Milhões de euros em contratos, dirigentes afastados, buscas policiais detenções, empresas sob suspeita e uma teia de interesses que durante anos permaneceu longe do olhar público. Após semanas de investigação e análise de documentos, o ‘Audiência’ reuniu num único dossier os factos, os protagonistas e as decisões que ajudam a explicar como a empresa municipal Águas de Gaia foi colocada no epicentro de uma das mais explosivas investigações por suspeitas de corrupção autárquica dos últimos anos. Esta é a história de como os tentáculos de um alegado polvo começaram finalmente a ser expostos.
Uma investigação do Audiência, sobre o denominado caso “Águas Turvas”, que, no mês passado, criou um forte impacte na opinião pública nacional, suportada por documentos oficiais, relatórios internos, mandados judiciais, elementos da Polícia Judiciária e documentação produzida após a mudança de gestão na empresa municipal Águas de Gaia, permite reconstituir uma cronologia que ajuda a compreender como uma empresa outrora considerada uma referência nacional passou a estar no centro de uma das maiores investigações por suspeitas de corrupção autárquica dos últimos anos.
O ponto de partida não está nas buscas da Polícia Judiciária realizadas em maio de 2026. Está muito antes.
Segundo os inúmeros documentos analisados pelo Audiência, a nova administração da Águas de Gaia, nomeada após a saída da equipa ligada ao anterior ciclo político liderado por Eduardo Vítor Rodrigues, encontrou uma empresa mergulhada num ambiente de descontrolo organizacional, ausência de mecanismos eficazes de fiscalização e múltiplos sinais de irregularidades. O diagnóstico inicial era tão inquietante que, segundo relatórios posteriores, havia apenas duas explicações possíveis: ou uma sucessão inacreditável de incompetências a vários níveis, ou a existência de práticas corruptivas organizadas.
Uma fonte interna da empresa Águas de Gaia sustentou ao ‘Audiência’ que, quando a nova equipa de gestão começou a abrir gavetas, deparou-se com situações que a levaram a travar contratos, congelar procedimentos e afastar dirigentes. Mas não foi suficiente. Determinou a abertura de uma investigação interna, que paradoxalmente não encontrou “ilícitos”. Este dado fez soar os alarmes. A impunidade estava enraizada. Foi necessário abrir uma auditoria externa e iniciar um processo de reorganização interna que acabaria por expor uma realidade muito mais complexa do que uma simples sucessão de irregularidades administrativas.
O anterior presidente do conselho de administração da Águas de Gaia, Miguel Lemos Rodrigues, já tinha sido “fortemente indiciado” da prática de vários crimes económicos e o Ministério Público, em março de 2025, classificou de “inação” a conduta do anterior presidente da Câmara, Eduardo Vítor Rodrigues, perante esta situação.
A investigação criminal do DIAP Regional do Porto já decorria há cerca de 17 meses. A Polícia Judiciária seguia pistas, recolhia documentação, efetuava vigilâncias e reunia elementos probatórios. Contudo, a dimensão interna do problema só começou verdadeiramente a emergir quando a administração nomeada após a mudança política na Câmara Municipal decidiu olhar para dentro da empresa e questionar procedimentos que durante anos tinham sido tratados como normais.
Foi nesse momento que começaram a surgir os primeiros tentáculos do polvo, expressão utilizada publicamente por Luís Filipe Menezes para descrever aquilo que considerava ser uma rede de influências e interesses instalada em vários setores da empresa.
E o primeiro tentáculo não apareceu num envelope com dinheiro, nem com ofertas de garrafas de vinho. Apareceu num contrato de 510 milhões de euros.
CAPÍTULO I — O CONTRATO DOS 510 MILHÕES
Entre os primeiros dossiers analisados pela nova administração encontrava-se o gigantesco concurso destinado à recolha, transporte e tratamento de resíduos urbanos.
O procedimento representava compromissos financeiros superiores a 510 milhões de euros e condicionaria durante décadas uma área estratégica da atividade municipal.
Os relatórios produzidos posteriormente são particularmente severos. Um concurso com verbas desta natureza, e a forma como estava fundamentado, seriam ruinosos e insustentáveis e a sua execução acabaria inevitavelmente por repercutir custos sobre os consumidores através do aumento das tarifas.
Mas os problemas não se limitavam ao valor.
Os critérios de adjudicação assentavam fortemente em fatores subjetivos, diminuindo o peso do preço final na avaliação das propostas. A nova administração considerou que o procedimento levantava dúvidas suficientes para justificar a sua suspensão e reavaliação integral.
A descoberta deste concurso constituiu o primeiro choque, mas não era um caso isolado. O segundo choque surgiria pouco depois. As decisões da administração do tempo de Eduardo Vítor Rodrigues, todas somadas, tinham custos que ultrapassavam os 528 milhões de euros.
CAPÍTULO II — A SEDE FARAÓNICA E OS PROJETOS CONGELADOS
Ao mesmo tempo que analisava o concurso dos resíduos, a nova administração deparou-se com outro símbolo do despesismo do anterior modelo de gestão, a nova sede administrativa da empresa. Orçada em cerca de 12 milhões de euros, a obra avançava entre atrasos sucessivos, revisões de calendário e dificuldades que dificilmente seriam recuperadas.
Enquanto a empresa enfrentava desafios financeiros relevantes e dependia de transferências municipais para equilibrar contas, continuava a avançar um projeto cuja dimensão era considerada desproporcionada face às necessidades reais da organização.
O mesmo sucedia com o concurso dos biorresíduos, avaliado em cerca de seis milhões de euros e assente num modelo que a nova administração entendeu não estar suficientemente sustentado pelos resultados obtidos.
A soma destes procedimentos levou os novos responsáveis a tomar uma decisão inevitável: parar, rever e auditar.
Foi a partir desse momento que a análise deixou de incidir apenas sobre contratos e passou a concentrar-se também nas pessoas que os tinham concebido, acompanhado ou validado.
CAPÍTULO III — OS 13 DIRIGENTES E AS DETENÇÕES
A reestruturação interna atingiu rapidamente os níveis superiores da organização.
Treze diretores e responsáveis perderam competências, foram afastados de funções ou viram os seus poderes significativamente reduzidos. A decisão provocou desconforto. Só pouco tempo depois, a investigação do denominado processo “Operação Águas Turvas” deu inteira razão à decisão.
Meses mais tarde, três dos responsáveis abrangidos por essa reorganização acabariam detidos no âmbito da operação “Águas Turvas”, sendo que alguns ficaram sujeitos a medidas de coação particularmente gravosas.
A coincidência reforçou uma convicção que começava a consolidar-se: aquilo que inicialmente parecia um conjunto disperso de anomalias podia afinal integrar uma realidade muito mais ampla.
CAPÍTULO IV — A EMPRESA-FACHADA E O CIRCUITO DAS ADJUDICAÇÕES
É nos autos do DIAP que surge uma das peças mais intrigantes de toda a investigação.
Os investigadores descrevem a constituição da sociedade AXIALCLOUD de José António Martins, ex-diretor da Direção das Águas e Abastecimento. Esta empresa faturava às sociedades a quem a Águas de Gaia adjudicava contratos. A investigação acredita ainda que houve contratos adjudicados pela empresa municipal a sociedades ‘testas-de-ferro’ na órbita da AXIALCLOUD, de José António Martins.
Segundo os autos, a empresa teria atingido uma faturação superior a um milhão de euros, apesar de não apresentar a estrutura operacional normalmente associada a uma atividade dessa dimensão.
Para os investigadores, este elemento assume particular relevância porque surge associado a um conjunto de relações empresariais, adjudicações, subcontratações e fluxos financeiros que passaram a ser analisados no contexto da investigação criminal.
Paralelamente, os autos descrevem de forma detalhada o alegado circuito de favorecimento que terá beneficiado determinadas entidades empresariais ao longo dos anos.
No centro dessa teia surge repetidamente o nome do empresário António Santos Mota, a quem terão sido adjudicados dezenas de contratos públicos relacionados com a Águas de Gaia.
Mais do que os valores envolvidos, os investigadores procuram perceber se existia um padrão de relacionamento que permitia transformar relações de proximidade em vantagem competitiva nas adjudicações. É precisamente aqui que a metáfora do polvo ganha verdadeira dimensão.
Porque os tentáculos não aparecem apenas numa direção.
Aparecem simultaneamente nos contratos, nas obras, nas subcontratações, nas consultorias e nos centros de decisão. Tudo isso travado pela atual gestão da empresa.
CAPÍTULO V — QUANDO A AUDITORIA ENCONTROU O QUE A PJ PROCURAVA
A Polícia Judiciária investigava há quase um ano e meio. A nova administração, indicada por Luís Filipe Menezes, investigava há poucos meses e os dois caminhos acabaram por cruzar-se.
Enquanto os inspetores procuravam demonstrar a existência de um alegado esquema de corrupção, os auditores externos começaram a encontrar sinais de falhas sistémicas de controlo, procedimentos considerados injustificáveis, contratos classificados como ruinosos e decisões cuja racionalidade económica não tinha sustentação.
É essa convergência que torna o processo “Águas Turvas” particularmente relevante.
Porque a questão já não se resume a saber se existiram crimes. A questão é perceber como uma empresa que durante décadas foi apresentada como uma referência nacional chegou ao ponto de acumular procedimentos superiores a meio milhar de milhão de euros, estruturas dirigentes sob suspeita, contratos contestados e uma investigação criminal desta dimensão.
Os tribunais dirão quem é culpado e quem é inocente.
Mas os documentos já permitem uma conclusão difícil de ignorar: se a mudança de gestão não tivesse ocorrido quando ocorreu, muitos dos contratos, decisões e procedimentos que hoje estão sob escrutínio poderiam ter seguido o seu curso sem oposição significativa.
Foi preciso abrir as gavetas.
E foi quando as gavetas se abriram que Gaia começou finalmente a perceber a dimensão do polvo que se escondia dentro de uma das suas mais importantes empresas públicas.
ASSISTENTE NO PROCESSO
A Câmara de Gaia liderada pela coligação PSD/CDS/PP/IL aprovou na passada terça-feira, por unanimidade, uma recomendação do PS para se constituir assistente no processo judicial Águas Turvas, relacionado com alegados casos de corrupção na empresa municipal Águas de Gaia.
“A câmara deve constituir-se assistente no processo judicial de forma a reclamar indemnização por prejuízos causados à gestão da empresa e aos consumidores”, sustenta a recomendação. O executivo municipal aprovou ainda, na reunião pública, a criação de um Conselho de Supervisão, com funções de fiscalização, presidido por uma personalidade independente e constituído pelos vereadores, representantes da assembleia municipal, presidentes de junta de freguesia e representantes de instituições de ensino superior do concelho.
Além destas duas medidas aprovadas, a maioria do PSD/CDS-PP/IL rejeitou uma terceira proposta que defendia a realização de uma auditoria externa para determinar o montante do prejuízo causado aos consumidores para posterior devolução em desconto na fatura da água.
O vice-presidente da câmara, Firmino Pereira, que esta terça-feira presidiu à reunião do executivo municipal, explicou que a rejeição prende-se com o facto de a auditoria estar já a realizar-se, mediante informações a que teve acesso.


