“A GRAMÁTICA NÃO CHEGA PARA DIZER TUDO…”

È precisamente por ser um sistema de regras que nos orienta no uso correto da língua…que o autor, poeta e dramaturgo, Manuel António Pina/MAP, se foi libertando progressivamente na sua obra literária, dela, criando, novas palavras, jogos de palavras, alterações na utilização e trocando às vezes, muitas das vezes, a ordem das letras para originar novas palavras, novos conceitos num jogo sempre criativo e lúdico.

Era com muita expectativa que esperávamos por este espetáculo, Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina colagem…, a primeira encenação de Vítor Hugo Pontes/VHP, o novo  Director Artistico do TNSJ.

E podemos dizer que valeu a pena a espera, o resultado é um belíssimo espectáculo musical, entre uma pequena opereta, um bailado (não fosse VHP um reputado coreógrafo) e teatro.

Num cenário no qual ao fundo se abre uma janela para o mundo, o escritor MAP, observa as suas palavras, as suas ideias , os seus jogos transformados em personagens, são as suas figuras literárias, uma espécie de coral em movimento vestido com coloridos fatos às listas, às riscas e de múltiplas cores, que no jogo cinético dos movimentos num constante centrífugo e centrípeto, quase que nos hipnotizam na sua dinâmica., eles são uma trupe de saltimbancos cómicos-cósmicos, ..não posso deixar de escrever que em certos momentos me lembrei do belo Bailado Triádico; o movimento em movimento, criação de Oskar Schlemer ,obra fundamental da Bauhaus para a dança moderna.

Se a gramática não chega…também as palavras, é preciso muito mais, são necessários os silêncios, as pausas, a invisibilidade da respiração e da emoção, e é aí precisamente que entra o teatro, o palco, o público, a comunicação, a magia!

O actor Jorge Mota, com imensa sobriedade, interpreta a Manuel António Pina, e por força da aventura das suas palavras se vê como o Sábio Fechado na sua Biblioteca, obrigado a sair para o mundo, para a vida, sabendo de que: “A vida é estarmos sós/A gente diz que a vida dói, /a vida não dói-/quem dói somos nós”

Depois da aventura da saída belamente representada num caminho labiríntico construído de livros, o regresso é inevitável…MAP, sabe como Borges que o labirinto mais complexo é o deserto. Emotivo é o fim, sabendo nós, que o poeta já não está connosco, mas que por fortuna da sua escrita, a sua obra poética fica eterna.

Um apontamento final sobre o caderno do espetáculo com belos textos que nos aproximam ao autor, todos eles de enorme interesse e valor começando pela nota de apertura de Vítor Hugo Pontes- O Caminho de Casa -, e os textos do encenador João Luís, director artístico do Pé de Vento (uma viagem biográfica do autor e da companhia de teatro Pé de Vento) e também o texto de Maria João Reynaud, dramaturgista da companhia, que nos lembra com sabedoria que MAP, gostava de recordar que “a historia da literatura  está cheia de livros para crianças lidos por adultos”.

Espetáculo para miúdos e graúdos , para mim e para todos, que conta ainda com músicas e canções originais de A Garota Não, a partir dos poemas de Manuel António Pina, onde não podia faltar um belo fado interpretado no melhor do estilo pela actriz Patrícia Queirós acompanhado pela viola em mãos generosas do ator Pedro Frias.

Todos os atores que se apresentam como: “Nós somos os trampolineiros, falsos fingidores verdadeiros, atores, imitadores, tocadores, dançadores, cantadores, contadores…” são belos intérpretes na cancão, no relato, nos movimentos e interpretação. Bem hajam!

Um Pouco de Céu

A Casa da Música no Porto é um dos belos projetos culturais da cidade do Porto, foi pensada para integrar em 2001 Porto Capital da Cultura e inaugurada em 2005. “A arquitetura do edifício foi aclamada internacionalmente. Nicolai Ouroussoff, crítico de arquitetura do New York Times, classificou-o como “o projecto mais atraente que o arquitecto Rem Koolhaas já alguma vez construiu” e como “um edifício cujo ardor intelectual está combinado com a sua beleza sensual”. (Wikipedia). 

Consultando a internet no ano passado e por motivo dos 20 anos da sua inauguração, estavam programados 270 concertos de diferente natureza, música clássica, experimental, erudita e popular. Tive a oportunidade de assistir ao concerto da cantora Mafalda Veiga, no dia 24 de janeiro deste ano. Numa noite particularmente chuvosa como poucas neste inverno. Fiquei radiante ao constatar o carinho, apreço e fidelidade que o público sente pela intérprete, traduzida numa casa cheia, a abarrotar. Sob o título O Inverno Não Dura Tanto Quanto Parece. nos brindou com temas conhecidos e outros novos na companhia do Ensemble Ibérico. Parafraseando a Boris Vian; afinal/o infinito/Já não dura tanto assim…”

Lembro, talvez, uma das poucas encenações do poeta e dramaturgo Boris Vian, em Portugal, foi nos anos 70, no TEP/Teatro Experimental do Porto, ainda era eu o director artístico , e foi convidado o actor João Guedes para encenar  Os Construtores do Império, ou o Schmurz . No palco o jovem actor João Paulo Costa, na sua terceira incursão profissional destacava-se pela plasticidade do movimento daquela figura difícil de definir. Cenários do escultor José Rodrigues, que idealizou uma pirâmide sufocante, para a ascensão dramática das personagens como é relatada na peça