Na já longínqua madrugada de 25 de abril de 1974, a rádio acordou o país com marchas militares e vozes que pré-anunciavam a Revolução. Um pesadelo que nos assombrava há cerca de meio século estava prestes a terminar, ao mesmo tempo que nascia o sonho de uma pátria renovada, livre da opressão e do medo.

Quase sem oferecer resistência, o velho e opressor regime caía de podre. Por essa manhã adiante, pelo país fora, o povo cantou nas ruas a alegria da liberdade reconquistada e no dia seguinte os militares de Abril anunciavam como uma das suas primeiras medidas a abolição da censura. Os homens das letras, das artes e da cultura livravam-se finalmente da ação nefasta dos censores que lhes castrava a liberdade de expressão e de criação.

Quando as tropas saíram para a rua na madrugada libertadora de Abril era profundamente lamentável o estado em que se encontrava o nosso país, não só em termos culturais, mas também a nível social. Éramos um país com um elevado nível de analfabetismo, onde muitas crianças iam para a escola descalças, independentemente do frio ou do calor, e depois eram forçadas a trabalhar para ajudar na sobrevivência das suas famílias.

Os liceus e as universidades eram apenas um privilégio dos filhos das classes economicamente abastadas, restando aos mais pobres pegar cedo na enxada e amanhar a terra ou enfrentar a vida nas fábricas, nas minas ou na construção civil. A segurança social era incipiente e os sindicatos eram controlados pelo regime, os trabalhadores não tinham direitos e as jornadas de trabalho eram por vezes de sol a sol.

A saúde era acessível a muito poucos, a taxa de mortalidade infantil era uma das piores da Europa e a maternidade era uma aventura perigosa que as nossas mães e esposas arriscavam em condições muitas vezes degradantes. A saúde sexual e reprodutiva, o planeamento familiar e a educação sexual eram uma miragem. O aborto era um crime punível com prisão e o direito à diferença nas opções sexuais estava longe de ser consagrado nas nossas leis. A igualdade entre sexos não passava de pura utopia.

Os direitos das mulheres eram quase inexistentes, exigindo-se-lhes simplesmente que cozinhassem, lavassem a roupa, passassem a ferro e cuidassem da casa e das crianças. Isto porque a função da mulher era basicamente servir o homem, como se ele fosse o seu dono. E ai daquelas que erguessem a voz no sentido de lutar pela sua independência, pela sua inserção no mercado do trabalho ou por uma maior valorização pessoal.

Nas vilas e aldeias do interior do país, e em muitas das nossas cidades, não havia infraestruturas básicas essenciais, sendo que mais de cinquenta por cento das casas não tinham saneamento, abastecimento de água potável ou energia elétrica. E era tão triste a realidade que muita gente fazia as suas necessidades em latrinas e despejava os dejetos em fossas comuns, tomava banho em bacias de lata e lavava as mãos e o rosto em lavatórios de ferro, cozinhava a lenha e comia à luz de petróleo.

Portugal tinha uma rede de estradas verdadeiramente terceiro-mundista, que, em vez de unir todo o território, isolava o interior do litoral, forçando as populações a emigrar para a capital em busca de melhor sorte, vivendo muitas vezes em barracos sem as mínimas condições. E não era só Lisboa e outras cidades nacionais que as populações do interior procuravam para fugir ao isolamento, à fome e à miséria. Fora de portas, Paris era um dos principais destinos de quem queria fugir à falta de perspetivas de futuro na sua terra natal.

Mas não era apenas a falta de condições de vida digna no nosso país que motivava a emigração. Muitos dos nossos jovens passavam a fronteira a salto para fugir a uma guerra verdadeiramente absurda que acabou por dizimar parte de uma geração.

Foram muitas as mulheres que ficaram sem os seus filhos ou maridos. E foram muitas as crianças que ficaram órfãs de pai, numa guerra que, no conjunto das ex-colónias em conflito, mobilizou mais de 900 mil portugueses, ceifando a vida a cerca de cem mil. E a essas mortes acrescem ferimentos graves em cerca de 30.000 militares portugueses, alguns deles estropiados, para além dos que ainda hoje sofrem de doença de stresse pós-traumático crónico, situação que atingiu 15 por cento dos militares expostos a combate.

Entretanto, a PIDE defendia ferreamente o regime fascista, cerceando-nos todas as liberdades, desde a livre expressão do pensamento à possibilidade de reivindicação de outras formas de governo, nem que para isso fosse necessário prender, torturar e matar.

Foi contra este estado de coisas que largas dezenas de mulheres e homens lutaram pelo derrube de um poder feroz que durante 48 anos nos condenou ao obscurantismo, à fome e à guerra, pagando muitas vezes essa coragem com o degredo e a própria vida. E foi com o pensamento neste estado de coisas que Salgueiro Maia reuniu as suas tropas na parada da Escola Prática de Cavalaria, no início da madrugada de 25 de abril, e lhes disse que iam avançar sobre Lisboa para acabar com o estado a que tínhamos chegado.

Às três e meia da manhã, dez viaturas blindadas atravessavam a porta de armas daquela unidade militar, comandadas pelo capitão sem medo, tendo como primeiro objetivo a ocupação do Terreiro do Paço.

A partir daquele momento, os passos de Salgueiro Maia, que nos deixou há 27 anos, confundem-se com a história do próprio 25 de Abril, que derrubou a ditadura fascista para nos devolver o sonho e a esperança e colocar nas mãos de cada um de nós a construção do nosso futuro coletivo.

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