No decorrer das nossas vidas sempre tivemos em consideração o bom exemplo e os conselhos dos nossos pais e avós, dos nossos amigos mais chegados, dos políticos honestos e zeladores do interesse geral, dos governantes aos quais confiadamente entregamos os nossos impostos para uma gestão criteriosa do exercício da cidadania e da promoção do trabalho com direitos, dos administradores e directores da banca onde depositamos as nossas economias para estarem mais seguras, na vida militar sempre ouvimos dizer que «na tropa a antiguidade é um posto».

Assim sendo, ficamos perplexos e mesmo indignados quando temos conhecimento de que alguns nossos compatriotas com sérias responsabilidades governativas e profissionais não quiseram seguir estes preceitos que, sendo antigos e condimentados com honestidade e lealdade, continuam, porém, com plena actualidade, pois sem eles a nossa vida colectiva seria um inferno.

Este arrazoado surge após conhecimento de uma notícia do Jornal Público que nos dá conta de que a Parvalorem, instituição do Estado que tem a seu cargo a gestão de três mil milhões de euros de activos tóxicos do antigo BPN, atribuiu em 2017 um total de cerca de meio milhão de euros de bónus aos trabalhadores com mais de 15 anos de serviço, entre os quais se encontram vários directores apontados em processos judiciais.

Estes dirigentes e o presidente, José Oliveira e Costa, estão envolvidos numa gestão danosa da qual resultou um buraco de cinco mil milhões de euros nas contas públicas e um processo judicial de sete anos só agora terminado com a condenação do presidente a 14 anos de prisão, da qual o seu advogado irá recorrer, talvez invocando inocência.

Apesar de premiar em 2017 metade do quadro de pessoal, a sociedade pública Parvalorem não repôs nesse ano a progressão de carreira por mérito a 68 trabalhadores do antigo BPN com os níveis salariais mais baixos, embora do total de 500 mil euros atribuídos, 250 mil terem ido para os bolsos de 10 quadros directivos, dos 20 que existem na empresa do Estado, tais como, Armando Pinto, que chegou a integrar o conselho de administração de Oliveira Costa e que é agora director dos assuntos jurídicos da Parvalorem, com um salário mensal de 12.600 euros e António José Duarte, antigo administrativo e assessor de Oliveira Costa, agora na equipa de Armando Pinto, auferindo um salário de 6.600 euros.

Acresce o facto de que, no relatório sobre o acompanhamento da execução orçamental da Administração Central em 2016, o Tribunal de Contas refere o BPN como causa de, só no ano passado, ter agravado as contas públicas em 420 milhões de euros.

Quanto ao BES, Ricardo Salgado assumiu perante o Tribunal Central de Instrução Criminal que foi ele quem ordenou as duas transferências de 18,5 milhões de euros para Zeinal Bava, considerado um dos melhores gestores do mundo, realizadas em 2010 e 2011 a partir de uma conta da Espírito Santo Enterprises, a empresa sem atividade e sem receitas próprias que é classificada pelas autoridades como o saco azul do Grupo Espírito Santo e os investigadores da Operação Marquês acreditam ter detectado o rasto de parte dos milhões de euros que Henrique Granadeiro, antigo presidente da Portugal Telecom, terá recebido em luvas do mesmo saco.

Salgado, considerado pelo seu padre confessor como uma boa alma, aufere actualmente reforma de muitos milhares de euros, ou seja, as boas almas possuem uma cracterística comum: notável agilidade para se locupletarem com o dinheiro dos outros.

Quantas vezes o comum dos trabalhadores, para ver o seu parco salário crescer um pouco, é obrigado a fazer greve, pois nem a Concertação Social está sensibilizada para exercer cabalmente esse direito constitucional por conivências várias.

O Santander comprou o Banco Popular pelo valor simbólico de um euro para evitar o resgate da instituição, afetada pela crescente falta de liquidez, e vai ampliar o capital em sete mil milhões para digerir a absorção do Popular, segundo informou a Comissão do Mercado de Valores Espanhola.

O anterior Governo de Passos Coelho despendeu 90 milhões de euros do erário público no Banco Efisa de que era accionista Miguel Relvas, antigo número dois do seu Governo e, se não estavam em causa os depósitos, haverá outra razão relacionada, talvez, com o facto de este banco ter licença bancária para operar em Portugal, Angola, Moçambique e Brasil.

O Primeiro Ministro proclama que não se pode fazer tudo ao mesmo tempo e o Ministro das Finanças afirma que não há dinheiro para melhorar o necessário ao ser humano como a Saúde, Educação, Segurança Social, Justiça, Transportes, Habitação, ou seja, há reconhecimento das dificuldades nessas áreas, mas o dinheiro só se dirige para a banca, para as PPPs, para os paraísos fiscais, para as reformas multi milionárias, como prioridades injustas, causadoras de forte indignação e protesto dos portugueses.