Apesar de não se considerar político, nem de ter ambições nesse campo, Lino Maia está há oito anos na presidência da União de Freguesias de Alvarelhos e Guidões e irá, agora, cumprir os seus últimos quatro anos de mandato. Determinado a deixar legado feito e obras concluídas, o autarca assume que a relação com a Câmara Municipal, em especial com o presidente Sérgio Humberto, tem sido fundamental para a concretização de muitos dos seus desejos para as freguesias que, apesar de quererem a desagregação, ainda se mantém unidas. Embora a rivalidade seja constante, Lino Maia garante que não abandonou nem abandonará nunca a população de Guidões, embora esteja do lado daqueles que defendem a desagregação.

 

 

Qual a história do seu envolvimento no mundo da política, nomeadamente desde que tomou posse como presidente desta União de Freguesias?

Por acaso, a minha história é um bocadinho delicada, porque nunca tive ideia de, um dia, fazer parte da política. Eu era agricultor, desde que me conheço, e um dia à noite apareceram-me na vacaria e convidaram-me para fazer parte da Junta, sendo tesoureiro. Só que fui um tesoureiro teso, e olhei para as minhas vaquinhas, para a minha vida desde que nasci, como profissional de agricultura, e embora não me dissesse nada, e a pessoa que levou lá o ex-presidente de Junta insistiu bastante e deu-me a volta. Fiquei 12 anos com ele, como tesoureiro, na altura era só a freguesia de Alvarelhos.

 

Mas sendo que chegou a presidente da Junta, o bichinho que não existia, cresceu…

Não. O que faço, faço com gosto. Ao fim de quatro anos como tesoureiro quis sair, não por haver problemas porque nos demos sempre bem, mas pela minha vida profissional. Mas voltaram a insistir e nunca mais sai. Antes de saber que ia haver agregação, disse que se fosse útil a ficar gostaria de ficar como tesoureiro, mas com o trator da Junta, porque é o meu ramo, e por obreiros da minha confiança. Acabou por não ser possível, mas, entretanto, o antigo presidente foi candidato à União de Freguesias pela primeira vez e fiquei na lista, mas para os últimos. Mas ele teve um problema por causa da lei de mandatos e teve de arranjar um suplente caso o tribunal chumbasse. Havia um colega dele que, infelizmente, morreu logo a seguir, o ex-presidente é um homem que percebe de política, com poder e sabedoria, e eu nunca pensei numa freguesia, quanto mais duas, ainda para mais só com a quarta classe. Hoje, se tivesse noção do que iria fazer, tinha ido mais longe nos estudos, mas a vida é assim. E chegamos à altura em que o tribunal chumbou e fizemos uma reunião e ficou decidido que tinha de se escolher alguém para se chumbasse o suplente e disseram o meu nome. O certo é que deram a volta a todos e todos nomearam o meu nome. Eu não queria, se fosse só Alvarelhos, que é a minha terra, era mais fácil e eu já conhecia, e sentia-me bem, adoro trabalhar com o povo. Agora, uma terra que nem conhecia bem, tinha receio. Falei com a minha família, e também estavam receosos embora me apoiassem, e além disso, tinha sido operado à coluna e o meu médico dizia-me ‘se gosta da vida, arrume com as vacas’. E eu já sentia isso, então pensei na minha saúde e mudei de rumo. Tinha noção que ia ser um pneu suplente mas aceitei e chegamos ao dia, depois de três dias de campanha, fomos à luta e ganhamos as eleições e começamos a fazer o trabalho porque eu penso que o que é fundamental num presidente de Junta é gostar de trabalhar com o povo. Mas depois há aquelas diferenças de desigualdade, porque por muito bem que um presidente de Junta faça, não faz tudo bem, e quando o outro território é desconhecido é como uma mãe ou um pai com dois filhos, tem de igualar o que dá a um e a outro. Aqui a freguesia é maior, carece de mais obras, mas temos que tentar igualar as coisas. E foi uma das coisas que sempre quis, porque não tenho nada contra Guidões, tem um povo bom, igual ao de Alvarelhos. Em jeito de brincadeira, eu às vezes até dizia que tinha três amores, Ribeirão que é a minha terra natal, Alvarelhos e Guidões. E assim começaram os quatro anos, depois tornamos a ganhar, e agora estes últimos quatro anos voltamos a ganhar. Mas de cada vez que ganhamos a responsabilidade aumenta, ficamos mais sobrecarregados quando queremos levar isto a bom porto uma eleição é muito complicada no dia em que ficamos comprometidos. E o povo elege-nos com um prazo de quatro anos, mas nós temos de votar no povo todos os dias. Por isso, não queria, mas fui ficando e vou fazer o melhor pelo povo de Alvarelhos e Guidões nestes últimos quatro anos, porque eles merecem isso tudo, estamos aqui para servir a população, não para nos servir a nós, e fazer o melhor que podemos. Nunca agradamos a todos, é evidente, mas o que interessa é a nossa intenção de fazer o melhor possível, é para isso que somos eleitos.

 

E neste percurso como presidente de Junta, nestes últimos oito anos, lidou logo com a União das Freguesias. Sentiu alguma rivalidade?

Não, o povo para mim é igual. Mas entre eles havia sim. Desde o princípio que tinham um outdoor a dizer “Guidões sempre”, nunca aceitaram a união. E eu, logo que entrei a gerir as duas freguesias, disse logo na Assembleia que os respeitava porque estavam a defender a terra deles e eu aceitava isso. Não fui culpado, tocou-me a mim, portanto, só tive de gerir da melhor forma. Mas também lhes disse para contarem comigo para a desagregação. E estou, porque compreendo porque se fosse ao contrário a população de Alvarelhos também não ia gostar. Portanto, esta luta mantém-se, até porque agora, nestas últimas eleições, eu não ganhei lá.

 

Mas então agora com esta lei que foi aprovada para uma possível desagregação, acredita que vai acontecer?

Acredito que sim, e faço tudo para que isso aconteça. Porque é o que eles querem e um presidente de Junta, seja quem for, não se sente bem em governar um povo contra a vontade. Por muito que se faça, nunca se faz nada. Por nós, há abertura desde sempre.

 

Até porque há um movimento a apoiar a desagregação, não é?

Isso mesmo. E na campanha disseram ao povo que era a altura porque depois podia ser difícil, fizeram a campanha deles claro. E o povo de Guidões quer isso, e eu respeito muito. Muito sinceramente, não gostei quando soube o resultado das eleições e soube que não tinha ganho em Guidões. Fiquei um bocado magoado, porque quando se gosta de um povo e o resultado sai outro, custa. Depois de perceber o porquê, entendi. E estarei até ao fim, enquanto presidente de Junta, a estar do lado deles para que se sintam bem.

 

Nestes oito anos como presidente de Junta, qual foi o momento que considera mais marcante?

Para mim, todos os momentos são marcantes, todos os dias são marcantes, todas as eleições são marcantes, porque quando se está em defesa de um povo temos ambição. Ambição de fazer obras, de servir a população de todas as formas, estar sempre do lado do povo para o que precisem, e tentar ser um humano ao lado deles, que é isso que conta. Um político tem de ter coração, quando não tem coração os dias estão contados. E temos de estar ao lado deles, sentir o dia-a-dia, as dificuldades, porque há muitas carências. Por isso, os dias são todos importantes, as eleições são de quatro em quatro anos e o resultado de uma eleição é a defesa de um povo.

 

Acabou por dar continuidade a um projeto iniciado anteriormente, mas desta vez liderando uma União de Freguesias. O que mudou nestas duas freguesias desde a sua chegada?

Por vezes, ouço a outra freguesia que agregou a Alvarelhos, ou seja, Guidões, e é evidente que a nossa oposição, com todo o respeito, acha que se faz pouco e que não houve melhorias nenhumas, que não valeu a pena, que não houve lucros. E eu digo muitas vezes, e é a realidade, talvez não houvesse lucros porque tivemos em causa tratar do povo. E quando temos em causa ter a nossa casa em condições, não podemos ter dinheiro. Ou temos casa em condições, ou temos dinheiro no banco. E aqui é igual. Havia em Guidões uma Junta que estava há alguns anos, com escadas e eu mandava o eletricista ir ver uma lâmpada e ele caia, porque estava tudo podre. Hoje em dia, infelizmente, temos muita gente com mobilidade reduzida e aquela Junta não estava preparada para isso. E quando tomei posse, a senhoria colocou alguns entraves e acabei por alugar uma loja, pelo mesmo valor, mais pequenina, mas confortável, nova, quase a estrear, e que tinha condições para qualquer pessoa entrar. E ainda ouvi que devia fechar a de Guidões e deixar só a sede aqui, mas isso nunca, nunca o farei porque aquele povo iria sentir-se fragilizado e revoltado. Temos de nos colocar sempre no lugar dos outros. Lá não temos condições senão dividia as tarefas entre as duas juntas, porque em Alvarelhos temos os CTT, a Loja do Cidadão, temos pessoas a tratar de crianças com dificuldades na fala, mas em Guidões também fazemos isso. Temos os seniores, em que ‘alugamos’ o salão ao padre e muitas vezes sentem essa revolta, mas é em Alvarelhos que temos as condições. Mas lá também tem coisas maravilhosas, tem um Largo que inveja muita gente, honra seja feita a quem o fez, mas eu nunca abandonei aquele povo, nem abandonarei. É tratar de igual forma. Por exemplo, em relação ao multibanco, têm de vir aqui, e eu falei com o presidente da Câmara da Trofa, que é uma pessoa espetacular, e pedi um multibanco em Guidões e ele prometeu-me que sim. Ainda não foi construído, mas confiamos na palavra dele.

 

Disse no início que não é um filho da terra, mas veio para cá jovem ainda?

Não, vim para cá com 35 anos. Mas já são muitos anos.

 

Mas já conhece bem a região e as pessoas. Quais são as maiores valências deste território e desta população?

Eu vejo o povo, tanto de Ribeirão como daqui, de igual forma. São pessoas atenciosas, humildes, que sabe esperar, e eu gosto disso. E mesmo a oposição, eu não me canso de dizer que sou do PSD e portista, mas nunca pergunto, como alguns, quando querem alguma coisa, de que partido são. Trabalhei sempre com o coração.

 

Um dos projetos que também pode dinamizar a freguesia é a transformação do Castro de Alvarelhos numa estação arqueológica.

Sim, é um lugar com muita dignidade que tem estado muito abandonado. E ultimamente o nosso presidente de Câmara lançou um projeto para realmente fazer valer estas valências da freguesia.

 

E está muito ligado à história desta freguesia também…

Exatamente.  Tem muita história e, por acaso, dei valor do Castro quando percebi mesmo o princípio e toda a história, tem lá um cemitério, as casas, era uma autêntica cidade. E quem olha a olho nu não percebe a dimensão e a importância do que ali está. E este projeto que estão a fazer para dar dignidade ao Castro é fundamental para demonstrar o que era Alvarelhos antigamente. Por isso, é muito bom para Alvarelhos, sem dúvida, e vai trazer muitas mais valias e visitantes. Vai ser uma obra fundamental que vai dar muita vida a Alvarelhos.

 

Há mais obras que tenham acontecido nestes últimos anos que queira destacar?

Tivemos muitas obras importantes, por exemplo, o nosso Centro de Dia, que há anos que se andava com isto e agora felizmente encontramos uma solução. Os números fazem muita falta e tínhamos já prometido, mas mudou a Câmara e mudou tudo. Agora, felizmente, o nosso presidente em conjunto connosco, conseguimos que a Santa Casa tomasse conta disto e para nós é um alívio porque senão íamos ter obras para o resto da vida. E vai ser muito bom não só para Alvarelhos e Guidões, mas também para as redondezas. E temos ainda projetos para fazer, como o centro da freguesia que é um caos, é das freguesias, talvez, que tem menos condições a nível de estacionamento e de condições. Compramos um terreno próximo ao cemitério, que a Câmara teve a generosidade de atender ao pedido, e vamos criar condições de melhoria no Largo da Igreja para dar um bocadinho de dignidade à nossa freguesia. Temos também o cemitério de Guidões que vai ser preciso arranjar, e há muita obra a fazer. A intenção é sempre a melhor, o que é preciso é dinheiro. Sem dinheiro não fazemos nada, temos muitas ideias, temos projetos definidos, mas temos de ter dinheiro. E a própria Trofa tem mudado muito, temos a sorte de ter um executivo de Câmara que agarrou isto com unhas e dentes e tem feito muita obra em todas as freguesias, ao mesmo tempo que abateu muito a dívida. Costumo dizer que é pena este presidente ter mandatos limitados.

 

Para todos estes projetos é importante mesmo a relação com a Câmara Municipal…

Muito importante. O presidente está atento aos pormenores, mas claro que queremos sempre mais. As Juntas estão próximas das pessoas, mas depois faltam os números. Nós temos um protocolo em que a Câmara cumpre muito bem, mas torna-se pouco. As exigências são muitas. Ainda recentemente disse ao presidente que uma rua que fizemos de 5km antes ninguém ligava, agora tem de estar limpa. Às vezes vejo obras que ele faz, porque tem fundos e há freguesias que têm projetos para subsídios, para Fundos Comunitários, e ele foi buscar ao Castro e apanha tudo, é um homem inteligente. Por exemplo, os Paços do Concelho é como ele diz e eu vi isso com os meus olhos, a renda que se estava a pagar por uma casa e armazéns espalhados por todo o lado, não fazia sentido. Perdia-se muito tempo de trabalho até. A gestão de uma Câmara ou de uma Junta, até de tudo na vida, é fundamental e sinto-me satisfeito em ter começado com o Sérgio Humberto como presidente de Câmara, e acabar com ele, se tudo correr bem, porque há uma boa harmonia e há compreensão. E é um presidente de Câmara que tem coração, porque quando se anda só com fogo de vista, dura pouco tempo. Este é um homem que está atento aos pormenores todos, que tem visão das freguesias todas.

 

Gostaríamos de pedir para completar uma frase, sendo que está no seu último mandato. “Um dia que abandone as funções de presidente de Junta saía feliz se…”

Se deixasse muitas obras concluídas, pelo menos as principais. Nós fazemos o que podemos e atrás de nós vem outros que continuam. Queria concluir uma rua que, como diz o nosso presidente de Câmara, é a variante Lino Maia, e eu já lhe disse que detesto esse nome e que não quero nomes atribuídos nem quero inaugurações. Quando se faz alguma coisa e o povo quer fazer, eu não estorvo. Mas tomar a iniciativa de inaugurar, não. Sou a favor de dar o nome à rua a quem a cedeu, ou seja, Rua Nova dos Vieiras ou Variante dos Vieiras, que são dois primos que cederam uma parte grande de um terreno que era um campo agrícola. E saio orgulhoso quando se fizer aquela rua, que penso que não vai levar muito tempo, assim como o centro da Igreja.

 

Qual a mensagem que gostaria de deixar à população?

A mensagem que gostaria de deixar é, mais uma vez, um muito obrigado pela confiança que depositou em nós, Junta de Freguesia, e que vamos fazer tudo o que pudermos para deixar um legado muito melhor do que o que recebemos, para que quem vier atrás poder continuar com sentido de trabalho e de amizade ao povo para levar isto a bom porto até ao fim. Estamos aqui para lutar por uma vida melhor para todos, porque merecem. E acho também que se deve valorizar os ex-presidentes de Junta porque, depois de estar no lugar, vejo o quanto ele faz porque para hoje isto estar como está, os primeiros receberam tudo em terra. E fiz questão de os expor, tanto aqui como em Guidões. Alguns já faleceram na altura, mas em Guidões dois deles ainda tiveram oportunidade de ver e ficaram muito contentes com esse gesto de gratidão.