Com apenas 14 anos, Martim Marques já escreveu uma página inesquecível na história do desporto motorizado português. Natural do Porto e residente em Famalicão, descobriu no karting a sua verdadeira paixão e, desde os 5 anos, transformou a curiosidade em determinação. Aos 6, alinhava pela primeira vez no Campeonato de Portugal e, em 2022, sagrou-se campeão mundial, na categoria Micro Max, levando a bandeira portuguesa ao lugar mais alto do pódio. Entre treinos intensos, sacrifícios pessoais e o apoio incondicional da família, o jovem piloto partilhou, em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, a sua trajetória, desafios e ambições para o futuro. Inspirado por ícones como Ayrton Senna, vive cada corrida com a convicção de que a velocidade é mais do que um desporto: é um modo de vida.
Martim, fala-me sobre ti.
Sou natural do Porto e, atualmente, resido em Famalicão. Tenho 14 anos e dedico a minha vida ao karting ,desde os 5 anos de idade.
Em que momento exato percebeste que querias ser piloto?
Com precisão, foi quando fiz 6 anos, sendo que era a idade mínima obrigatória para praticar a modalidade, estávamos em 2016 quando fiz a primeira época do Campeonato de Portugal de Karting, na categoria de iniciação.
Quem ou o que te inspirou a entrar no mundo do karting?
Concretamente, cresci numa família de amantes de carros desportivos e, nos meus primeiros anos, já tinha preferência por assistir na televisão a corridas de automóveis, em detrimento dos desenhos animados, naturalmente que fui crescendo com a curiosidade de saber mais sobre ícones do desporto automóvel, como o Ayrton Senna e por consequência, sabendo do início da sua carreira, despertou em mim também a vontade de experimentar e perceber qual o meu gosto e talento por este desporto.
Como foi a tua primeira experiência num kart? Lembras-te do que sentiste?
Recordo-me perfeitamente, são experiências que marcam, ainda por cima quando as vivemos com paixão. Tinha eu 5 anos quando o meu pai me levou a conhecer a pista do Cabo do Mundo e pela minha tenra idade, 5 anos, tiveram algumas reservas em me deixarem andar, mas tendo em conta que já andava de mini moto 4 (2 tempos) desde os 3 anos, o meu pai lá os convenceu a que eu experimentasse e depois nunca mais parei, até ao presente.
Qual foi a reação da tua família quando disseste que querias seguir esta paixão?
Não ficaram surpresos, porque quem sai aos seus não degenera. Como já referi, os meus pais, apesar de nunca terem praticado qualquer desporto motorizado, sempre foram amantes dos super carros desportivos e da velocidade. A minha paixão, talento e vontade foi, no fundo, uma satisfação e uma alegria para todos.
Quanto tempo treinas por semana e como concilias isso com os estudos?
Normalmente, treino todos os fins de semana, nomeadamente ao sábado e ao domingo e faço apenas uma pausa para descanso no fim de semana seguinte a cada prova, restando pouco tempo de paragem, pois é um desporto exigente em que cada pormenor conta e como são muitas as variantes que temos de aprimorar, como por exemplo, motores, chassis, pneus, as condições climatéricas e mesmo o próprio piloto, obriga-me a trabalhar continuamente, para que na corrida seguinte tudo possa estar perfeito. Relativamente aos estudos, esta modalidade obriga-nos, por vezes, a estar fora por alguns dias e, consequentemente, a faltar às aulas. Nesse aspeto, devido ao meu estatuto de atleta federado, existe alguma flexibilidade por parte do colégio que frequento, que é o Colégio da Trofa, ao qual não poderia deixar de expressar aqui uma nota de agradecimento. Paralelamente, tenho apoio escolar com o meu explicador, de forma a que possa acompanhar toda a matéria do meu calendário escolar.
Que tipo de preparação física e mental é necessária para ser competitivo no karting?
São sem dúvida dois fatores de extrema importância para esta competição. Nesta matéria, desde os meus 7 anos que tenho acompanhamento 1 ou 2 vezes por semana com o meu Personal Trainer, para trabalhar e fortalecer toda a minha parte física, nomeadamente a muscular. Além disso, visito, todos os meses, o meu fisioterapeuta, para tratar de contraturas e fadiga muscular. A parte mental é reforçada através do apoio da família e do meu chefe de equipa, pois foi assim que aprendi a gerir tudo o acontece dentro da pista. Nós temos de aprender nas derrotas e não nos deslumbrarmos com as vitórias. Cada corrida tem uma história e, por vezes, a atitude e a mentalidade com que vamos para a pista, marca a diferença para alcançar um bom resultado.
Houve algum momento em que pensaste em desistir, devido ao esforço ou à pressão?
Na verdade, no ano em que fui campeão do mundo, conquistei tudo, foi a minha derradeira época na categoria X30 Mini. O ano seguinte, foi uma mudança drástica. Subi para a categoria Júnior, onde já guiava um kart de adulto e, além de ser o mais novo, também a minha resistência física não estava ao nível dos meus adversários. A par disso, foi um ano de muitas condicionantes técnicas. Em cada corrida acontecia um problema técnico que me impedia de me expressar em pista a minha determinação e potencial. Eu nunca tinha passado por aquilo. Foram corridas seguidas com problemas, algumas delas que me forçaram a abandonar, quando liderava. Com tudo isto, começou a vir o desânimo e a vontade desistir. Porém, acabei por rumar a Itália para fazer uma época no WSK, onde o grau de exigência é muito superior ao nacional e percebi lá fora que mesmo os melhores têm as mesmas contrariedades. Então, pesei tudo aquilo que já tinha conquistado e o facto de ter escrito uma página na história do desporto motorizado em Portugal e levantei a cabeça, continuando a lutar para alcançar o melhor dentro daquilo que mais amo fazer.
Como é lidar com as vitórias, as derrotas e os erros em pista?
O tempo e a experiência vão-nos ensinando que temos de olhar para os erros e para as derrotas de forma construtiva, até quando os infortúnios são provocados por terceiros. O segredo é, no final de uma corrida menos feliz, tirar a conclusão do porquê e aproveitar o que de melhor aconteceu. A partir daí é fazer um reset e focar-me na próxima. Relativamente às vitórias, quando já se atingiu o topo, tudo o que vier a seguir é bom e a nossa pressão é menor. É sempre boa a sensação de cortar a meta em primeiro lugar e saber que também estás a alegrar a tua equipa e quem te segue e apoia. São vitórias de todos os que me rodeiam e trabalham para este fim.
Como lidas com a pressão quando estás lado a lado com os adversários?
Os meus adversários lá dentro, são os meus amigos cá fora. Sempre tive uma boa relação e camaradagem com os outros pilotos e sempre soubemos discutir os assuntos da pista com veemência. Na verdade, a pressão é no momento que estamos na pré-grelha à espera do sinal para entrar em pista. A partir do momento em que se arrancam os motores, a pressão transforma-se em adrenalina e é cada um por si na busca do primeiro lugar.
Qual foi a corrida mais emocionante da tua carreira até agora?
Sem dúvida que a final mundial da ROTAX 2022. Estava a representar o meu país na categoria Micro Max, onde tinha sido campeão nacional e foi uma semana de corridas onde estávamos em pista os 36 melhores do mundo. Estivemos sempre no top-5 a nível dos tempos e confiantes com pódio na final. Felizmente, eu e o meu mecânico estivemos sempre concentrados e a trabalhar em sintonia ao longo dos dias e na final conseguimos o feito inédito de alcançar o título de campeão do mundo dessa mesma categoria. Ainda hoje, sempre que revejo, a corrida sinto a mesma emoção e felicidade dessa conquista.
Com um extenso palmarés nacional e internacional, quais diria que foram os prémios mais relevantes para ti? Porquê?
Felizmente são já muitos os prémios e todos eles com um sabor especial, mas gosto sempre de recuar até 2022, onde numa só época conquistei seis títulos, todos eles especiais: Open Portugal Iame, Campeão Nacional X30 Mini (Iame) e vencedor da Champions of the Future (Iame) no Campeonato Rotax, fui campeão nacional na categoria Micro Max, também campeão à geral na categoria Mini Max e, por fim, Campeão Mundial nas finais Rotax Max Chalenge Grand Finals categoria Micro Max).
Atualmente, corres pela Ricardo Borges Racing Team e conquistaste, recentemente, o 3º lugar na última jornada do Campeonato de Portugal de Karting, no Bombarral. Como descreves este feito?
Saímos da corrida com o sentimento de dever cumprido. A transação para esta equipa, foi já próximo do final da época, pelo que ainda estamos a trabalhar para conhecer melhor o chassis (Maranello) e a filosofia de trabalho. Senti que demos um passo em frente no que toca à parte técnica, pois temos tido algumas dificuldades com o material em dias mais quentes, mas após termos conquistado a pole position e o primeiro lugar na corrida 1 (com chuva), terminamos o domingo com um honroso 3º lugar do pódio na corrida final (seco), a escassas 17 centésimas da melhor volta.
No karting, cada detalhe técnico conta. Acreditas que o trabalho das equipas e dos mecânicos também é determinante para um bom resultado?
Sim, é fundamental. É um desporto em que cada milésima conta e tem de haver uma boa configuração e sintonia entre o piloto, o mecânico, o material e a equipa. Nada pode falhar e este equilíbrio exige muito trabalho, humildade e resiliência, porque, por vezes, estando todos estes fatores alinhados no máximo, situações colaterais em pista podem acontecer, hipotecando muitas vezes semanas de trabalho e dedicação. Em suma, a sorte também importa.
Quais são as tuas perspetivas para o futuro?
Estou seguro do que gosto e do que quero. Normalmente, nestas idades, quando se pergunta a um piloto de karting qual o seu desejo no futuro, 99% responde que o sonho é chegar à Fórmula 1. Temos de estar bem conscientes desse caminho e ter a certeza de que o dinheiro, o talento e os conhecimentos, por vezes, não chegam. Não sou um sonhador. Dessa forma, quando me colocam esta mesma questão, a minha resposta é sempre a mesma, quero ser piloto profissional e o que tiver de ser, será. Deixo que a vida e o meu trabalho me conduzam ao patamar que me está destinado, por mérito.
Qual é o teu maior sonho?
Continuar a fazer ao longo dos anos o que mais gosto, ir para as pistas e competir, honrando sempre quem me apoia e as cores do meu país.
Que mensagem gostarias de transmitir aos nossos leitores?
Endereçar um convite a todos, para estarem presentes nas provas de karting nacionais, apoiando todos os que fazem parte deste mundo, de forma a podermos crescer ainda mais cá dentro e também lá fora. Também, deixo um forte abraço a todos os leitores e a toda a equipa do Jornal AUDIÊNCIA.


