A “Má Companhia”, que se assume fundamentalmente como um espaço de reflexão, experimentação e criação artística e cultural, é uma das três menos jovens companhias de teatro profissional existentes em Vila Nova de Gaia, apesar da sua tenra idade e da juventude dos seus membros fundadores.

Sete anos e cinco produções depois da sua criação, impõe-se hoje ouvir o seu principal impulsionador, o ator, dramaturgo e encenador Joel Sines, formado na Academia Contemporânea do Espetáculo (Escola de Artes) e nos “palcos” de algumas das mais sólidas e respeitadas estruturas profissionais do norte do país.

A ele se seguirão os diretores artísticos das demais companhias profissionais residentes em Vila Nova de Gaia, um inestimável património que não pode continuar a ser negligenciado pelos organismos públicos com responsabilidades pelo desenvolvimento artístico e cultural do país e do concelho, para uma conversa essencialmente voltada para o presente, numa perspetiva de futuro, sem ignorar, porém, o caminho que os trouxe até ao “aqui e agora”. Para já, passamos a palavra a Joel Sines, timoneiro da “Má Companhia”.

Que razões presidiram à criação da “Má Companhia”?
A “Má Companhia” surgiu da necessidade e urgência que nós sentimos de explorar novos caminhos e futuros alternativos em campos como encenação, performance, trabalho coreográfico e metodologia de ensaio. O objetivo é, e sempre foi, o de produzir objetos críticos e avant-gard, onde intervenientes de diferentes backgrounds artísticos se possam sentir livres para criar e colaborar. Queríamos e queremos que este fosse um espaço (ou coletivo) intimamente interessado em encurtar distâncias que por vezes separam o teatro de outras epistemologias (do nosso interesse), tais como cinema, cultura online, sci-fi, cultura pop, artes visuais, política, filosofia, etc. No panorama governamental e cultural de 2012, as oportunidades de trabalho escasseavam e pairava no ar a ameaça de tempos mais difíceis. Iminente estava também a decisão fulcral de nos emanciparmos de uma ideia de empregabilidade com os dias contados, de forma a colocar a nossa experiência, competência e energia a favor de ideias nas quais muitos mais se pudessem sentir representados. Ideias onde outros, como eu e como tu, construíssem um corpo de trabalho específico, cirúrgico e próximo daquilo que identificamos como o presente. Nesse sentido, criar um grupo de teatro sem apoio estatal ou municipal, representou – para além da criação de um espaço (e direito) de privacidade e liberdade artística e intelectual – também um gesto de rebeldia e protesto para com uma autarquia que, como é do conhecimento público, pouco ou nada fez para estimular o tecido artístico e cultural da cidade.


Referes-te, claro, ao município do Porto, onde a “Má Companhia” decidiu iniciar a sua atividade. Imagino as dificuldades com que depararam…
Nunca será demais relembrar que, a par das políticas ultra conservadoras e castradoras da prévia administração da Câmara Municipal do Porto, Portugal encontrava-se subjugado por condições impostas pelo Fundo Monetário Internacional e pela rede política, corporativista e quase pós-estatal que provocou o colapso dos mercados financeiros na crise de 2008, levando de forma consequente e não linear à extinção do Ministério da Cultura em 2011. Mesmo perante essa utopia negativa o grupo produziu com sacrifício, seriedade e a colaboração vital de pessoas e instituições profissionais e não profissionais um corpo de trabalho que, em curto espaço de tempo, deu provas de uma identidade artística séria e pertinente; experimental, esteticamente alternativa e tematicamente eclética.


Perante tantas dificuldades, que balanço fazem destes primeiros sete anos de atividade da “Má Companhia”?
O balanço que fazemos até agora é provavelmente de sentimentos mistos. Se por um lado nos orgulhamos dos objetos que levamos a cena nestes sete anos, por outro sentimos que podia ser um corpo de trabalho muito mais regular e sustentado, que não precisa de hibernar durante meses e anos entre projetos. O facto de não sermos um grupo subsidiado ou com sede [sala de espetáculos] própria dificulta bastante a nossa ação. Mas não o suficiente para nos levar à extinção porque enquanto houver ideias e vontade certamente apareceremos com algo diferente.


Apesar de sediada em Gaia, a “Má Companhia” não apresentou até hoje nenhuma das suas produções em qualquer espaço cultural do concelho. A que se deve este facto?
A situação de Vila Nova de Gaia é e sempre foi quase um case study daquilo que não se consegue perceber no que ao desinvestimento autárquico diz respeito na área da cultura. Deixa-me tentar ser o mais leigo e curioso possível: não é incompreensível que o terceiro município mais populoso de Portugal e o mais populoso da região Norte com mais de 300.000 habitantes não possua um festival de teatro profissional? Pensemos na quase nula gestão do Auditório Municipal de Gaia. Será normal que o mais importante e capacitado auditório municipal não possua uma programação teatral há quase duas décadas? Quando digo programação refiro-me à existência válida de alternativas e à possibilidade de haver variedade. Acredito muito no direito de escolha, na existência de alternativas artísticas. Independentemente de gostos pessoais tem que haver opção. Não só, mas também para que o público de Gaia faça cada vez mais parte destas reflexões e decisões. Posso até especular que aquele auditório está no marasmo em que se encontra, também pela falta de espírito crítico de grande parte da população do Concelho, que não sente o equipamento como seu, portanto não se indigna com a pobreza de ideias que o tomou de assalto. É absolutamente ridículo o que (não) se passa em Gaia. A “Má Companhia” já poderia ter apresentado algum trabalho no concelho? Sim, se nos dispuséssemos a fazê-lo num bar, cooperativa ou mesmo numa garagem qualquer, para meia dúzia de espectadores. Mas andamos aqui há tempo suficiente para perceber que o trabalho e caminho percorridos devem ser respeitados e valorizados. A autarquia não pode demitir-se das suas responsabilidades para com as companhias que surgem no e do concelho. Não seria preciso fazer muito, bastaria reunirem-se com os grupos existentes e ouvir as suas necessidades e ideias. Já era um começo.


Enquanto isso não acontece, a “Má Companhia” prossegue naturalmente o seu caminho. Para quando a estreia de uma nova produção e onde?
A nossa próxima produção, que será um texto original, acontecerá no âmbito do festival de teatro José Guimarães. Fomos convidados para participar na segunda edição daquele festival, em Vila Nova de Gaia, e estrearemos no dia 1 de Novembro de 2019 na sala da Tuna Musical de Santa Marinha. Já agora deixo aqui um convite (muito antecipado) para que venham todos (e mais alguns) ver o nosso espetáculo e os outros que vão acontecer no festival. Venham conhecer o espaço que vale a pena. E esta é uma iniciativa que precisa de ser alavancada e acarinhada pela presença de público.


O que se pode neste momento desvendar sobre o espetáculo?
Será que podemos falar em estéticas de ansiedade e pânico? É possível especular sobre empoderamento, à luz de algumas das manifestações de insegurança e vulnerabilidade no mundo contemporâneo? A que estados de falsidade somos submetidos por imposições identitárias de uma sociedade em ritmo de capitalismo cognitivo acelerado? Como é que se ama e é amado pelo Outro num mundo que nos enclausura em expectativas de produtividade e felicidade mas que privatiza e exclui o stresse a depressão e o fracasso? A próxima criação da “Má Companhia” debruça-se sobre estas e outras questões através de uma análise à cultura pop e online na tentativa de amplificar, talvez, algumas poéticas de despersonificação que tomam conta dos nossos corpos, dos nossos discursos, dos nossos espíritos e das nossas relações e a forma como estas podem funcionar como ferramentas contra a erosão de empatia e coletividade que se instala um pouco por todas as vidas.


Após a estreia no festival de teatro José Guimarães, onde poderemos continuar a assistir ao espetáculo?
Ainda não sei na verdade. Após a estreia iniciaremos contactos a fim de rodar o espetáculo o máximo possível nos auditórios que nos quiserem receber. Quem sabe sair do Porto e de Gaia. Estamos abertos a todas as possibilidades. Essa é a vontade e necessidade.

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