O TABU DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA MASCULINA

A violência doméstica é um crime público e um problema social que ultrapassa géneros e classes. No entanto, quando a vítima é homem, o sistema vacila. A lei é neutra, mas a cultura não. E é precisamente nesse espaço entre o direito e o preconceito que muitos casos se perdem, escondidos sob o peso da vergonha e do silêncio.

O modelo social português continua a sustentar o mito do “homem forte”, incapaz de ser vítima. A masculinidade é construída sobre a ideia de controlo e resistência, e admitir ter sido agredido pelo parceiro é, para muitos, uma ferida no ego e no papel social. As agressões físicas ou psicológicas contra homens, embora previstas no artigo 152.º do Código Penal, permanecem invisíveis porque a vítima não se reconhece como tal. Muitos banalizam o que sofreram, transformam o medo em ironia e a dor em silêncio.

Este silêncio não é apenas psicológico, é também social. A narrativa dominante, repetida em campanhas públicas e nos media, associa a violência doméstica à figura da mulher agredida. De facto, a maioria das vítimas continua a ser feminina mas a insistência num único perfil de vítima cria uma exclusão simbólica. Quando um homem denuncia, muitas vezes enfrenta descrédito, comentários jocosos ou suspeitas sobre a sua masculinidade.

A ausência de campanhas neutras e inclusivas perpetua esta desigualdade. Nenhuma sociedade democrática pode admitir que a vergonha impeça a denúncia. O combate à violência doméstica exige empatia institucional e um olhar desarmado sobre o género. As estruturas de apoio e as forças policiais têm de estar preparadas para ouvir o homem que pede ajuda sem paternalismo nem desconfiança. O preconceito institucional é tão letal quanto a agressão física: mata a confiança e destrói a vontade de procurar proteção.

A vitimação masculina não é exceção nem curiosidade estatística, é uma realidade oculta. Ignorá-la é negar parte do fenómeno e, consequentemente, enfraquecer o combate global à violência doméstica. O Estado tem de promover formação para os profissionais de justiça e reforçar a comunicação pública sobre o tema. Falar abertamente é o primeiro passo para desarmar o tabu e devolver a dignidade a quem sofre em silêncio.

A vergonha não é prova de força, é o mecanismo que perpetua a impunidade. Enquanto o medo de ser ridicularizado continuar a calar as vítimas masculinas, a lei continuará a ser apenas uma promessa formal. É tempo de reconhecer que a violência doméstica, venha de quem vier, é um crime que atinge o núcleo da dignidade humana.