QUAL A MASSA DE UM TREINADOR?

Seja um treinador de formação, transição, alto rendimento ou elite. Seja numa perspectiva lúdica ou competitiva. Seja no sexo masculino ou feminino. De que massa é feito um treinador? Poderá ser uma resposta clichê, mas foca-se às características mais identificadas pelos experts e estudos científicos 1):
Paixão: Podendo o treinador ter os seus medos e resistências, optando por uma crença ou uma moda, o amor à modalidade é algo que une todos aqueles que estão na modalidade, acima de clubites e sobrepondo-se a interesses individuais, em detrimento dos objectivos colectivos, fornecendo a ajuda ao crescimento do seu clube e da modalidade.
Integridade: De acordo com uma entrevista a Irene Palma do canal A Bola ao treinador bicampeão europeu e campeão mundial de futsal, Jorge Braz, afirma este que não vê num percurso vitorioso, quando o mesmo é feito sobre a desgraça dos outros. Nem desconsidera o  adversário, sendo para ele essencial, para a melhoria de todos, ganhar o opositor no seu melhor. Também Abel Ferreira fala-nos sobre essas várias estratégias de ganhar, desestabilizando a equipa a partir do exterior, através de propaganda e desinformação, procurando pontos para explorar e criar situações de conflito. Para ambos, os valores são importantes, pois partem de princípios que no fim vem sempre ao de cima. 2)
Conhecimento: A nível de competência técnica é para além da arte de pôr os cones e construir exercícios, um treinador atual tem de ser multifacetado, gerir equipas inter multidisciplinares e dominar várias áreas de conhecimento, de forma a que tenha tomadas de decisão de excelência.
Comunicação: Até mesmo o consensual Cândido Costa na Rádio Comercial, antes de utilizar uma das muitas poderosas ferramentas da comunicação, o storytelling, alerta que “o futebol é terrível. E há muitos egos… E tu contares histórias sobre acontecimentos de balneário pode ser encarado como sendo desleal…”. Dito de outra forma, a comunicação feita nos diferentes contextos do futebol, devem ter o devido cuidado, seja como emissor, como receptor (escuta ativa), até à mensagem e ao canal devidamente escolhidos. 3)
Liderança: É uma clara característica de um treinador de sucesso, diferenciadora em relação às outras. Nesta arte de influenciar outros de forma positiva, para objetivos, mentalidades e comportamentos colectivos. Ser “águia” numa liderança de maior visão ou o “leão” numa liderança de maior proximidade, a atitude positiva e resolutiva perante as dificuldades é factor diferenciador. Visto que no treino e no jogo, através da liderança reflete-se a sua personalidade. 4)
Adaptabilidade: A capacidade de adaptação aos contextos e realidades dos mesmos é fundamental para maximizar a base sociológica determinante, para assentar outras dimensões de desenvolvimento. Segundo esta adaptação, para Jaded devemos caminhar para todas as portas, e as portas que estão fechadas deixá-las fechadas e caminhar sim, para as portas que estão abertas. Estas escolhas acertadas face às informações do contexto, permitem que o treinador torne mais eficaz todas as outras dimensões.
Resiliência Aqueles que na adversidade vêem uma oportunidade, que no desafio crescem, sentem-se posteriormente confortáveis no desconforto dos obstáculos diários e das pressões do alto rendimento, estão muito mais perto de vencer no desporto e na vida. Seja o exemplo de Disney que nunca desistiu dos seus sonhos, mesmo após ser demitido como desenhista, porque segundo um dos seus chefes, ele “não tinha imaginação”. Seja o seleccionador Tabárez (El Maestro) que lutou durante anos após diagnosticada uma doença neurológica que lhe afetava os nervos periféricos, mas que não o impediu de continuar o trabalho em prol do futebol do Uruguai e que o torna numa das personalidades mais estimadas pelo seu povo. 5)
Aprendizagem/Melhoria Contínua: Diretamente ligado com a humildade e a “fome” de disciplinardamente “hoje” fazer e ser melhor do que “ontem”. Aposta no crescimento contínuo pessoal e profissional, saindo da sua zona de conforto e abraçando a mudança e a inovação, própria do desenvolvimento nas sociedades humanas. 6)
Humildade: O respeito do papel e da função do outro. A importância que esse papel e essa função terá no processo, independentemente se for pontual, recorrente ou mais impactante. Esse respeito será a base de uma relação de partilha e entrega, sendo que no ambiente profissional, se juntarmos mais afetividade teremos um extra para capitalizar. No entanto, não se deve menosprezar ninguém, até porque na história do futebol tivemos exemplos de grandes descuidos com “patinhos feios”, os quais foram determinantes no desfecho final, levando à derrota aqueles que os não tiveram em conta. Vejamos o caso do Éder no nosso título de Campeão Europeu de Futebol e do exemplo do golo de Kelvin que dá um Campeonato Nacional ao FC Porto. 7)
Capacidade/Validação de Decisão:  É uma característica que precisa de competência demonstrada e conhecimentos fundamentados e validados, de forma que a decisão seja a mais próxima da excelência. O treinador não sabendo tudo, tem de saber avaliar, analisar, filtrar, priorizar e decidir, com base num todo essencial e em pormenores relevantes. Caso contrário, poderá andar perdido, no universo de variáveis do treino e do jogo, pelo excesso e falta de priorização da informação. 8)
Como podemos ver estas são algumas características que podemos identificar como basilares para um treinador, no entanto poderão não ser suficientes. Porque no percurso profissional, este pode ser feito de várias formas, seja por mérito, networking ou oportunidade. No entanto todas estas competências técnicas, sociais e pessoais vão dar as indicações para um crescimento sustentado numa carreira profissional. Mesmo que entre um amigo e um profissional, tendencialmente escolhem o amigo, serão estas competências, aquelas que o mantiveram num nível de elevado rendimento. Conforme refere Vítor Severino, que “mais do que a relação pessoal, é primordial a competência profissional”. 9) Treinando estas competências, com a devida oportunidade, terá muito pouco a se queixar.
1) Nuno Pinho. 2009. O Treinador de exclencia no futebo: elementos para uma cartografia multimendional