VERMELHO…

“Só há uma coisa que me mete medo nesta vida, meu amigo… Que um dia o preto engula o vermelho”. ROTHKO

Perante a presença da cor vermelha nas suas obras, o pintor lamenta-se ao adivinhar o final trágico da cor inicial invadida pelo preto.

A palavra tragedia não está ao acaso citada no texto teatral, e se aplica a obra de Rothko, não apenas pelo final da sua vida num ato suicida, mas também pelo poder que para ele teve a obra literária de Nietzsche – O Origem da Tragédia- o pintor era um intelectual, um homem extremamente culto que amava a música e a literatura e era muito interessado pela filosofia, e pela mitologia grega.

Vermelho do autor John Logan, um encontro imaginário ou real, pouco importa, entre um pintor e a sua obra e um jovem ajudante aspirante a pintor, o trabalho de atelier os reunirá durante semanas. O jovem Ken, nesta peça, é o jovem que contratado por Mark Rothko, ajudará a preparar as telas, a misturar as cores e em pequenas tarefas. No desenrolar do texto assistimos a um discurso obsessivo e contundente por parte do artista, enquanto o jovem aprendiz escuta em silêncio. Com o passar das semanas Ken começará a expor as suas ideias, e se transformará num interlocutor crítico, da obra e da vida de Rothko.

Mark Rothko inventa uma forma meditativa de pintar, que o crítico Clement Greenberg definiu como Colorfield Painting (“pintura do campo de cor”).

(*) -ROTHKO … (Indica em direcção aos quadros.) Olha a tensão entre os blocos de cor: o escuro e o claro, o vermelho e o preto e o castanho. Existem num estado de fluidez – de movimento. Tal como se escoram uns aos outros na tela propriamente dita, também se escoram uns aos outros nos teus olhos. Quanto mais olhas para eles, mais eles se mexem…. Flutuam no espaço, respiram… Movimento, comunicação, gesto, fluxo, interacção; a permitir-lhes funcionar… Não estão mortos porque não estão estáticos. Movem-se pelo espaço se os deixares, é um movimento que leva o seu tempo, por isso são temporais. Eles precisam de tempo.

-KEN Exigem-no. Não funcionam sem ele.

-ROTHKO É por isto que é tão importante para mim criar um lugar. Um lugar onde o observador possa contemplar os quadros ao longo do tempo e deixá-los moverem-se. KEN (Entusiasmado.) Eles precisam do observador. Não são como quadros figurativos, como paisagens ou retratos tradicionais.

Um belo espetáculo do Ensemble, com interpretação de João Reis de Daniel Silva, encenação de Carlos Pimenta, abriu a temporada oficial do TNSJ- 25/26 com excelentes interpretações e uma encenação cuidada, delicadamente acentuada pela música e pelo visual, o recurso ao audiovisual, ajudou a invadir cromaticamente em determinados momentos a cena, quando esta se transforma, num ambiente colorido, onde prima o vermelho, nas suas variantes e tonalidades …

(*) “O que é que vermelho significa para mim? Estás a falar de escarlate? Estás a falar de carmesim? Estás a falar de damasquino – amora – magenta – bordô – salmão – carmim – cornalina – coral?” ROTHKO

Ainda sobre o 11 de Setembro-

Foi há dias que neste espaço publiquei (*) algumas considerações sobre esta data e a sua repercussão na historia moderna do Chile. No texto citei algumas atividades relacionadas com o exílio, a publicação de um livro de cartas, O Tempo do Silêncio, de Leticia Martinez Vergara. Pessoalmente mantive com a minha mãe uma comunicação epistolar durante os meus anos de exílio, ela 19 anos na RFA/Republica Federal Alemã, e continuamos mesmo quando regressou ao Chile. Nos anos 70/80, as comunicações telefónicas, além de caras, eram demoradas, lembrou as muitas horas que passei nos correios do Porto à espera de uma chamada que pelos TLP, devia ser via Lisboa!

Também fiz referência de um filme documentário realizado por Thomas Grimm-2023- sobre os filhos de exiliados nascidos no estrangeiro, especificamente na RFA. Dois dos meus sobrinhos nasceram em Frankfurt/Main, Marcelo e Andreia. Marcelo infelizmente morreu prematuramente devido a uma doença congénita. Andreia tem a nacionalidade chilena e alemã, e é mãe de dois filhos, um rapaz e uma rapariga, ambos já com idades superiores aos 18 anos, são os meus sobrinhos netos.(**) 11 de Setembro – sinalAberto

No dia 11 de setembro O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos e três meses de prisão por golpe de Estado e mais quatro crimes após as eleições de 2022.

Congratulamos a Justiça Brasileira que não se deixou intimidar pela pressão local e internacional. Sabemos que as altas taxas impostas pelos EEUU, são para desestabilizar o Governo do Presidente Lula da Silva, mas este tem respondido com uma atitude digna de um mandatário eleito pelo voto universal, respeitando o jogo democrático e as suas instituições. Saudamos o Povo Brasileiro, o seu Governo e os Tribunais de Justiça do Brasil!

Desde esta modesta crónica saudar a Ricardo Pais (1945) no seu aniversario, que no passado dia 11/9 cumpriu 80 anos. O TNSJ, celebra esta data com uma serie de atividades pensadas em torno a ele;

Ricardo Pais completa 80 anos em 2025. RP 80 é o programa que o Teatro Nacional São João dedica àquele que criou o seu ideário e pensou toda a estrutura, da bilheteira à porta dos artistas, mas excede em muito a lógica da festa de aniversário ou da homenagem em modo (auto)celebratório. RP 80 olha para a vida e obra de Ricardo Pais e declina-a em quatro momentos: quatro estações que documentam e ficcionam uma exemplar peregrinação criativa e formativa. Quatro sonoros vivas à efemeridade do teatro, a arte civilizada da memória, da atenção, do esquecimento.TNSJ

As atividades que integram e assinalam esta data, compreendem o Lançamento do livro, Despesas de Representação – Ditos e Escritos (1975-2025) 

de Ricardo Pais organização editorial Pedro Sobrado -edição Húmus, Teatro Nacional São João.

A reposição de dois espetáculos emblemáticos encenados por Ricardo Pais; Turismo Infinito de António M. Feijó a partir de textos de Fernando Pessoa
e três cartas de Ofélia Queirós e al mada nada  a partir de Saltimbancos  e outros textos de Almada Negreiros – no TNSJ nos dias 16/17/18 e 19 de Outubro.

Notas (*) do texto original, na tradução para o Ensemble- Sociedade de Autores de Pedro Galiza. Agradecemos a actriz Emília Silvestre a partilha do texto.

(**) Mark Rothko nascido Markus Yakovlevich Rothkowitz ( Dunaburgo/Império Russo, 1903 — Nova Iorque, de 1970) pintor norte-americano de origem letã e judaica. Imigrou com sua família de Dvinsk (hoje Dunaburgo, Letónia, outrora parte do Império Russo) para os Estados Unidos em 1913, quando ele tinha dez anos. Ele é classificado como um expressionista abstrato, embora ele tenha rejeitado esse rótulo. Resistiu aceitar, também, a classificação de “pintor abstrato”. Tal como Jackson Pollock e Willem de Kooning, Rothko é um dos mais famosos pintores americanos do período pós-guerra (Wikipedia)