Talvez à míngua de temática informativa e formativa, a Comunicação Social na posse dos grandes interesses económicos, leia-se grande capital, também aproveitou o surto epidémico para atacar os direitos dos seus trabalhadores, degradar as suas condições de trabalho e agravar a sua exploração, utilizando algumas ferramentas oportunistas, tais como,  despedimentos, lay-off e arbitrariedades como a imposição do teletrabalho, tudo para acelerar uma reestruturação do sector já em marcha e a sua progressiva concentração.

Naturalmente que esta estratégia, ou seja, degradação da situação dos trabalhadores e concentração, terá um enorme efeito negativo na qualidade da informação que nos vai chegar, nomeadamente no tratamento da actividade política onde se calarão as vozes mais críticas e criteriosas, aliás, como vem acontecendo actualmente.

No entanto, a estratégia constitui simultaneamente uma forma astuciosa usada pelos grupos económicos e mediáticos para receberem milhões do Estado, como foi a oferta de 11 milhões de euros aos grandes media, mas também uma falsidade comprovada pelo crescimento dos lucros destes grupos em 2019 e pelas operações financeiras que vão tendo lugar, como o processo de aquisição da Media Capital-TVI ou a alienação do património da Global Media, operações estas com o beneplácito do Presidente da República, do Governo e de um ou outro partido condoído com as dificuldades dum sector que se auto proclama em crise, mas a crise é real, sim, para a imprensa regional, as rádios locais e seus trabalhadores, mas não o é para os grupos económico-mediáticos.

Dirão alguns que a vida continua e neste intervalo de tempo torna-se necessário entreter o «povão», desculpem-me o uso do brasileirismo, com alguns casos de encher o papo ou esbugalhar os olhos de profunda surpresa e quem sabe até de infinita admiração.

Vem este arrazoado a propósito e apenas como exemplo de duas «extraordinárias» notícias transmitidas até à exaustão pelas televisões de serviço, uma respeitante ao mundo do futebol e outra ao dos «faits divers» na especialidade televisiva e seus bastidores.

E foi assim que soubemos que Jorge Jesus, após uma feliz e proveitosa estada por terras de Santa Cruz, se transferiu com armas e bagagens para um importante clube do burgo lusitano a troco é certo de alguns milhões de euros, mas em que não terá sido indiferente aquela bem portuguesa e conhecida saudade do torrão natal tão cantada no nosso fado.

Outra transferência que fez correr rios de tinta e certamente nos proporcionou via televisão momentos de grande fulgor e contentamento foi a de Cristina Ferreira, estrela de um certo tipo de programas televisivos, portanto a jogar em casa, figura bem conhecida pelo seu carácter bem expressivo e exuberante, com a particularidade de até já ter sido  felicitada pelo Presidente da República na altura de uma transferência anterior, pois isto de transferências não é para toda a gente, especialmente quando envolvem grandes valores monetários, assim contradizendo a tão propalada crise do sector da comunicação social.

Em resumo, são enumeráveis os efeitos do controlo dos media dominantes pelo grande capital e as multinacionais, nomeadamente a substituição da objectividade pela informação espectáculo e o sensacionalismo, a manipulação política e ideológica da informação e mesmo do entretenimento, a ruptura com o jornalismo mistificando a notícia, as fontes, a contextualização, o contraditório e o pluralismo e impondo os «enlatados» e os fabricantes de opinião, a limitação gritante dos conselhos de redacção e da participação dos jornalistas na orientação editorial dos media, a repressão e condicionamento da acção colectiva, mistificando a «independência» dos jornalistas com o anti sindicalismo, para impedir a defesa de direitos.

Neste quadro persiste o ataque ao sector e ao serviço público de Comunicação Social, com a iniciativa e cumplicidade dos sucessivos governos, o desinvestimento, a má gestão e a cópia do que de mais negativo se faz nos media privados, incluindo a alienação de propriedade para negócios especulativos, a linha editorial também ela comprometida com os interesses do grande capital, em vez do pluralismo e da objectividade, tornando evidente o objectivo do grande capital de menorizar, destruir e privatizar a LUSA e a RTP ao mesmo tempo que continua com o ataque à comunicação social local e regional e à sua independência, visando a sua limitação, colonização e controlo pelos grupos económico-mediáticos.

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