AGITARAM O PAPÃO MAS… O DIÁLOGO VENCEU

A requalificação do Cais de Gaia, iniciada durante os mandatos de Luís Filipe Menezes transformou a frente ribeirinha num dos mais importantes destinos turísticos do país, entra agora numa nova fase. Perante os receios dos artesãos quanto ao futuro da feira, o presidente da Câmara optou pelo diálogo, promoveu reuniões com os representantes do setor e alcançou um compromisso que garante a permanência da atividade até novembro, abrindo simultaneamente caminho para uma valorização mais qualificada e consensual daquele espaço privilegiado.

Nestes dias de sabor a verão, o Cais de Gaia parece uma pequena Babel à beira do Douro. Espanhol, francês, inglês, alemão, japonês, chinês, cacafonias de todo mundo e, por vezes, até português, cruzam-se num murmúrio contínuo que acompanha o vaivém dos visitantes ao longo da marginal.

Os turistas passeiam sem pressa. Uns fotografam os rabelos, outros apontam os telemóveis à outra margem. Todos satisfazem-se na contemplação. Poucos lugares oferecem uma perspetiva tão ampla e tão sedutora sobre a cidade invicta como a margem sul do Douro.

É neste cenário privilegiado, um dos mais visitados do país, que convivem os artesãos que expõem e vendem os seus produtos junto à frente ribeirinha de Gaia. E foi precisamente em torno da utilização deste espaço que, nas últimas semanas, se instalou uma polémica. Anunciavam que os artesãos tinham de se deslocalizar. Tinham de abandonar o local. O alarme fez-se soar, mas tudo acabou por conhecer um desfecho muito diferente daquele que muitos temiam. Bastou uma reunião com o executivo municipal onde participou Luís Filipe Menezes.

No Cais de Gaia, o ambiente é de tranquilidade. As bancas continuam abertas, os turistas continuam a parar para observar os trabalhos artesanais e os próprios vendedores falam já de futuro com muito mais serenidade.

“A reunião na Câmara Municipal, aliás as duas reuniões tiveram uma conclusão muito positiva”, garantiu ao Audiência um artesão que participou nos encontros realizados, primeiro com o vereador António Barbosa e depois com o presidente da Câmara Municipal de Gaia.

“Acima de tudo há diálogo”, salientou.

Para este artesão, foi precisamente o diálogo que permitiu ultrapassar semanas de receios e incertezas.

“Há diálogo onde anteriormente houve desinformação e uma tentativa atribulada de gerar conflitualidade entre os artesãos que têm postos de venda no Cais de Gaia e a Câmara Municipal”, sintetizou.

A reportagem do Audiência encontrou precisamente essa sensação entre vários artesãos, não tanto a surpresa pelo termo dos contratos todos sabiam que os contratos tinham término a 30 de junho, mas sobretudo a incerteza sobre o que aconteceria depois.

Muitos artesãos recearam que o verão chegasse sem que lhes fosse dada oportunidade de continuar a trabalhar naquele que é, por razões óbvias, o principal ponto turístico do concelho.

Esse sentimento acabou por alimentar um movimento que rapidamente tentou ganhar maior dimensão.

Foi nesse contexto que surgiram petições, tomadas de posição e intervenções políticas, como a de João Paulo Correia, líder do PS em Gaia, que acusava nas redes sociais a Câmara de ter decidido unilateralmente o fim da feira e questionava os objetivos da autarquia.

 

JUNTOS COM A CÂMARA

A evolução posterior dos acontecimentos acabaria, porém, por demonstrar uma realidade totalmente diferente.

As reuniões entretanto realizadas permitiram esclarecer dúvidas. Foram abertos canais de comunicação e logrou-se construir uma solução de compromisso que afastou os cenários mais dramáticos e esvaziou-se a agitação.

“Chegou-se, em conjunto, à conclusão de que os artesãos são importantes para a Câmara Municipal, e vice-versa, e que deveríamos lutar juntos. A Câmara Municipal foi sensível àquilo que nós reivindicámos”, afirmou, à Lusa no final da reunião, um dos representantes dos artesãos.

O entendimento alcançado prevê a permanência dos artesãos no local até novembro, uma solução que ultrapassa largamente o horizonte temporal inicialmente garantido pelas licenças existentes.

“O próprio presidente juntou-se à reunião e ficou definido que, de momento, vai haver uma prorrogação do contrato atual até meados de novembro. A partir dessa altura, a feira continuará também na Beira Rio”, explicou.

Junto ao teleférico, Odete continua a receber visitantes interessados nas peças de cortiça que comercializa.

“Estamos aqui há quase 20 anos”, referiu.

A artesã disse que ouviu falar das reuniões realizadas na Câmara e sabe que foi alcançado um entendimento.

“Parece que acabou tudo bem, fizeram um acordo”, diz, reconhecendo, contudo, que nem toda a informação chegou ainda a todos os vendedores.

A poucos metros de distância, Antónia acompanha com atenção a evolução do processo. Tal como Odete, sabe que existe agora uma solução transitória e que o trabalho poderá prosseguir nos próximos meses.

 

CONTRATO COM A APDL?

Mas tanto uma como outra revelam também consciência de uma realidade que raramente surge no centro do debate público. Estas duas artesãs assim como outras no mesmo local sabem que têm contrato, mas com a APDL, que segundo as mesmas “tutela” o lugar. Esse contrato tem duração até ao final dos anos de 2026, pelo que dizer que “as situações são diferentes”.

Nenhuma das duas esconde que o Cais de Gaia necessita de organização, de qualificação visual e de uma reflexão séria sobre a melhor forma de compatibilizar atividade económica, turismo e valorização urbana.

A mesma ideia surge de uma solução equilibrada é repetidamente salientada pelos vários artesãos ouvidos pelo Audiência.

Também por isso muitos dos participantes na reunião reconhecem que os argumentos apresentados pela Câmara fazem sentido quando defendem uma melhor integração dos postos de venda na paisagem urbana.

A questão deixou de ser a permanência ou não dos artesãos.

Passou a ser a forma como essa presença poderá contribuir para valorizar ainda mais um dos cartões-de-visita do concelho.

Aliás, uma das preocupações mais consensuais prende-se com a venda ambulante não licenciada.

“Fazem concorrência sem pagarem licenças que nós pagamos”, sustenta Odete.

Ainda assim, os próprios artesãos reconhecem que a situação melhorou significativamente nos últimos tempos graças às ações de fiscalização realizadas no local.

Patrícia Santos, vendedora ambulante de 46 anos que trabalha na zona desde 2020 sem licença, admite que procura uma solução para regularizar a sua situação.

Durante uma visita ao local, solicitou inclusivamente uma reunião ao presidente da Câmara para analisar o seu caso.

Mas os próprios artesãos reconhecem que a situação destes vendedores é distinta, desde logo porque não existe qualquer estrutura representativa organizada que facilite o diálogo institucional.

No final, a principal conclusão parece ser outra.

O conflito que muitos anunciaram acabou por dar lugar à negociação.

A confrontação cedeu espaço ao entendimento.

Mas uma ideia parece reunir consenso, o Cais de Gaia é demasiado importante para permanecer com uma paisagem urbana menos qualificada.

A sua valorização exigirá regras, planeamento, qualidade estética e uma visão integrada para o espaço público.

Isso poderá passar por novas soluções de organização, por modelos de rotação equilibrados ou até, no futuro, por formas diferentes de ocupação comercial.

Porque a verdadeira riqueza do Cais de Gaia não está apenas na vista sobre o Porto.

Está também na capacidade de conciliar património, turismo, atividade económica e identidade local num mesmo espaço.

 

ARTESANATO O EXEMPLO DE OUTROS LOCAIS

A discussão sobre o futuro dos artesãos do Cais de Gaia está longe de ser uma exceção. Em praticamente todas as cidades europeias que conjugam forte pressão turística com património histórico existe a mesma preocupação, como preservar a autenticidade do artesanato sem comprometer a qualidade do espaço público?

O exemplo mais próximo encontra-se no Mercado do Bolhão, no Porto. Após a profunda reabilitação do edifício, a presença dos artesãos passou a obedecer a critérios rigorosos de imagem, dimensão dos espaços, materiais utilizados e valorização do fabrico próprio. Madeira, metal e tons neutros predominam num conjunto visualmente harmonioso que respeita a arquitetura do mercado.

Em Florença, uma das capitais mundiais do turismo cultural, os mercados artesanais instalados junto ao centro histórico funcionam através de estruturas uniformizadas e altamente reguladas. A autenticidade dos produtos é avaliada e a ocupação do espaço público está sujeita a exigentes regras de integração urbana.

Barcelona segue uma lógica semelhante. Nas zonas históricas, os postos de venda utilizam módulos esteticamente coordenados, iluminação uniforme e regras apertadas sobre publicidade, resíduos e qualidade dos produtos comercializados.

Já em Amesterdão, onde muitos mercados se desenvolvem junto aos canais, existe uma preocupação especial com a paisagem urbana. As estruturas são desenhadas para se integrarem visualmente na envolvente e o município promove a diversidade de oferta, evitando a repetição excessiva dos mesmos produtos.

Todos estes exemplos apontam para a mesma conclusão o artesanato continua a ter lugar nos centros históricos e nas zonas turísticas mais procuradas, mas com regras.

A tendência europeia é qualificar os comerciantes e os artesãos é integrá-los e transformá-los em elementos valorizadores da experiência e da estética urbana.

É precisamente esse desafio que agora se coloca em Gaia.

O consenso recentemente alcançado entre Câmara Municipal e artesãos poderá representar o primeiro passo nesse caminho.

 

O Comunicado dos artesãos de Gaia

“O valor do diálogo e da colaboração

Na sequência dos acontecimentos que envolveram a Feira Municipal de Artesanato de Vila Nova de Gaia, os artesãos vêm expressar publicamente o reconhecimento às entidades que contribuíram para a construção de uma solução que permitiu salvaguardar a continuidade da atividade.

Desde o primeiro momento, o Município de Vila Nova de Gaia demonstrou abertura para ouvir as preocupações apresentadas e para reavaliar as propostas em discussão. Apesar de posições inicialmente divergentes, foi possível estabelecer um processo de diálogo que se revelou determinante para a aproximação de posições.

Os artesãos tinham sido confrontados com uma proposta de alteração que levantou sérias preocupações quanto à continuidade da atividade no mercado. Na sequência, foi possível abrir um canal de diálogo direto com a Câmara Municipal, no qual as questões apresentadas foram ouvidas e analisadas, permitindo encontrar uma base de entendimento.

Nesse sentido, os artesãos agradecem ao Senhor Presidente da Câmara Municipal, Dr. Luís Filipe Menezes, e ao Vereador António Barbosa, pela condução do processo com abertura ao diálogo e sentido de responsabilidade institucional, fatores essenciais para a obtenção de um entendimento.

É igualmente reconhecido o contributo do partido ADN, em particular ao Rui Sequeira, secretário geral do partido e ao Nuno Matos Pereira membro da comissão política, pela intervenção de proximidade e pela facilitação da comunicação entre as partes ao longo de todo o processo.

O entendimento alcançado demonstra que o diálogo, quando conduzido com seriedade e boa-fé, permite ultrapassar divergências e encontrar soluções equilibradas, assegurando a continuidade da atividade artesanal e o interesse da comunidade.

Os artesãos sublinham ainda a importância de existir, por parte do Município, uma visão estruturada para o futuro do artesanato em Vila Nova de Gaia, através de iniciativas que promovam a sua valorização e sustentabilidade.

Este processo reforça a convicção de que a cooperação institucional e o diálogo permanente devem continuar a orientar a relação entre os artesãos e o Município de Vila Nova de Gaia.”