Com a fasquia da liderança do concurso “Um Caso Policial em Gaia” muito elevada, todas as atenções recaem agora na avaliação dos nossos leitores-jurados aos últimos quatro contos dos treze em prova. Dois deles (o décimo e o décimo-primeiro) foram já publicados e enfrentam neste momento o processo de classificação do grande júri, ficando a faltar a publicação dos dois derradeiros originais. Entretanto, o penúltimo conto, da autoria do confrade setubalense Abrótea, vem hoje a público, com a publicação da sua primeira parte. O seu protagonista projetou mais uma viagem em família, desta vez ao norte do país. Mas não se pense que o objetivo era apenas o usufruto do melhor que Gaia tem para quem a visita. Tudo terá começado no local de embarque do teleférico no Jardim do Morro, que os levaria até ao coração da cidade velha, a fim de conhecer as raízes da fundação da cidade. Decerto que depois de uma visita à Igreja de Santa Marinha, construída no século XV e restaurada em 1745, pelo arquiteto Nicolau Nasoni, terão passado pelo Convento Corpus Christi, de 1345, que acolhe a arca tumular de Álvaro Anes de Cernache, primeiro Senhor de Gaia. E daí terão usado o passadiço que nasce junto ao cais, que nos permite alcançar todas as praias de mar. Mas, como verão, nem só de coisas boas se fez esta viagem:

 

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       

Conto nº. 12  

“Aconteceu em Gaia…”, de Abrótea

I – Parte

Tinha tudo bem preparado, pelo menos assim eu pensava, apenas faltava fazer a última viagem, depois… bem, depois livre como um passarinho. Mas comecemos pelo princípio e não pelo final. Tinha “montes” de clientes, e isso deu azo a acontecimentos que deixaram marcas, e um dia aconteceu o que tinha de acontecer.

A partir de certas situações, passava e passeava a última semana do mês pelo norte, mais propriamente em Vila Nova de Gaia. O hotel espantoso, o quarto, esse, “maravilhástico”, vista para o Douro, e aquela beleza dos rabelos, a subir e descer o rio entre as margens, as encostas vinhateiras, que na altura da vindima se enchiam de gente trabalhadeira. O pôr-do-sol, esse era sempre espetacular, ainda avistávamos as pontes, sempre com aquele trânsito, para cá e para lá. Bem perto de onde me alojava tínhamos as caves, a Mara, minha esposa, e o Baixinho o filhote nunca as tinham visitado. Ainda pensava em duas ou três coisas, uma delas que tropeçasse no cadeirão do varandim, mas isso sempre tinha gente na piscina, ou até também a observar o rio majestoso, outra ideia fora a do convento Corpus Christi…

Mas de repente surgiu a outra, e foi essa que levei avante. Durante dois anos foi assim, de domingo a sexta-feira eram os passeios, as festarias, conhecer as praias, bailaricos de bairro e tantas outras coisas. Sabia que a Mara andava chateada, e com razão, nunca estava em casa nem mesmo pelo Natal, Páscoa ou aniversários, isto porque eu falava “tenho muito serviço”, “o chefe não me deixa entrar de férias”, “são clientes especiais”, e afinal uma das clientes era bastante especial ou espacial. Levei dois anos, cento e quatro semanas, dessas semanas tirava um dia para investigar, ver e rever todos os locais prováveis e possíveis para colocar em prática o meu plano, tinha que ser tudo planeado até ao mais ínfimo pormenor, até que finalmente…

– Amor meu, prepara as maletas, vamos passear – falei eu. Vamos tirar umas férias, poucos dias, mas vamos até ao Norte. Serão duas a três semanas no máximo, mas é o que posso e tenho.

Para onde vamos meu bem? – perguntou Mara.

Vamos para perto do Porto, acho que nunca provaste aquele vinho doce – disse com entusiamo. Vamos ver uma praia que deves amar, chama-se praia da Granja, local preferido de uma escritora muita acarinhada aqui. Vais também conhecer o zoo de Santo Inácio, não é nada parecido com o nosso, mas é fantástico também, e sempre podemos ter umas horitas para degustar uns belos petiscos e claro está fazer a visita às caves e não só…

… leva umas roupas mais abafadas, porque apesar de ser verão sempre lá é um pouco frio, sei que gostas, mas não te quero constipada.

No dia seguinte, manhã cedo tínhamos a “loja” arrumada, viajámos para onde combinado, e a Mara estava deslumbrada com a paisagem que ia encontrando ao longo daquelas estradas montanhosas. A meio do caminho almoçámos e descansámos um pouco. Antes do jantar já estávamos em Gaia. Mara estava estupefacta, pois todos os funcionários me serviam e me cumprimentavam respeitosamente. O quarto era o mesmo de sempre, com aquela vista “maravilhástica”, e Mara ficou espantada com tamanha sumptuosidade. Enquanto Mara se vestia a preceito, pronta para o jantar eu arrumava as coisas, e falei: – aproveita bem esta estada e amanhã vamos visitar algumas coisas bonitas amor, aproveita tudo isto enquanto podes.

Mara estava deslumbrante, entretanto depois do jantar aproveitámos a noite para uns pezinhos de dança e alguns cocktails, apesar do cansaço da viagem apenas fomos para o quarto já depois das três da madrugada. Manhã chegada, Mara já estava no varandim, olhando a bela paisagem, nesse dia esperava levar ela a visitar algumas praias, e quem sabe as caves, a escolha dela foi uma visita para as praias e tasquinhas, era óbvio. Como não conhecia nada dali, era a sua primeira escolha. Visitámos Aguda, Valadares, Francelos e Miramar onde ela ficou encantada com a capela denominada Senhor da Pedra. Bem podia ela rezar, pensei eu.

Assim se passou uma semana, e a outra quase no final, entre as saídas às vezes encontrava a “outra”, nossos olhares se cruzavam, mas sem Mara notar nada de estranho, e estava quase a dar-se o acontecimento… a maior noite no norte de Portugal, e era para essa que eu tinha tudo preparado, antes disso levara Mara a visitar as várias caves com os seus pipos velhos, a enorme garrafeira. Provas de vinhos e outras coisas mais, sempre peixinho fresco normalmente assado, apesar de algumas vezes almoçarmos no hotel.

(continua na próxima edição)

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