O futebol gosta de se apresentar como epopeia popular. Um palco de sonhos, mérito e paixão. Mas, como num icebergue, o que sustenta o sistema não é o que está à vista. A base — atletas, treinadores, adeptos — permanece submersa. O que flutua, reluzente e intocável, é a ponta: a elite. E essa elite tem um deus e uma religião — poder e dinheiro. Aproveito esta introdução, para vos apresentar pela primeira vez o novo termo de um fenômeno sociológico tão antigo como a raça humana: o Síndrome de Epstein. Vamos explanálo no sistema desportivo.
A manutenção do status quo não se faz a partir da base. Faz-se a partir do topo, onde alguns se veem como superdeuses, acima dos demais em direitos e abaixo em deveres. Acusam os outros de doutrinas que praticam: benefícios para os meus e a lei para os restantes. Uma justiça privatizada, um tribunal de espelhos onde são réu, vítima, procurador, advogado, juiz e polícia ao mesmo tempo. Como no caso de Jeffrey Epstein, a sensação de impunidade confunde-se com a própria ideia de lei. Não estão acima dela — acreditam e querem ser ela. *
Corporativismo: o pacto silencioso da elite **
O corporativismo da elite do futebol é abismal. A falta de consideração e respeito pelos demais é proporcional à sua capacidade de autoproteção. Como se viu no caso Epstein, só a união das vítimas permite expor a verdade, trazer injustiças ao debate público e arrancar alguma visibilidade. No futebol, essa união dos treinadores seria igualmente possível — mas esbarra na resistência, no egoísmo, na covardia e na falta de empatia.
Há, inclusive, um Síndrome de Estocolmo latente. Muitos treinadores enamoram-se do perpetrador. A paixão pelos relvados, pelas competições de sonho, torna-se uma honey trap — uma armadilha psicológica onde o sonho substitui a dignidade. Tal como as promessas sedutoras do mundo da moda que envolviam as vítimas de Epstein, aqui seduz-se com a possibilidade de “estar no campo certo”, “no projeto certo”, “no palco certo”.
Depois promete-se tudo em campanha, no “namoro”. Discursa-se sobre ética, processo, formação. Mas, alcançado o poder, mantêm-se os pactos de regime e de poder. As necessidades logísticas e humanas — reais e urgentes — ficam para trás, sempre acompanhadas de uma desculpa pronta a servir. Vive-se o reinado da demagogia, do populismo e da hipocrisia.
Quando o treinador vende a alma para ficar na prateleira ***
Alguns treinadores e núcleos tornaram-se mais cooperativos do que as próprias corporações. Vendem a alma e a dignidade profissional para se manterem na prateleira do sistema e do poder. E, ao atravessarem a porta da elite, deixam de olhar para trás. Não se colocam nas “botas” dos colegas. Preferem alinhar com as corporações do que com os seus pares.
Ao aceitarem a banalização do desrespeito profissional, contribuem para a normalização da sua própria desvalorização. E, nesse gesto, exoneram a elite, concentrando a responsabilidade apenas na classe. Com esse poder elitista sempre no seu encalço, castram-se dos seus direitos, liberdades e garantia — liberdade de expressão (porque a narrativa tem dono), participação democrática (porque só uma versão é tolerada), prestação de contas (porque quem manda sente-se imune).
A elite condena nos outros aquilo que pratica: não quer agregar, debater, unir e evoluir; prefere dividir, manipular, controlar e explorar. Interessa parecer sério, competente e honesto — não necessariamente ser.
Erosão democrática: quando o silêncio corrói o sistema ****
A proteção de redes de exploração no caso Epstein revelou mais do que crimes individuais: expôs cumplicidades sistémicas e erosão democrática. Quem protege injustiças mina a confiança nas instituições. Quando sindicatos, entidades de utilidade pública ou federações deixam de defender os seus representados, criam um vazio. E o vazio, como a história mostra, é rapidamente ocupado por oportunistas e radicalismos.
No futebol português, estruturas como a Associação Nacional de Treinadores de Futebol, nascida da fusão de dois sindicatos e inscrita na órbita da UGT, deveriam ser bastiões da defesa profissional. Em vez disso, optam frequentemente por um cordão umbilical com interesses instalados, com a Elite e o Poder do Futebol, priorizando interesses pessoais ou colectivos, em detrimento da dignidade humana e familiar dos treinadores.
Fala-se incessantemente de ética e dos perigos do “resultadismo”. Mas ignora-se a causa-mãe: a indignidade humana na base da profissão. Que escolha tem um treinador que recebe entre 50 e 300 euros — quando recebe — senão optar entre o atleta que treina e a família que alimenta? Empurrado por pressões económicas e familiares, acaba por privilegiar o resultado imediato, não por convicção pedagógica, mas por sobrevivência e salto económico.
Nenhum treinador conhece um colega que tenha ascendido na carreira e na estabilidade económica apenas pelo “processo”. A precariedade não é uma imposição legal; é uma escolha sistémica. E essa escolha empurra profissionais para decisões erradas do ponto de vista formativo, mas compreensivas e discutíveis do ponto de vista humano.
Ou estamos na mesa ou estamos no menu ou no prato *****
Em Davos, PM do Canadá Mark Carney, a sua metáfora é simples e cruel: ou estamos sentados à mesa, ou estamos no menu. Enquanto o poder se senta à mesa, no caso dos treinadores, estamos no prato há anos — talvez desde sempre. E as instituições que deveriam temperar a justiça deitam “sal” e “pimenta” sobre o problema, servindo-o em louça dourada para melhor consumo da elite. Uma idêntica perversão de poder como era servida na Ilha de Epstein.
Mas de que vale sentar à mesa se não temos como pagar a refeição? De que valem direitos laborais sem direitos humanos? A dignidade profissional sem dignidade humana é uma casa sem fundações — parece sólida até que a primeira tempestade a derrube.
O que começou como questão profissional tornou-se problema comunitário e democrático. Censurar vozes, controlar narrativas e preservar o status quo ataca princípios basilares: liberdade de expressão, participação democrática e prestação de contas. Democracia “de alguns para alguns” é democracia travestida.
Melhor do que uma falsa estabilidade é um equilíbrio real. Tal como no caso Epstein, onde diferentes poderes capitularam perante a elite, também no futebol se observa a capitulação de estruturas que deveriam resistir. E, enquanto isso, a base — o icebergue submerso — continua a sustentar o brilho da ponta.
O aviso é claro: os treinadores injustiçados são maioria. E a maioria que não reconhece o seu poder permanece minoria política. A exploração e a precariedade podem ser toleradas — mas nunca deixam de ser uma escolha coletiva.
No futebol, como na democracia, o silêncio é o melhor aliado da elite. E a história ensina que, quando o poder se confunde com impunidade, o preço não é pago apenas por quem está no prato — é pago por todo o sistema. E como em Epstein a cumplicidade na imoralidade têm as suas implicações e consequências humanas, políticas, sociais e económicas, onde o Juízo Final é tudo uma questão de tempo e espaço.
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