“QUEM CUIDA DE QUEM LIDERA?”: ANA RUIVO COLOCOU A SAÚDE MENTAL NO CENTRO DAS ORGANIZAÇÕES

O Executive Tea Club reuniu, no The Yeatman, em Vila Nova de Gaia, dezenas de mulheres executivas para um encontro dedicado à liderança consciente e à saúde mental nas empresas. Sob o mote “Quem cuida de quem lidera?”, a sessão contou com a participação de Ana Ruivo, CEO-Founder da TEAM 24, que partilhou o seu percurso pessoal e profissional, defendendo que o bem-estar psicológico deve integrar a estratégia das organizações e deixar de ser encarado apenas como um benefício complementar.

 

 

O ambiente intimista e inspirador do The Yeatman voltou a acolher mais uma edição do Executive Tea Club, comunidade feminina criada em 2023 e inspirada na figura histórica de D. Catarina de Bragança. O encontro, o 46º promovido pela organização, decorreu no passado dia 16 de abril e teve como principal foco a reflexão sobre o impacto da saúde mental na liderança, nas equipas e na sustentabilidade das empresas.

Na abertura da sessão, Elsa Ramalho, cofundadora do Executive Tea Club, evocou a história da princesa portuguesa que se tornou rainha de Inglaterra para estabelecer um paralelismo com os desafios da liderança contemporânea. “Se recuarmos no tempo, encontramos a história de Catarina de Bragança, uma mulher portuguesa que chegou a uma das cortes mais exigentes da Europa e que, num ambiente nitidamente tenso e culturalmente distante, não se afirmou pela imposição, mas pela consistência, pela civilidade e pela forma como se manteve fiel a si própria”, afirmou.

A empresária destacou ainda que “vivemos num tempo de velocidade, de exigência constante e de foco em resultados, onde tudo é medido, menos aquilo que muitas vezes sustenta tudo, o estado interno de quem lidera, a clareza, o equilíbrio e a saúde mental”.

Também Raquel Mota Pinto, cofundadora do Executive Tea Club, sublinhou a importância de trazer este tema para o centro das organizações, apresentando Ana Ruivo como uma das vozes mais ativas nesta transformação. “Recebemos uma mulher que tem vindo a trazer este tema para o centro das organizações. Não como uma tendência, mas como uma necessidade”, revelou, acrescentando que a CEO da TEAM 24 “tem vindo a desafiar o paradigma tradicional das empresas”, defendendo que “não existe liderança sustentável sem consciência, nem organizações saudáveis sem líderes que saibam como cuidar de si próprios e dos outros”.

Durante a sua intervenção, Raquel Mota Pinto recordou ainda o crescimento internacional da comunidade feminina. “Desde o primeiro encontro no Porto, o Executive Tea Club tem crescido e cruzado fronteiras, chegando hoje a Aveiro, Lisboa, Dubai e Bahrain, reunindo mulheres executivas de diferentes geografias e sectores unidas por uma mesma intenção: evoluir, elevar e, acima de tudo, manter-se em equilíbrio num mundo cada vez mais exigente”, referiu.

A sessão contou ainda com a presença da marca Figgi Beauty, formulada com chá de rooibos sul-africano para o cuidado da pele madura, representada pela sua criadora, Jeanne Retief.

Apresentada por Elsa Ramalho, Ana Ruivo partilhou um testemunho profundamente pessoal e emocional, revelando como a sua experiência enquanto enfermeira influenciou a criação da TEAM 24. “É um prazer para mim estar aqui. Confesso-vos que estou com o coração cheio de ouvir as vossas partilhas tão diversificadas, mas que consigo encontrar um ponto comum em todas elas, o que me deixa feliz, que é a saúde mental”, começou por dizer a oradora convidada.

Licenciada em enfermagem e formada em gestão de empresas, Ana Ruivo explicou que trabalhou durante uma década na prática clínica, experiência que a levou a reconhecer as fragilidades emocionais existentes nos ambientes hospitalares. “Eu sou uma cuidadora nata, gosto de cuidar das outras pessoas. Gosto de me sentir útil. Gosto de sentir que acrescento algum valor”, afiançou.

No entanto, descreveu uma realidade profissional marcada pelo desgaste físico e emocional. “Trabalhava 12 ou 24 horas por dia, não porque queríamos, mas porque era obrigada. A minha remuneração era muito má. Durante 10 anos ganhei exatamente a mesma coisa. Não havia carreira, não havia remuneração atualizada”, recordou.

A empresária revelou ainda o impacto pessoal deste estilo de vida. “Não tinha tempo para mim, não tinha tempo para a minha família. Eu sou uma pessoa de família. Custava-me imenso não estar no Natal em casa, na Páscoa em casa ou nos jantares familiares”, confessou.

Apesar de não ter sofrido um burnout, Ana Ruivo admitiu que vivia num estado de profunda infelicidade. “Estava extremamente infeliz, não me sentia bem comigo mesma, não me sentia bem com os outros. Não estava realizada profissionalmente.”

Foi precisamente nos corredores do Hospital de São João que nasceu a visão que viria a dar origem à TEAM 24. “O que eu via era saúde mental, dor emocional”, afirmou. “A maior dor daquele hospital não era a dor física, era a dor emocional de toda a gente”, ressaltou a empresária.

Segundo explicou Ana Ruivo, essa realidade era transversal a profissionais de saúde, doentes e familiares. “Burnout, ansiedade, insónias, desgaste emocional, (…) percebi que tinha de fazer algo por mim e pelos outros, mas de uma forma mais abrangente”, contou.

Foi então que decidiu mudar radicalmente o rumo da sua vida profissional e criar uma empresa focada na saúde mental corporativa. “Vou fazer com que o sítio onde nós passamos mais horas acordados, que é no trabalho, seja um lugar onde eu queira estar, onde eu me sinta bem”, asseverou Ana Ruivo.

Fundada em 2020, a TEAM 24 disponibiliza apoio psicológico a colaboradores de empresas, apostando numa abordagem preventiva e integrada. “Não vamos apagar fogos. Não vamos falar quando a pessoa já está com burnout ou ataques de pânico. É uma visão holística, preventiva, para evitar que as pessoas cheguem à doença e para evitar que as empresas tenham climas organizacionais tóxicos”, destacou.

Atualmente, a empresa conta com quase 100 colaboradores, trabalha com mais de 200 organizações e acompanha cerca de 200 mil utilizadores em 16 mercados, “acompanhando os nossos clientes, que são multinacionais”. “Conseguimos quebrar o estigma e alcançar empresas públicas, privadas e de todos os setores de atividade”, sublinhou.

Ao longo da sua intervenção, Ana Ruivo defendeu que a saúde mental não pode continuar a ser tratada como uma ação pontual dentro das empresas. “A saúde mental já não pode ser um benefício extrassalarial. Já não pode ser o departamento da felicidade, nem ações avulsas, pois tem de passar a fazer parte do plano estratégico do negócio”, frisou a fundadora da TEAM 24, reforçando o papel determinante das lideranças no bem-estar das equipas. “O nosso líder tem mais influência no nosso bem-estar do que a pessoa que vive connosco ou até do que o nosso psicólogo”, referiu, acrescentando que “ninguém cuida dos outros se não estiver bem”.

Para Ana Ruivo, a liderança deve ser exercida através do exemplo. “Nós lideramos pelo exemplo e o bem-estar é igual. O líder tem de ser coerente”, afirmou, destacando também a necessidade de continuar a combater o tabu associado à saúde mental em Portugal, especialmente no contexto empresarial. “A saúde mental ainda é tabu nas empresas. Está a ser cada vez menos, mas continua a ser”, garantiu.

No encerramento da sessão, Raquel Mota Pinto revelou uma novidade que pretende reforçar a ligação entre as várias comunidades do Executive Tea Club. “Em breve lançaremos uma novidade. O Executive Tea Club vai ter uma APP, que já está na reta final. O objetivo é conseguir ligar todas as comunidades que já existem no Executive Tea Club”, anunciou.

A cofundadora recordou ainda que a receita do evento reverteu, como é habitual, para causas solidárias, nomeadamente para a Mama Help e para a Fundação Narciso Ferreira.

Num mundo cada vez mais exigente e acelerado, o encontro promovido pelo Executive Tea Club frisou que liderar começa, inevitavelmente, por saber cuidar de si próprio.