75 ANOS AO SERVIÇO DOS AÇORIANOS

Quem não conhece, ou já comprou, numa loja Papagaio? Com 75 anos de atividade, a empresa familiar, agora gerida pelos irmãos Nelson e Elisabete Correia, continua em crescimento apesar do aparecimento de outras empresas nacionais e internacionais, mas continua a demarcar-se das restantes pelo atendimento, tratamento e qualidade dos produtos que disponibiliza. Com Lojas Papagaio espalhadas por toda a ilha, todos os habitantes são potenciais clientes, prova disso é que dos 75 prémios sorteados no evento de aniversário, os mesmos abrangeram quase todas as freguesias da ilha.

 

É um dos nomes mais conhecidos dos açorianos e, recentemente, celebrou o 75º aniversário junto com clientes, fornecedores, amigos e colaboradores. Falamos da empresa familiar Jacinto Ferreira Correia & Filhos, mais conhecida por Lojas Papagaio que marcou esta data importante com uma grande festa que reuniu cerca de mil pessoas.

Ao AUDIÊNCIA, os proprietários, e irmãos, Nelson e Elisabete Correia explicaram que este evento foi planeado ao pormenor e que correu melhor do que as expetativas.

“Ficamos muito satisfeitos neste dia, alegres e realizados com a festa. Foi para agradecer aos nossos clientes parceiros e colaboradores que fizemos 75 anos, que existimos por eles, porque se não fosse a colaboração de todos não estávamos cá e fizemos o sorteio com 75 prémios, 74 todos oferecidos pelos nossos fornecedores, e o maior foi a empresa que suportou, que foi uma viagem à Madeira para duas pessoas”, afirmou Elisabete Correia.

Já aquando dos 50 anos da empresa, tinha sido realizada uma festa, mas, como explica Nelson Correia, “foi uma festa restringida a fornecedores, clientes principais e amigos” que acabou por não cair bem a alguns clientes, motivo pelo qual este ano abriram as portas a todos os que se quiseram juntar à celebração.

Embora Nelson e Elisabete Correia estejam à frente dos destinos da empresa há 40 anos, a mesma já existia antes deles, tendo uma longa história desde os seus primórdios.

“O nosso avô paterno, em 1940, emigrou para o Brasil e esteve lá uns anos. Possuía um talho e conseguiu arrecadar algum dinheiro e com esse dinheiro montou três casas velhas e fez a sua casa, mais uma mercearia e taberna e que ainda hoje se mantêm, ampliadas com mais três casas e um terreno. Obteve o alvará no dia 29 de junho de 1950, que hoje é feriado municipal na Ribeira Grande. A partir daí, os nossos pais entusiasmaram-se por esse negócio, o meu pai inclusive começou mais na área da eletrotécnica e tirou um curso para consertar rádios e televisões, e dedicou-se a fazer muitas montagens de eletricidade nas casas onde não havia porque na altura havia muitas freguesias sem eletricidade, e foi fazendo crescer o negócio”, conta Nelson Correia.

Uma das curiosidades desta história familiar e empresarial, é que, segundo os irmãos, o avô chegou a vender ouro numa taberna, “um dos poucos casos em Portugal que teve licença para tal”.

O negócio foi fluindo e, em 1974, a empresa já vendia rádios, frigoríficos, fogões, e os pais de Nelson e Elisabete Correia decidiram abrir num local arrendado, perto das atuais instalações, um espaço comercial com 74 metros quadrados, onde começaram também a se dedicar ao mobiliário.

“Passados cerca de 8 ou 9 anos, o crescimento do negócio estava a florescer e iniciou-se a construção de um edifício de 5 andares em frente à sede onde o rés do chão e cave, com cerca de 400 metros quadrados, foi dedicado ao mobiliário e eletrodomésticos. E continuamos a crescer, tínhamos bons preços e o meu pai sempre deu crédito e assim tivemos muita clientela, é verdade que há sempre o risco do calote, mas fomo-nos safando”, contam.

Os anos 2000 marcaram também a inauguração da loja Papagaio nas Capelas e em Vila Franca do Campo. Mas um dos momentos mais marcantes foi a 19 de março de 2005, quando se dá a abertura do Showroom, uma “aventura” que aconteceu dada a “explosão aqui na ilha de construções novas” e a empresa ter sentido que estava a perder algum terreno por não ter espaço para expor.

Até 2009, os proprietários afirmam que tudo correu conforme esperado, embora a crise que se assolou nessa altura fizesse com que as coisas “esmorecessem”. “Com altos e baixos da crise, a empresa entrou em dificuldade por causa da área da construção, mas conseguimos sobreviver e aqui estamos mais fortes, mais robustos e mais resilientes. Na altura foram quase 2 milhões de euros de calotes, de dívidas irrecuperáveis de empresas que faliram e fomos apanhamos. Trememos, mas conseguimos”, afirmam.

De facto, as provas são inegáveis. A empresa está no Top100 das empresas dos Açores, tendo sido nos últimos 20 anos galardoados duas vezes como uma das melhores 10 empresas dos Açores, a última em 2020 onde foram considerados a 4ª melhor empresa dos Açores. Também continuaram a obter os prémios de PME Excelência e PME Líder, “o que quer dizer que a empresa obteve boas performances na área financeira”.

 

Mas porquê “Papagaio”?

O nome, que fica no ouvido e difícil de esquecer, tem também um motivo. “O Stand Correia nasce em 1974, com a abertura da loja arrendada, e em 1983 com a abertura no edifício novo, dois anos depois, registamos a marca Lojas Papagaio. Era uma publicidade gratuita que tínhamos, pois éramos conhecidos por Papagaio, embora quando éramos mais novos não gostássemos, mas foi uma grande mais-valia. Com a abertura do showroom é que quisemos não popularizar muito aquela loja para ser para uma clientela mais média/alta, e aconteceu, e as outras ficaram mais ligadas ao Papagaio”, explicam os proprietários.

Mas nem tudo foi fácil neste processo. Elisabete Correia, a única filha, teve de lidar com uma empresa maioritariamente com homens, mas nunca desistiu nem teve dúvidas do seu percurso. “É muito difícil lidar com tantos homens, mas suporta-se. Foi sempre um desafio, é verdade, mas era a menina dos papás. E sempre fui criada nisto, as minhas brincadeiras era na mercearia, a embrulhar o açúcar e a farinha, adorava fazer aquilo. E aos 18 disse aos meus pais que não queria continuar a estudar, foi uma desilusão para a minha mãe, mas eu realmente adorava esta vida”, conta.

Desde 1983 que os dois irmãos estão à frente dos destinos da empresa, embora Nelson Correia tenha conciliado, até 1992, este trabalho com o trabalho num banco. “Era desafiante, era uma empresa sempre em crescimento e é como ver crescer uma árvore. E é uma empresa que inovou sempre, não parou no tempo, correu riscos, mas desenvolveu”, congratula-se.

E o crescimento continua até agora, sempre com “um crescimento de dois dígitos” por ano e nem o aparecimento de empresas nacionais e internacionais implantadas na ilha tem sido motivo de preocupações para a empresa. “Agora há muito a modernize das compras online, a malta jovem está muito virada para isso, não se deslocam, mas na nossa ilha, a maioria das pessoas ainda gosta de ter o contacto e nós marcamos a diferença pelo facto de fazermos entregas rápidas ao cliente. O cliente compra, não espera uma semana, dentro dessa semana, às vezes no próprio dia, efetuamos a entrega. E só isso nos traz mais-valia na empresa. Na parte dessas grandes superfícies, temos o cuidado de todas as compras que se faz, que sejam maiores, de ver os preços que praticam. Estamos sempre par a par com eles na maioria das vezes e, de há uns anos para cá, temos feito levantamentos de 15 produtos em que 7 ou 8 dos nossos são melhores do que os deles. Não temos medo deles, a mais-valia deles é ter um nome forte. Mas temos vindo a crescer na mesma”, asseguram.

Contudo, algo que preocupa Nelson Correia é a abertura do anunciado Retail Park, em frente ao Hospital de Ponta Delgada, um espaço de 14 mil metros quadrados que se prevê que inaugure no final do próximo ano. “Vamos ter de conviver com essa realidade e com marcas fortes, uma delas que nos pode atrapalhar um bocadinho, como aconteceu na Madeira. Mas o nosso povo não quer móveis para montar e pode ser que nos safamos com isso apesar de termos fornecedores comuns”.

Uma das outras curiosidades desta empresa familiar é que foram também responsáveis pela primeira estação Mobil, feita pelo pai dos irmãos Nelson e Elisabete Correia. “Foi um desafio da Mobil mesmo, num terreno que foi alugado. Mas antes disso, o meu pai já vendia gasóleo numa entrada ao lado da mercearia. A Mobil teve sucesso porque só havia mais uma estação na Ribeira Grande, mas havia um problema muito grande que era as margens eram pequenas, o terreno não era nosso, tínhamos de pagar rendas, exigia mais do que um funcionário, e as dificuldades financeiras na época eram grandes, e acabou por haver créditos, porque o meu pai sempre teve bom coração a dar crédito, daí termos atingido o que atingimos, e as pessoas reconhecem ainda hoje”.

Contudo, o reconhecimento por parte de algumas entidades tem deixado os proprietários um pouco desiludidos, como explica Nelson Correia. “Aqui propriamente dito, no concelho, não temos razoes de queixa, a antiga Câmara sempre apoiou os nossos eventos e esta nova também apoiou agora no aniversário. Não é como a RTP Açores que nem se dignou a avisar que não podiam aparecer. Mas isso é a comunicação social. Na parte do Governo, só aparecem para cortar o bolo com um discurso bonito. É verdade que somos uma empresa entre outras tantas na ilha e proteger-nos é sempre complicado, mas são pouco ouvintes, temos tido alguns handicaps com eles e as coisas não se resolvem bem, é sempre para o lado deles, há uma carga de impostos muito elevada para as empresas açorianas e não há o mínimo de atenção. Devia haver como nos EUA em que parte do lucro gerado pela empresa se for aplicado no ano seguinte haver uma isenção do imposto. É verdade que aqui nos Açores temos majoração de 30% o que é muito bom, quer no IRC, IRS ou IVA, mas não temos capacidade económica de uma empresa instalada no continente”, confidenciam.