AS FÁBULAS

Na minha modesta biblioteca, as fábulas, contos, mitos e outros, ocupam um certo volume que traduz o meu interesse por estas matérias. Junto ao teatro, a literatura do fabuloso é uma das minhas preferidas; os contos dos  Irmãos Grimm, de H.C. Andersen, E.A. Poe, Charles  Perrault, as fábulas de Esopo e mais tarde,  as de La Fontaine, da Condessa de Ségur, conhecida como uma das iniciadoras da literatura infantojuvenil, mesmo quando a sua primeira obra deste género foi escrita quando ela já tinha 58 anos, e como não citar o conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont datado de 1756, A Bela e o Monstro , versão muito longe da Disney , levado ao cinema magistralmente pelo poeta e dramaturgo Jean Cocteau.

 

Da minha infância lembro um pequeno livro de fábulas que começava assim; No tempo em que os animais falavam… da tradição greco-latina, a palavra “fábula” etimologicamente aponta ao significado de “falar”, ação que, atribuída a animais ou a seres inanimados, é responsável pelo carácter “maravilhoso” do gênero. É natural, que em aquele tempo, os animais, retratados nestas curtas narrativas, deviam falar e ter uma mesma linguagem, senão como poderia a esperta Raposa, lisonjear o vaidoso Corvo para lhe roubar o queijo? Ou como poderia a ligeira Lebre desafiar a lenta Tartaruga numa corrida? 

As fábulas nos aparecem como lições de moral, dos comportamentos que são imitação nos animais e nos seres humanos, de aquilo que no teatro sempre foi uma divisa da comédia; «ridendo castigat mores» (‘Segundo o Dicionário de Português Michaelis, a frase significa «corrige os costumes sorrindo»).

Sobre este assunto recomendo a leitura de um artigo de autoria de Maria Irastorza (*) que revisita o tema, destacando o papel de figuras clássicas, como a do lobo no Capuchinho Vermelho, e na história do Menino Pedro e o Lobo, e dos Três Porquinhos, no qual nos primeiros se castiga a desobediência e a mentira e, no último se louva o trabalho e não a preguiça!

 

Também, alusão ao conto A Roupa Nova do Imperador, no qual a autora assinala que o pânico de ficar fora socialmente, contribui para a aceitação de uma mentira que é apenas desvendada por uma inocente criança, também um apelo ao trabalho e a poupança na fábula da Cigarra e a Formiga, quando o trabalho compensa à vida despreocupada da cigarra.

No mundo antigo, a linguagem universal era a Música, assim como está presente no mito de Orfeu, como também na Bíblia, ao parecer no episódio de A Arca de Noé, ao menos assim está retratado naquele interessante filme, A Bíblia, realizado por John Huston , no qual ele, como actor intérprete de Noé, conduz os animais para o interior da Arca, tocando uma espécie de um aulos antigo (conhecido por tibia em latim) 

Os contos e as fábulas ajudaram-me na construção de um imaginário que sendo breve, nas narrativas, se faria mais extenso no teatro, tanto nas comédias como nas tragédias. Sem pretender ser moralista, tudo o teatro leva um ensinamento moral, social e histórico, e assim o teatro atravessou toda a sua história, tanto como literatura como no espetáculo!

 

Finalmente relativo ao tema das fábulas e dos contos, citar uma obra fundamental que nos ajuda na interpretação dos contos; A Psicanálise dos Contos de Fadas/O significado e a importância dos contos de fadas de Bruno Bettelheim  (**) , obra que aborda, os contos de fadas como um instrumento importante, porque prendem a atenção dos mais jovens enquanto os divertem e lhes transmitem ensinamentos. São narrativas que usam uma linguagem simbólica, própria da infância, na sua abordagem dos medos, desejos e dilemas universais. O mesmo acontece com as figuras arquetípicas, que, respeitando e dialogando com a visão mágica infantil, propõem soluções exemplares que ajudam a lidar com as ansiedades, a enfrentar inseguranças e a assumir responsabilidades.
Obra, que integra literatura, mitologia, psicologia infantil e psicanálise, destaca o valor atemporal dos contos de fadas e incentiva os adultos, especialmente os pais e os educadores, a reconhecerem o seu papel essencial no desenvolvimento emocional e moral das crianças.

 

Na última crónica, quando lembrei os 50 anos da actriz Emília Silvestre, citei a colaboração musical do Maestro José Luís Borges Coelho, que nos deixou, mais pobres naturalmente, com a sua partida. Lembro o nosso relacionamento, sempre cordial e amável, eu fui o seu companheiro na aventura da Cooperativa Árvore-Ensino Superior, hoje ESAP/Escola Superior Artística do Porto, ele foi o meu Director Académico e Presidente do Conselho Científico, dele terei sempre belas recordações!

Também nos deixou o actor Luís Lucas, lembro-me dele dos Cómicos de Lisboa, da Cornucópia, especialmente no espetáculo Woyzeck e outros. 

De ambas partidas gostava de referir os artigos do Jornal Público: 

Morreu Luís Lucas, um actor incandescente /Fundador do Teatro A Comuna e colaborador próximo de Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra, teve uma presença marcante no teatro e no cinema português do pós-25 de Abril./Tiago Bartolomeu Costahttps://www.publico.pt/2025/08/24/culturaipsilon/noticia/morreu-luis-lucas-actor-incandescente-2144810

José Luís Borges Coelho (1940-2025), o maestro que ensinou para uma sociedade melhor /Diana Ferreira- https://www.publico.pt/2025/08/24/culturaipsilon/noticia/jose-luis-borges-coelho-19402025-maestro-ensinou-sociedade-melhor-2144838

E, a sentida homenagem de Luís Miguel Cintra, “Luís Lucas, adeus!” -Luís Miguel Cintra despede-se do amigo. “Nunca com a morte de ninguém senti tanta vontade de contar o que vivemos.” –https://www.publico.pt/2025/08/28/culturaipsilon/cronica/luis-lucas-adeus-2145249

Notas: 

(**) No livro Psicanálise dos contos de fadas, B. Bettelheim apresentou as histórias como eram contadas em seus primeiros registos, com a presença da violência quase brutal e dos tabus, como o do incesto. Seguindo as ideias freudianas, afirmava que essa violência é inerente ao ser humano e, por isso, atrai tanto a atenção das crianças. Isso explicaria, por exemplo, por que o lobo fascina tanto os pequenos.
O conto de fadas recriava, também, a saga do herói: a busca das origens, o enfrentamento de problemas, a superação dos obstáculos e a obtenção da glória e do sucesso.Revista Educação | Bruno Bettelheim e a psicanálise dos contos de fadas – Revista Educação