Aos 36 anos de idade, Eduardo Moreira assumiu, no passado mês de fevereiro, o comando técnico do Clube Desportivo de Rabo de Peixe. Gaiense, que estudou no Colégio de Gaia, tem uma longa carreira desportiva ligada ao futebol, ao todo 20 anos da sua vida. Jogou até aos 16 anos no Vila. Depois, achou que jogar só não bastava e, quis vestir a pele de treinador e foi para treinador adjunto do Boavista, começando pelos sub-17. Esteve 5 anos nas panteras onde passou por diversos escalões, incluindo os seniores. Depois dali foi até ao vizinho Salgueiros por duas épocas, também como adjunto e nos escalões de formação. Seguiu para Arouca, 2ª Liga, onde esteve primeiro com Henrique Nunes e, depois com Vítor Oliveira, já falecido. Seguiu-se o Avintes como treinador principal, onde esteve época e meia, seguindo para o Nogueirense onde foi adjunto de Fernando Gomes. Como adjunto esteve também no União de Lamas, primeiro de Miguel Remelgado e depois de Luís Miguel.

Foi ainda adjunto de Carlos Cunha no Valadares Gaia e teve uma incursão no futebol feminino e foi até Fiães, onde foi primeiro adjunto da Mara Vieira, conhecida treinadora do futebol feminino, e assumindo depois o papel principal. Depois de ter estado no futebol feminino foi até à Póvoa, onde foi adjunto de João Eusébio, no Varzim. Daí transitou até ao distrito de Aveiro onde em Cesar, no Cesarense, foi adjunto de Secretário. Aí combinaram uma viagenzita até França e, assumiram o comando técnico de U.S. Créteil Lusitanos, na época 2018/2019. Já na época 19/20 esteve como adjunto de Ricardo Soares no Covilhã, e em 19/20 também acompanhou Ricardo Soares numa viagem até Moreira de Cónegos, onde esteve como adjunto no Moreirense. Fez um ano sabático até que alguém, de Rabo de Peixe, o desafiou a substituir uma figura histórica, aqui nos Açores, o treinador Francisco Agatão.

Agora, conversamos com o mais recente treinador do Clube Desportivo de Rabo de Peixe para conhecer as suas pretensões e objetivos futuros.

 

 

Como é que aconteceu este convite?

Antes de mais, queria agradecer aqui a oportunidade de poder estar a falar com gaienses e para gaienses, que é sempre um prazer e, depois de tantos anos, acaba por ser interessante ser a primeira vez que o faço. O convite do Rabo de Peixe surge com a saída do grande treinador de nome, Francisco Agatão e surge por intermédio de vários conhecidos e conhecimentos dentro do futebol. Solicitaram a oportunidade e as pessoas acharam interessante e acharam por bem convidar-me e, que poderia ser o homem certo para poder dar resposta a este enorme desafio e, portanto, foi dessa maneira que aceitei o convite. Estava, como disse, há uma época sem treinar, também por opção. Outras situações acabaram por não surgir, infelizmente. Portanto, surgindo esta oportunidade, eu aceitei e cá estou.

 

Assume o comando da equipa numa situação particularmente difícil, em que o clube ocupa o último lugar da Liga Portugal. Acredita que é possível manter o clube na Liga de Portugal?

Sim, no dia em que deixar de acreditar, saio. Portanto, obviamente que quando aceitei já sabia que aceitando qualquer  convite, não sendo dentro daquilo que seriam as minhas principais prioridades , que é a liga 3 ou liga 2, saberia que estaria sempre num contexto com alguma dificuldade mas, eu sempre fiz o meu percurso a lutar contra dificuldades, sempre fiz o meu percurso sempre em ascendente e, decidi aceitar este desafio, sabendo toda a complexidade que o envolve e sabendo a complexidade que eu vou percebendo ao longo do caminho que possa, eventualmente, envolver. Portanto neste momento sinto que tenho condições para poder enfrentar este desafio. Temos muito trabalho pela frente, muito trabalho de toda a gente, de todos os departamentos do clube e, nesse sentido estamos a trabalhar para criar as condições, como eu disse no dia da minha apresentação, a disputar todos os jogos para ganhar e para vencer os jogos todos da fase final.

 

Está numa das maiores freguesias do arquipélago dos Açores. Uma freguesia que já foi alvo de vários estudos, inclusive o atual presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, já estudou a vila de Rabo de Peixe. Por ser uma vila suisgéneris com muito positivo, algo também negativo, como todas as freguesias. Como é que foi recebido pela população e pelos adeptos do desportivo Rabo de Peixe?

Como sabe, nós não estamos a jogar nas nossas instalações porque o estádio ainda não está pronto, e jogamos na Ribeira Grande e não em Rabo de Peixe. Eu ainda não fui a Rabo de Peixe e, nesse sentido, tenho estado aqui na Ribeira Grande onde treinamos e jogamos e ainda não tive oportunidade de estar com os adeptos do Rabo de Peixe. Vamos ver se num futuro próximo surgirá essa oportunidade. Também tenho uma grande espectativa, lá está, pela tal curiosidade.

 

Mas nunca foi a Rabo de Peixe?

Não.

 

Então vai hoje. Vai meter uma fotografia em Rabo de Peixe. Vamos ter uma fotografia em Rabo de Peixe porque faz todo o sentido, não é? Se é que tem tempo.

Tenho.

 

Como é que encontrou o clube?

Encontrei um clube com dificuldades logísticas devido a esta situação do estádio. Encontrei um clube que é obrigado a partilhar casa com, pelo menos, mais dois e, naturalmente, isso causa sempre grandes problemas em termos logísticos, em termos de treino e em termos de condições de trabalho. Paralelamente a isso, nós temos um plantel bastante curto, bastante reduzido. Naturalmente fruto daquilo que tem sido a época física e emocionalmente abatido e, aquilo que nós temos feito nestas duas semanas em que cá estou, é tentar levantar estes homens, tentar motivá-los, tentar fazer deles uma família, um grupo e ao mesmo tempo transmitir-lhes algumas daquelas que são as nossas ideias, sempre com o foco de ganhar. Essa é a única forma que eu conheço de estar no futebol e eu já lhes disse e várias vezes digo, a toda a gente no clube que ganhar não é só uma palavra. Ganhar tem uma série de características e de questões que é preciso trabalhá-las e é preciso fomentá-las todos os dias da parte de todos e, é esse trabalho que nós temos vindo a fazer.

 

E não começou nada mal, o dérbi com o Sporting Clube Ideal que partilha o mesmo estádio até tiveram uma prestação, digamos, brilhante.

Sim, eu relativamente aos jogadores já a semana passada disse e referi, novamente, esta semana: não há nada que se possa apontar a estes homens, a estes jogadores. São de um caráter incrível, dentro daquilo que são as suas limitações. Neste momento, também estamos a tentar resolvê-las, nomeadamente, a nível físico. Têm dado tudo o que têm e o que não têm para poder ajudar o clube e, portanto, relativamente aos jogadores, têm sido uma entrega absolutamente extraordinária. Os jogos, neste momento, sinceramente, são muito no aspeto motivacional e no aspeto estratégico. Temos conseguido resolver grandes problemas e criar alguns problemas aos adversários que defrontamos, nomeadamente, do ponto de vista estratégico, na abordagem que temos aos jogo. E, mais uma vez, aí digo que os jogadores estão de parabéns porque, ainda este fim-de-semana, nós tivemos dois dias apenas para trabalhar o sistema e a abordagem estratégica que íamos ter para esse sistema para o jogo contra o Belenenses. E os jogadores deram uma resposta, independentemente do resultado, deram uma resposta bastante consistente e bastante capaz.

 

O que é que tem em mente para o futuro do Clube Desportivo de Rabo de Peixe? Sabemos que vamos entrar na fase final não é isso?

Sim, sim, temos mais um jogo nesta fase, e depois…

 

Depois é que é mesmo a sério…

É sempre a sério.

 

Sim, mas nesta fase, já está decidido que vai entrar na “série dos aflitos”, naqueles em que se vai ter que salvar e vai ter mais um jogo para rodar o seu sistema de jogo e adaptar os jogadores ao seu sistema de jogo para então sim, na fase decisiva, o grande Rabo de Peixe, vir ao de cima. Acha que vai conseguir isso? Aliás, já o disse que se não, teria ido embora, não é?

No dia em que eu deixar de acreditar, eu saio.

 

Normalmente, quando se contrata uma equipa técnica, ou um treinador, traz um aquartelamento de adjuntos e preparadores físicos. Também trouxe mais alguém consigo?

Não, vim sozinho.

 

E aqui encontrou as condições que esperava e que queria para produzir o seu trabalho?

Estou preparado para tudo e os anos que tenho de experiência preparam-me, precisamente, para tudo e o tempo que eu estive como adjunto, foi, precisamente, para me preparar para qualquer cenário. Obviamente, que olho muito mais para cima do que para baixo, muito mais para liga 3/liga 2 do que propriamente campeonato de Portugal. Mas também sabia o fruto de ter estado uma época parado, sabia que teria que estar sujeito a uma situação de ter que treinar em campeonato de Portugal, neste timing. Nesse sentido, estava ciente de algumas dificuldades, doutras não, e, portanto, tem sido um trabalho diário, em conjunto com a equipa técnica, que é toda de cá, em conjunto com as pessoas que melhor me podem ajudar e que conhecem a realidade e que conhecem todo o contexto e a forma de estar característica dos Açores. Portanto, temos trabalhado arduamente. Aquilo que nós queremos e aquilo que eu disse no início, quando cheguei foi, nós temos que chegar em condições na fase final de ganhar os jogos todos. E isso exige muito trabalho.

 

Tivemos oportunidade de ouvir da boca do vice-presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, que vão ter a oportunidade de fazer essa fase final no novo complexo desportivo do clube desportivo de Rabo de Peixe. Aí vão ter os sócios em cima. Isso vai ser uma mais valia ou vão tremer?

Depende de como lá chegarmos. Quando dizemos que estes jogos já não contam para nada e esta fase já não conta para nada, eu estou, sistematicamente, a dizer que estão absolutamente enganados. Esta fase conta, e muito, para preparar a equipa para tudo isso. Não só para ganhar, não só para jogar, não só para ter a mentalidade correta daquilo que é abordar todos os jogos para ganhar. Porque é essa a mentalidade que eu tenho, eu não conheço outra forma. Se me disseram que não é para estar desta forma eu não estou no futebol. E obviamente, esse fator, faz com que o público, que muito bem apoia a sua equipa e muito bem também criticará a sua equipa, faz a exigência que tenha que ser. Nós chegarmos lá em condições também de dar alegria aos adeptos e aos sócios de Rabo de Peixe, se não, não faz sentido. E estamos a tentar criar essas condições para estarmos prontos também, precisamente, para isso.

 

Portanto, vai ser uma fase final imaculada?

Se conseguirmos fazer esse trabalho até lá, não vejo razões para que não seja. É preciso começar a trabalhar, porque já passaram duas semanas e ainda continuamos com muito trabalho pela frente, da parte de todos.

 

Certamente, fez uma abordagem a todas as equipas, de forma direta ou indireta, que participam na série do clube desportivo de Rabo de Peixe. Olhando para elas, como classificaria a sua equipa? Tem qualidade suficiente para ser superior aos seus adversários ou vai ser preciso rezar muito, neste caso, por estarmos nos Açores, ao senhor Santo Cristo dos Milagres, para que o Clube Desportivo de Rabo de Peixe se mantenha na liga de Portugal?

Os jogadores, individualmente, têm muita qualidade, e isso foi um aspeto que me surpreendeu, pois já tinha visto os vídeos, já tinha visto algumas coisas, alguns jogadores conhecia-os. Mas surpreendeu-me a qualidade individual que há em vários jogadores deste plantel. Agora, o plantel é muito curto, as dificuldades de contratação, neste momento, são enormes, porque já não é possível fazer mais inscrições.

 

Só desempregados…

Exatamente, portanto, isso acarreta grandes dificuldades porque os jogadores têm que ser sempre quase os mesmos. Se toda a gente perceber, rapidamente, que aquilo que obriga uma equipa a enfrentar uma fase final destas não pode ser outra coisa que não ganhar e sempre. Poderá tornar-se, cada vez mais difícil, e nós, neste momento, corremos contra o tempo. Portanto, temos todos nós, de perceber rapidamente que realmente é necessário, cada um de nós, jogar aquilo que tem e aquilo que não tem para que possamos, antes de começar o primeiro jogo da fase final, estar em condições, toda a gente sentir que estamos em condições de ganhar. Esse é o nosso desafio.

 

E o Clube Desportivo de Rabo de Peixe já demonstrou num passado recente que é possível ganhar porque já obteve algumas vitórias fora de casa. Por exemplo, no continente…

Exatamente! Nós quando vamos para uma fase final de jogo, se nós não temos um único pensamento que é ganhar sempre, não de vez em quando, sempre, corremos o risco de ganhar de vez em quando. E ganhar de vez em quando em 6 jogos é um risco elevadíssimo para qualquer uma das equipas.

 

E depois também tem uma tarefa fratricida pela frente. É que, provavelmente, ou o Sporting Clube Ideal ou o Clube Desportivo Rabo de Peixe, um deles vai descer.

São 4 equipas que, claramente, neste momento, por isso é que eu digo que nós corremos contra o tempo, são 4 equipas que o Operário é uma equipa em que a surpresa terá sido não ter ido à fase de subida, naturalmente que, eventualmente, poderá haver ali algumas mudanças, ou não, mas é uma equipa muito bem trabalhada, uma equipa muito bem consolidada, com todas as condições para os jogadores só se preocuparem única e exclusivamente a jogar futebol. O Praiense, praticamente a mesma situação. O Ideal tinha um grupo, nós já tivemos a oportunidade de os defrontar, acima de tudo também tive dificuldades em algumas circunstâncias, em alguns pontos, mas tenho um grupo, tenho uma família enorme. Trabalham todos juntos para as mesmas coisas e nós observamos isso, nós treinadores, é possível observarmos isso em pequenos comportamentos de grupo que nós identificamos. A transição defensiva, por exemplo, das equipas, normalmente, é um dos momentos do jogo em que se nota se há grupo, se há família, ou não. Se vem um, dois e depois chega o resto, ou se vamos todos. Nós estamos a tentar criar esse grupo, essa família, juntamente com o resto dos esforços que é preciso fazer para os nossos jogadores se preocuparem única e exclusivamente em jogar e ganhar.

 

Assinou o contrato até ao final desta época, não é verdade?

Sim.

 

Se as coisas correrem bem e, do que já conhece da ilha de S. Miguel, gostava de continuar por cá?

No final, vamos fazer os balanços que tivermos que fazer. Obviamente que, é como lhe digo, o contexto que encontrei, só me permite olhar semana a semana e perceber se as coisas evoluíram, cresceram, ou não, no sentido de todos nós e daquilo que é a exigência que eu quero trazer para este clube. Se sim, muito bem, se não, teremos que conversar.

 

Sendo um gaiense a 1700km fora de casa, ou 3500, se quiser ir e vir, como é que olha para Gaia em termos futebolísticos?

Acho que tem crescido bastante. Conheço muita gente que treina em Gaia apesar de eu ser gaiense desde o início da minha carreira, mas passei por diversos clubes, mas sempre tive muito contacto com várias pessoas de vários clubes de Gaia e conheço e sinto que tem havido uma evolução grande. Naturalmente, não da parte de todos, há sempre alguns que correm sempre um bocadinho mais atrás. Mas aquilo que tenho sentido é que tem sido impulsionado o futebol em Vila Nova de Gaia e acho que caminha por caminhos melhores. Precisava, obviamente, de mais equipas nos campeonatos nacionais. Acho que isso é uma das lacunas que continua a persistir. Mas acho que têm sido dados passos, daquilo que m e é possível perceber, para que isso possa ser uma realidade.

 

Uma palavra final para os adeptos, sócios e para a comunidade rabo de Peixe.

Que nos apoiem, se possível, assim que nós chegarmos ao nosso estádio, nos recebam e nos apoiem porque estes jogadores merecem, estes jogadores merecem muito nesse carinho e esse apoio e depois dizer-lhes que estamos todos juntos com um único foco quem é ganhar. Não pensamos noutra coisa e não queremos outra coisa e todos juntos somos todos mais fortes e com eles, obviamente, que eu também já ouvi as histórias, naturalmente sermos, com certeza, bastante mais fortes.