Depois de dois anos de interregno, causados pela pandemia da Covid-19, as Festas em honra do Santíssimo Salvador do Mundo regressaram à Ribeirinha, na Ribeira Grande. Marco Furtado, presidente da Junta de Freguesia da localidade falou, em exclusivo ao Jornal AUDIÊNCIA, sobre a festividade e o envolvimento da autarquia na sua realização. Carlos Sousa enfeita a igreja há mais de 25 anos e também falou a este órgão de comunicação sobre o seu amor pela arte que desempenha. Além disso, o edil ribeirinho também falou do futuro da freguesia e dos sonhos que tem para a mesma.

 

 

 

Depois de dois anos em que as Festas em honra do Santíssimo Salvador do Mundo foram restritas, devido aos constrangimentos da pandemia da Covid-19, este ano, entre os dias 4 e 9 de agosto, a festividade regressou aos seus moldes habituais, brindando os ribeirinhos com muita música, animação e momentos de fé.

No primeiro dia da festa, 4 de agosto, aconteceu a procissão de Santo Antão, bem como a bênção dos animais e a abertura do bazar. Seguiu-se a arrematação do gado e, para fechar a noite, atuou o Grupo de Folclore de Santa Bárbara. No dia seguinte, a noite ficou a cargo da Junta de Freguesia da Ribeirinha e houve, como já é tradição, as Cantigas ao Desafio, seguidas da atuação de Eduardo Simas. No sábado, dia 6 de agosto, pela tarde houve a procissão, seguida de uma missa solene e, nessa noite, subiu ao palco o grupo Imperadores. No domingo, a Ribeirinha acordou com o toque da alvorada, sendo que às 11h30 aconteceu a missa solene e, nessa tarde, a procissão percorreu as restantes artérias da freguesia. Para terminar esse dia da festividade, os ribeirinhos puderam assistir à atuação dos Abba Gold. Na segunda-feira, 8 de agosto, houve uma missa solene com Santa Unção e, de tarde, um cortejo de ofertas. Depois aconteceu a abertura do bazar, seguido da arrematação das ofertas, enquanto que, no final do dia, atuaram as Marchas da Ribeirinha e subiu ao palco o grupo Brumas da Terra. No último dia de certame, pela manhã, houve missa solene. Posteriormente aconteceu, de novo, o cortejo de ofertas, cuja arrematação aconteceu mais tarde, nesse mesmo dia. À noite, a Banda Filarmónica do Santíssimo Salvador do Mundo brindou todos com o seu concerto e as festas terminaram com a saída da imagem do padroeiro e o fogo de artifício.

Em declarações exclusivas ao AUDIÊNCIA, Marco Furtado, presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha, falou sobre a sua colaboração na organização das Festas em honra do Santíssimo Salvador do Mundo. “A Junta sempre teve um dia da festa em que tratava da organização, no caso, é a sexta-feira. Por tradição, temos sempre as cantigas ao desafio, porque houve um ano que não o fizemos e as pessoas não gostaram”, explicou o autarca.

Além do papel na organização direta, como é o caso da programação da sexta-feira que fica, sempre, a cargo da Junta, a autarquia também se envolve na questão das ofertas e das rematações, e, mais importante ainda, na limpeza do espaço. “A Junta de Freguesia é que trata de toda a limpeza do espaço da festa. À meia noite de quinta, sexta, sábado, domingo e segunda, começamos a limpeza da zona da festa, fazemos isso para que, logo de manha, quando as pessoas acordam, não tenham noção da quantidade de lixo que fica na rua, qualquer pessoa que queira visitar o Santíssimo Salvador do Mundo, a qualquer altura, durante o dia, não sabe que houve arraial, porque nós retiramos todo o lixo. Quem acorda, de manha, vê tudo limpinho e agradável, essa é a imagem que queremos transmitir da freguesia”, referiu Marco Furtado.

Depois de dois anos em que as comemorações foram restritas e em que a procissão era feita com a imagem do Santíssimo em cima de uma carrinha a percorrer as ruas da freguesia, este ano, a comunidade pode voltar a reunir-se nas artérias da Ribeirinha, decorarem as suas ruas e viverem a experiência como sempre o fizeram. Para marcar o regresso da normalidade, a autarquia fez um tapete que consistiu na bola do Santíssimo Salvador do Mundo. Além disso, também decorou as janelas do edifício da Junta de Freguesia com arranjos florais e colocou uma imagem gigante do padroeiro na fachada da Junta e no local onde, antigamente, ficava localizada a Ermida do Santíssimo Salvador do Mundo. ”Eu não tenho idade para me recordar, mas foi uma maneira de quem nos visita e já está há muitos anos fora da freguesia, relembrar aquela zona, porque era ali que ficava a Ermida”, disse o presidente que destacou, também, que todo o trabalho que a Junta fez foi “para a comunidade, tanto para os ribeirinhos, como para quem nos visita”. Mas tanto brio só foi possível graças ao trabalho árduo dos colaboradores da autarquia, a quem o presidente Marco Furtado agradeceu por colaborarem no embelezamento da freguesia para a festa, e esse embelezamento foi muito além da limpeza do espaço. “A festa não é só o que as pessoas veem. Além de prepararmos a zona do gado e limparmos, tudo o que era muros e muredos na entrada da freguesia foram todos pintados de novo, algo que não acontecia há muitos anos. Isto teve um peso muito grande a nível de recursos humanos, que fez com que trabalhássemos em alta rotação, muitos dias fora de horas, mas, mais uma vez, queria agradecer aos nossos colaboradores. O executivo tem as ideias, não manda, coordena, mas se não tiver força humana que o apoie, torna-se extremamente difícil de executarmos estas obras”, mencionou o edil. Apesar da procissão não chegar à zona das Gramas, também ela foi toda arranjada e limpa, para que a festa fosse, lá, igualmente lembrada.

Marco Furtado apontou as procissões como os momentos altos das Festas em honra do Santíssimo Salvador do Mundo.  Como referido anteriormente, a procissão é dividida em dois dias, “para não tornar a procissão de domingo muito comprida e muito cansativa”, referiu o autarca, deixando claro que não existe procissão principal e que, em ambas, as pessoas se dedicam muito. Alexandre Gaudêncio, presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, participou nesse momento solene. O autarca da Ribeirinha admitiu que as pessoas “têm fome de festa, fome de sair de casa”, e que isso contribuiu para uma enorme participação na festividade. O facto dos emigrantes, que estiveram impedidos de vir “a casa” durante o tempo da pandemia, também ajudou a que as ruas da Ribeirinha tivessem bem compostas, no entanto, Marco Furtado lamenta que haja tantas críticas. “Algumas pessoas disseram que a procissão não foi tão grande ou tão longa como noutros anos, mas comparativamente com o último ano em que houve procissão, posso dizer, sem margem de dúvidas, que foi uma excelente festa, com uma participação muito grande (…). Quem critica a procissão por ter sido pequena, porque não participou nela? (…) Qualquer problema que tenham com o padre, com a comissão, ou até com a Igreja, não tem nada a ver com o não participarem nas missas, nas procissões, porque isso são atos de fé. Se as pessoas não se reveem numa decisão que foi tomada por uma pessoa, que é um ser humano, que por natureza erra, não devem descarregar na festa”, constatou o presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha.

Apesar destas pequenas questões, o autarca garantiu que o balanço foi positivo e que já se aguarda, ansiosamente, pela edição de 2023.

Carlos Sousa embeleza a festa há mais de 25 anos

Carlos Sousa vive na Ribeirinha desde que nasceu. Apesar de ser assistente técnico administrativo de profissão, garantiu, em declarações exclusivas ao Jornal AUDIÊNCIA, que já nasceu com o dom para os arranjos florais. “Desde pequeno que, aqui em minha casa, fazia arranjos com flores secas e pauzinhos, e ao longo dos anos fui sempre melhorando a minha técnica de decorar”, referiu. Era o ano de 1995 ou 1996 quando surgiu a oportunidade de, em conjunto com uma amiga florista que havia regressado do Canadá, começar a enfeitar a igreja nas Festas do Santíssimo Salvador do Mundo. Essa amiga teve de deixar a parceira oito anos depois, por motivos de saúde, mas Carlos continuou, e continua até hoje.

Além das Festas do Santíssimo Salvador do Mundo, Carlos Sousa enfeita a igreja em todas as outras datas festivas, como Natal, Páscoa, mas também em outras ocasiões a pedido de amigos, como casamentos, batizados e comunhões, mas a festa terá sempre um sabor especial e Carlos garantiu que, enquanto puder e o quiserem lá, não deixa este trabalho que faz, acima de tudo, por paixão. “Desde novinho, sempre gostei de ir para a igreja, na altura ajudava muito no grupo de jovens, nas liturgias, fui catequista, sempre tive uma ligação à igreja, apesar de, nessa altura, ainda não fazer decorações”, explicou.

O florista contou que a inspiração para a decoração, tanto do espaço da igreja, como do andor, surge na hora, sem grandes programações ou planos. “A minha inspiração aparece na hora, não é nada planeado com antecedência. Costuma-se dizer que a pessoa que tem arte, não precisa estudar. Às vezes posso idealizar e dizer que vou fazer assim, mas quando chego ao sítio, na hora, não sai da maneira que eu pensei, aliás, às vezes, sai ainda melhor do que aquilo que eu planeei”, referiu Carlos Sousa, que ainda confessou que, este ano, esteve na igreja até às 3h30 da madrugada a terminar tudo.

Marco Furtado não se cansou de elogiar o trabalho de Carlos Sousa, que, além de florista e assistente técnico administrativo, também é 2º secretário da Assembleia de Freguesia da Ribeirinha. Para marcar o regresso das festas, depois de dois anos de interregno, a autarquia quis vestir-se a rigor, sendo que, para isso, chamou Carlos Sousa para decorar as janelas do edifício da Junta. “Acho de louvar, porque depois de uma semana de trabalho, ainda teve um tempinho para nos ajudar. Queremos agradecer-lhe e dar uma palavra de apresso às pessoas que trabalham sem olhar ao dinheiro”, aludiu Marco Furtado, destacando que a Junta de Freguesia adquiriu as flores, mas que Carlos não levou dinheiro nenhum pela montagem dos arranjos florais. “É difícil eu dizer que não, só se eu tiver mesmo muito ocupado”, disse o florista sobre o convite que recebeu por parte do executivo da Ribeirinha, assumindo que aceitou logo o convite e gostou do trabalho que foi feito.

Ribeirinha pós festividade

Mas o trabalho na freguesia não terminou com as Festas do Santíssimo Salvador do Mundo, Marco Furtado lembrou que, depois do trabalho de limpeza na Ribeirinha para o certame, o difícil será manter. “Existe a proibição do uso de pesticidas e herbicidas na rua, enquanto que antigamente limpava-se a rua e dava-se o produto, que aguentava muito mais tempo, agora não, a manutenção é maior e mais dispendiosa a nível humano e de recursos”, apontou, salientando que o fim de alguns programas de emprego dificultará bastante a vida à Junta neste aspeto.

Para breve, o presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha quer voltar a tirar os idosos de casa, voltando a efetuar o Dia do Idoso, que consiste num passeio, seguido de um almoço ou jantar para os idosos da freguesia. O autarca lembrou que “nestes dois anos, alguns idosos, bem ou mal, ainda conseguiram sair de casa, ir às compras e assim, mas há aqui outros que particamente ficaram fechados em casa durante dois anos e temos de nos dedicar a eles”.

Quanto a obras na freguesia, o edil ribeirinho referiu a importância das obras no Porto de Santa Iria e demonstrou esperança em, até ao fim do ano, ter novidades sobre esta questão que já se arrasta há muito tempo. Mas há outras questões que devem e vão ser melhoradas na freguesia, uma delas trata-se da construção de um parque de estacionamento na rua Direita. “Fizemos um levantamento daquela zona, conseguimos contar 97 carros na rua, o que torna praticamente impossível a circulação em algumas horas”, explicou Marco Furtado. Referindo este mesmo assunto, uma vez que o terreno para a construção do parque de estacionamento foi adquirido pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, o autarca não deixou de elogiar Alexandre Gaudêncio pelo apoio que têm prestado à Ribeirinha, deixando claro que “a Câmara Municipal tem sido um parceiro fundamental no desenvolvimento da freguesia”.

Marco Furtado também mostrou preocupação com outra questão: a falta de envolvimento das pessoas na vida associativa. “Os tempos são outros, é verdade, mas eu acho que as Juntas de Freguesia têm de ter este papel ativo de chamar a juventude para essas associações, se não corremos o risco de termos uma associação de pessoas que já querem é descansar e sem a irreverência da juventude, ou, no pior cenário, podemos ter a extinção de algumas dessas associações”, afirmou.

No que respeita aos sonhos, além do fim do flagelo que a ilha sofre relativo às questões das toxicodependências, Marco Furtado também salientou que gostava de ver resolvida a questão da falta de habitação. “Na Ribeirinha temos 38 casais a precisar de casa”, contabilizou o autarca que garantiu que este é um problema transversal a todas as freguesias. Mas abrir espaços para todos, também não lhe parece a solução. “Ao abrirmos um complexo de apartamentos, ou seja o que for, para o arquipélago todo, na minha opinião, estamos a criar problemas. Algumas pessoas vêm para aqui, por exemplo, porque não têm outra solução, nem gostam da Ribeirinha ou da Ribeira Grande (…) Se a pessoa é do Pico da Pedra, por exemplo, mas só há uma casa para alugar na Ribeirinha, e não há casas em mais lado nenhum, a pessoa não tem outro remédio, tem de se deslocar”, referiu como parte do problema. Segundo o edil, as questões deviam ser resolvidas freguesia a freguesia, ou seja, na Ribeirinha construía-se um complexo de apartamentos para os casais da terra, e, depois, o mesmo seria replicado nas diversas freguesias do concelho. O facto das pessoas se movimentarem de casa para casa e de concelho para concelho, segundo Marco Furtado, leva ao problema anteriormente referido, de falta de envolvimento na comunidade e nas associações, bem como “à perda da nossa identidade”.