No pós eleições presidenciais 2021, assente a poeira do delírio, da fantasia e da mentira a que a media dita de referência e os comentadores de serviço deram o respectivo relevo, surgiu o bom senso corroborado pelos resultados finais, colocando ponto final à vozearia.

A comparação dos resultados das presidenciais de 2016 e 2021 mostra como foi precipitada e ilusória a ideia de que a votação de André Ventura, nomeadamente no Alentejo, teria sido à custa dos comunistas, sempre eles o alvo predileto, para serem considerados pelos comentadores e a media  a soldo do grande capital, em queda e a desaparecerem do mapa político, pois são eles de facto que constituem o único baluarte de luta a sério por uma sociedade diferente, mais justa socialmente, fraterna e sem exploração.

Os líderes do PSD e do CDS vieram oportunisticamente, cada um à sua maneira, cantar vitória pela reeleição do Presidente e, no caso particular de Rui Rio, falar até da alegada «derrota do PS» e do ilusório «esmagamento da esquerda».

Trata-se, no caso do líder social-democrata, de uma fuga para a frente, designadamente quanto à análise dos resultados de André Ventura, no sentido de escamotear que o Chega e o seu líder nasceram in vitro no PSD e os seus resultados são, no essencial, fruto das perdas eleitorais do PSD e CDS, basta consultar os resultados das legislativas 2019 e algumas sondagens recentes.

Mas os resultados do Chega são também derivados das políticas promovidas por estes partidos, em particular no governo de Passos Coelho e Portas, que atingiram de forma violenta as populações mais pobres e desprotegidas, nomeadamente através dos cortes nos salários, nas pensões e reformas, no Serviço Nacional de Saúde e na Educação, no congelamento do Salário Mínimo Nacional e dos vencimentos dos trabalhadores da Administração Pública e das suass entidades especiais, os militares e os polícias.

É esta  a razão que produz e alimenta o populismo e a extrema-direita e daí a tentativa de Rui Rio de sacudir a pressão, considerando o crescimento de André Ventura derivado da descida do PCP, quando a realidade é outra e bem diferente.

Senão vejamos: Distrito de Beja – Edgar Silva obteve, em 2016, 15,58% e, no domingo passado, João Ferreira 15,02%; Marisa Matias passou de 11,30% em 2016 para 3,59% em 2021; neste distrito, em 2016, a soma dos votos de Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Henrique Neto foi de 37,27%, contra os 10% que Ana Gomes obteve no domingo; André Ventura somou 16,19%, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa passou dos 31,7 % obtidos em 2016 para 51,3%.

Distrito de Évora – Edgar Silva obteve 11,52%, em 2016 e João Ferreira, 10,80%, em 2021; Marisa Matias passou de 10,7%, em 2016, para 3,59%; os candidatos Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Henrique Neto somaram em 2016 35,02%, enquanto Ana Gomes se ficou pelos 10,30%; André Ventura obteve 16,76% e quanto ao Presidente reeleito, passou de 38,6% em 2016 para 54,7% em 2021.

Distrito de Portalegre – em 2016, Edgar Silva obteve 7,13% e, domingo passado, João Ferreira 7,27%; Marisa Matias passou dos 10,05% obtidos em 2016 para 3,13%; Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Henrique Neto somaram 35,67%, enquanto Ana Gomes obteve 10,22% e André Ventura 20,04%; Marcelo Rebelo de Sousa passou dos 42,8% que obteve há cinco anos para 55,7%.

Como se vê, independentemente de leituras mais pormenorizadas a nível nacional, a comparação entre os resultados das eleições presidenciais de 2016 e 2021 e o olhar para a realidade dos números, permite sublinhar como é precipitada e ilusória a ideia de que a votação de André Ventura, nomeadamente no Alentejo, terá sido à custa dos eleitores comunistas.

As alegações de Rui Rio são insustentáveis, pois pretendem esconder a deriva para a extrema-direita de eleitores da direita tradicional e a eventual disposição do líder do PSD em servir-se desses votos a nível nacional, veja-se o caso dos Açores.

Na hora de comentar os resultados eleitorais, João Ferreira, candidato apoiado pelo PCP,  frisou que «a Constituição contém soluções e caminhos para resolver os problemas do país e do nosso povo», salientando que «a exigência do seu cumprimento será uma questão decisiva nos próximos cinco anos» e estar «profundamente convencido» de que trouxe a estas eleições um «contributo singular» que vai perdurar para «lá dos dias de hoje».

«Chegamos aqui ainda mais empenhados na defesa da democracia, das liberdades e dos direitos democráticos, ainda mais determinados para combater e derrotar projectos anti-democráticos e de confronto com a Constituição da República».

Acresce que esta determinação constitui uma advertência à governação em curso, pois a simpatia obtida pelo Chega também se desenvolve a partir da insatisfação, frustação e mesmo revolta de muitos portugueses situados em extractos populacionais onde ainda não chegaram as prometidas melhores condições de vida e a pobreza subsiste, agora agravada com a pandemia que teimosamente nos cerca.

Não há lugar a desculpas e a História, lida a preceito, mostra-nos claramente como nasceu o nazi-fascismo e os resultados desse ascenso, situação que nos convoca para a necessidade de utilizarmos os mecanismos de auto defesa da democracia disponibilizados pela nossa Constituição que o Presidente da República jura defender, cumprir e fazer cumprir e não fazer dela letra morta.

O relatório anual de 2019 da Europol sobre a situação e as tendências do terrorismo na União Europeia alertou para a ação de três grupos de extrema-direita activos em Portugal, a nível nacional e internacional: o Blood & Honour, o Portugal Hammer Skins e o recém-criado Nova Ordem Social, entretanto extinto pelo seu fundador Mário Machado.

A ascensão do Vox em Espanha espantou muita gente, pela forma como chegou ao topo do poder, mas seguramente esta subida foi tudo menos inocente e fruto do acaso, pois Steve Bannon, o extremista de direita que foi o estratega da campanha eleitoral de Donald Trump, proporcionou uma boa ajuda ao Vox.

Marine Le Pen, da extrema-direita francesa na Frente Nacional, foi a primeira a parabenizar os amigos do Vox, mas também chegaram mensagens de felicitações de Matteo Salvini da La Liga italiana e de David Duke, o simpatizante nazi e um dos membros fundadores de um braço fortíssimo do Ku Klux Klan, de Sebastian Kurz, primeiro ministro austríaco, agora demissionário por corrupção e de Alexander Gaulander líder do partido alemão AFD recem eleito para o Parlamento, ou seja, o «clube europeu» dá sinais de vida e de ligações aos Estados Unidos, sem muita surpresa se lembrarmos a subida ao poder do governo  ucraniano com ajuda «made in USA e onde pontificam elementos nazis, ou seja, perante este panorama torna-se obrigatória a unidade  dos democratas e anti-fascistas para dar mais força à luta pelos direitos e a democracia que escolhemos como vivência cìvica, pois sabemos como tudo começa, mas desconhecemos para já como pode acabar.

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