.

Quem assim pensa e age não o faz por mera ignorância, pois sabe que a luta e o recurso que dela fazem os trabalhadores, não é um divertimento, mas sim corresponde à forma última e mais decisiva que têm na sua relação com o capital de fazer valer direitos e conquistar salários, não se decreta nem se pratica contra vontade, mas sim como um processo de valorização de quem trabalha e é alvo de exploração.

Só quem olha para os trabalhadores como peças da engrenagem da exploração ou como indivíduos descartáveis ao sabor da maquinação do máximo lucro, pode considerar que os trabalhadores se mobilizariam, paralisariam ou se manifestariam por mera ordem de um imaginável centro de comando.

Para descanso desses comentistas, o tempo actual confirma que a luta continua, tanto no sector público como no privado, apesar deste último continuar a ser sistematicamente e incompreensivelmente ignorado.

É o que tem acontecido nas empresas e nos sectores, com uma dimensão reivindicativa insubstituível e grandes vitórias alcançadas, reflectindo um aumento de confiança nos seus resultados, não cedendo a recados e pressões, mas dando valor a cada luta travada, ignorando aqueles que, em coro, aparecem a lastimar-se de acções nacionais como a de 3 de Junho por, segundo eles, representarem pouco, a greve geral é que era o indicado.

Percebe-se perfeitamente, mas lá terão de viver com essa insuficiência no seu conforto de opinião formatada, mesmo que desejem que a situação evolua, não para abrir caminho a melhores condições de vida dos trabalhadores, mas para regressar a um saudoso passado recente que tanto desejam.

No entanto, contra essa vontade expressa, os trabalhadores manter-se-ão alicerçados na sua experiência de luta e na afirmada independência de decisão, quanto à forma de fazer valer os seus direitos, quando e onde for necessário.

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