Cada vez menos pessoas encaram e celebram o Natal como forma de encontro ou reencontro com o agregado familiar ou a homenagem a uma criança nascida, há mais de 2000 anos, no seio duma família simples e em circunstâncias particularmente humildes que cresceu e se tornou carpinteiro, profeta itinerante e rabino, defensor dos pobres ou deserdados, activista militante contra os agiotas e as injustiças praticadas pela hierarquia religiosa e o poder do invasor romano, vigentes na época.

Nos tempos que correm, as preferências de celebração desta data centram-se no consumismo exacerbado, festas, fogos-de-artifício, caridadezinha à moda de Isabel Jonet que pensa não existir miséria em Portugal, os portugueses é que têm «que se habituar a viver com menos», ou seja, têm que gostar de ser pobrezinhos para continuarem a ser ajudados pelo Banco Alimentar, subsidiado pelo Estado e para dar sentido à frase repetida vezes sem conta, Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

A comunicação social repete os conceitos dos anos anteriores, tais como, o amor às criancinhas e aos idosos, retidos nos leitos hospitalares, pois as famílias não os vão buscar, mesmo já curados, e aos detidos nos calabouços, aos imigrantes e emigrantes longe dos entes queridos, aos sem-abrigo, enfim, uma enternecedora repetição de piedosas referências para convocar a comoção geral.

Os responsáveis governamentais desdobram-se em almoços e jantares, visitas aos hospitais de referência e acompanhamento nas sopas dos pobres ou convívios de solidariedade, porém, todos sabem que para mais de dois milhões de portugueses o Natal de felicidade não passa de sonho distante e a prosperidade não surgirá para muitos trabalhadores, com e sem trabalho ou despedidos sem culpa formada.

Paralelamente, entre 2008 e 2016, as ajudas à banca, BPN, BES, BCP, BPI, descontando os ganhos que o Estado obteve, custaram o equivalente a 8% do PIB, quase seis vezes o valor do défice deste ano.

Os encargos dos contribuintes com o salvamento e a ajuda aos bancos ascendem já a 14,6 mil milhões de euros, no período que vai de 2008 a 2016, e a factura não está fechada. A maior ameaça continua a ser o BPN, que deve muito dinheiro à CGD. Os números são do Tribunal de Contas e vêm no Parecer sobre a Conta Geral do Estado referente ao ano passado, publicado nesta semana.

Só em juros, porque o Estado, sem verbas suficientes teve de pedir dinheiro emprestado aos mercados para apoiar a banca, terão sido desembolsados 1,8 mil milhões de euros, embora tenha ganho algum dinheiro com as ajudas prestadas, juros e dividendos, mas não o suficiente. Assim, o custo líquido imputado aos contribuintes é muito elevado e ascende aos tais 14,6 mil milhões de euros, 8% do PIB, equivalente a quase seis vezes o valor do défice estimado para este ano.

Na actualização da análise aos apoios públicos ao sector financeiro, o Tribunal de Contas refere que «o esforço financeiro resultante das intervenções públicas, destinadas a apoiar o sistema financeiro nacional no seguimento da crise financeira internacional iniciada em 2007, constituiu um encargo elevado para o erário público num contexto de finanças públicas deficitárias».

Uma pergunta se coloca, neste contexto: tem razão de ser este comportamento que reflecte o desinteresse que, cada vez mais, se instala na relação para com os que nos rodeiam e as palavras ocas que o vento leva?

É indispensável mudar a narrativa das boas intenções, encarar a realidade de frente e garantir a todos os portugueses um caminho justo para as dificuldades reais que os preocupam, ou seja, afirmar-lhes que não baixará a luta contra a injustiça provocada pelas classes que se apropriam da sua força de trabalho e com ela os oprimem e exploram e garantir-lhes que tudo faremos para travar o passo aos partidos da direita e aos mascarados de esquerda que os têm espoliado, consoada após consoada e que, de ano para ano, os arrastam para um fosso social que é forçoso eliminar.

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