Com o acontecimento das rusgas ao Senhor da Pedra e a celebração do Senhor dos Aflitos, o AUDIÊNCIA entrevistou Alcino Lopes sobre estes eventos que ocorreram na freguesia e, ainda, sobre a relação com a Câmara e a desagregação das freguesias.

As rusgas ao Senhor da Pedra aconteceram no dia 16 de junho, qual a importância deste evento para Gulpilhares e para o município?

As rusgas são importantes para nós, porque penso que qualquer comunidade que não faça tudo para preservar o passado, não está a cumprir os seus deveres. Eu ainda me recordo quando o Senhor da Pedra estava em terreno quase virgem com pinheiros e as pessoas traziam os seus farnéis. O Senhor da Pedra era uma referência do Norte. Claro que vai se perdendo alguma coisa. Nós, hoje, verificamos que em todas as festividades ou quase todas vai havendo uma diminuição de pessoas que vão à festa. Os mais velhos vão morrendo e as tradições vão-se colocando em equação. Os mais novos não estão muito vocacionados para andar nas romarias. Isso é um facto que nós temos que ter sempre presente. Quem está nas autarquias e quem tem responsabilidade também nas festividades, neste caso, a Confraria, têm que encontrar alternativas para chamar lá gente jovem. Não é fácil. Portanto, as festas podem estar, daqui a uma década ou duas, em risco, nestas zonas urbanas. Às vezes, costumo dizer, não no sentido negativo, que as comunidades têm todas uma realidade diferente. Nós temos uma realidade completamente diferente de Canelas. E dizer, mas porquê? Nós aqui sofremos muito com o facto de termos muita gente de fora que está aqui na nossa comunidade à beira mar. O mar é um elemento oxidante para a sociedade, porque as pessoas que estão ali não têm relação com a nossa terra. Cada vez há mais gente aqui de fora. O Senhor da Pedra ainda vai conseguindo trazer pessoas que mantêm a tradição. Enquanto isso acontecer temos que nos dar por felizes. Mas, acho que está na hora de pensarmos em atrair gente mais nova. Como nós sabemos, mas depois as pessoas não vêm pelo Senhor da Pedra, vêm por outras razões e mais os custos associados. Este ano, eu não estive na festividade, mas soube que correu bem e esteve muita gente. O mérito está conseguido. Quem faz o mérito são as pessoas, não somos nós. Ainda há dias, dizia-me um familiar “tu com o Senhor da Pedra tens muito trabalho”, e eu disse “não. Aquilo é espontâneo. As pessoas vêm se quiserem se não quiserem não vêm”. Acho que a Confraria fez bem em dar um novo ar à festa e viu-se que deu algum movimento. Se eles tiverem as condições financeiras, devem continuar a apostar porque é garantia de que a festa pode ter mais uns anos de afirmação. As rusgas, para nós, são, de facto, um dos momentos importantes na nossa terra. Embora, se formos a ver, a nossa comunidade não é muito participativa no Senhor da Pedra. Gostam da festa mas não participam. É uma das coisas que sempre me intrigou. Uma comunidade com tantos habitantes, às vezes, a procissão não tem quase ninguém. Mas, existe o problema da mobilidade. Aqueles que se calhar têm mais vontade de ir, não têm automóvel e estão dependentes de alguém para que isso aconteça.

Com a participação de dois grupos de fora do concelho de Gaia, as rusgas são uma forma de elevar o nome da freguesia e do município?

Sim, claro que sim! Mas, temos o problema de se fazerem muitas festas ao mesmo tempo. O Senhor da Pedra fica defraudado por causa do Senhor de Matosinhos. Por exemplo, quando coincide as festas do São Pedro na Afurada com o Senhor dos Aflitos de Valadares, prejudica sempre Valadares.

Falando no Senhor dos Aflitos, o que se pode esperar este ano?

É sempre uma incógnita. Este ano tem a vantagem de não colidir com o São Pedro da Afurada. Como tal, se calhar, vai ter mais gente. Valadares tem uma organização muito ativa ligada à Igreja no Senhor dos Aflitos. Mas lá está, também estão sempre dependentes do que os rodeia. Estão sempre sujeitos a ter uma boa festa em termos de adesão ou mais ou menos. O ano passado acho que coincidiu e, por isso, achei que estivesse menos gente do que habitual. Mas, pronto, as pessoas continuam a trabalhar para que as coisas aconteçam e bem e são as tradições.

Sendo as tradições uma parte da história da freguesia, o é que a Junta faz para continuar a manter vivas as tradições?

O Senhor da Pedra não é muito nosso. A Confraria é a identidade que promove a festividade. A única coisa que temos lá, digamos assim, é a parte das rusgas, mas também não é um peso muito grande, como disse, elas aparecem espontaneamente. Um dos problemas que temos ali no Senhor da Pedra é a organização das vendas. Aquilo é um caos e, cada vez, está pior. Acho que a polícia hoje não quer saber de nada. Não é o presidente da Junta nem um membro do executivo que vai armar-se em polícia. Muitos aparecem em cima da hora. Nós mandamos sair e, passado algum tempo, já lá estão outra vez. Aquilo é um espaço muito grande. Nós tapamos de um lado e depois aparecem por outro. Houve uma altura que quisemos entregar à Confraria, mas eles não quiseram. Não têm gente. A Junta não tem interesse em ter a parte da venda. Não tenho pessoal para verificar se as pessoas pagaram ou não. Tem ali alguns problemas, mas não há nada a fazer, a não ser que haja uma solução radical.

A presença de jovens nas rusgas foi maior este ano. Os jovens da freguesia fazem parte do plano da Junta?

Cada freguesia tem os seus planos de intervenção. Nós escolhemos uma área de intervenção, de alguns anos a esta parte, que é ajudar toda a nossa comunidade, desde os Jardins de Infância até ao final do 1º ciclo. Não há nenhuma freguesia em Gaia que faça o que nós fazemos pelas escolas. Nenhuma! Nem coisa que se aproxime. Nós temos um investimento maluco com as nossas crianças. Não há nenhuma freguesia que ponha autocarros de graça ao serviço das escolas. Não há nenhuma freguesia que gaste por ano trinta e tal mil euros a dar prémios aos alunos do Quadro de Honra e de Excelência. São trinta e tal mil euros! E, este ano, vai ser ainda mais. As escolas não pagam portagens, gasóleo nem o motorista. Nada! E, desde janeiro até agora é sempre a bombar. São opções. Se calhar, há freguesias que arranjam um grupo de jovens e dão-lhes uns troquitos para eles fazer umas coisas. É uma opção. A nossa opção não é aí. Começa no pré-primário e acaba no 12º. Sendo que do 5º ao 12º é uma intervenção muito isolada, mas é muito pesada para nós. Não é muito fácil. Se mantivermos esta tradição das escolas, não há espaço para os jovens. Nesta altura do ano, já estou a pensar onde vou arranjar dinheiro para tudo. O dinheiro não é elástico. Hoje, trabalhar com jovens também não é fácil e é necessário ter muita disponibilidade.

Com a chegada da época balnear, Gulpilhares é das freguesias de Gaia com mais bandeiras azuis. O que representa este reconhecimento?

Eu costumo dizer que as bandeiras azuis não têm nada relacionado com as freguesias. Têm, fundamentalmente, o contributo do civismo das pessoas. Tudo o que se despeja nos rios vai para a praia e não é o presidente da Junta, nem o presidente da Câmara que está a filtrar a água. Isto está relacionado com a evolução que houve das redes de água residuais. Isso é fundamental. Embora, ainda há muita porcaria a lançar-se para os rios. Também tem o contributo do civismo dos industriais, que alguns pela calada da noite atiram com porcarias graves para as linhas de água. As Juntas ficam contentes, mas o mérito não é nosso. O nosso contributo é como meros cidadãos. Não faço nada, nada para criar embaraços para a linha de água. E, ainda, a ajuda das estações de bombagem que facilitam a limpeza das águas. 

Fazendo um balanço do seu mandato até agora, como está a correr a parceria entre a Freguesia e a Câmara?

A relação é calma e tranquila. O nosso dever tal qual o do presidente da Câmara é fazer o mais possível pressionando, eventualmente, os governantes. Nós gostaríamos de ter mais e mais. Um indivíduo que se acomode nesta vida não está aqui a fazer nada. Eu sei que a Câmara passou aquele período da dificuldade financeira, no qual que se estabilizou, e agora parece que tem condições para fazer mais alguma coisa. A minha necessidade é que o município invista mais em Gulpilhares e Valadares. Não pode ser de outra maneira. Tal como faz no concelho, tem que ter em consideração as freguesias para haver uma equidade no investimento para que cresçam todas simultaneamente. Há aqui muita coisa a fazer a nível das vias. Há vias que estão num estado degradante. É a parte que até mais me preocupa.

O que leva a que não exista essa equidade?

A equidade, em si, nunca existe. Seja com estes ou seja com outros. Há uns que beneficiam mais e outros menos. Há freguesias que têm carências numas coisas e outras noutra. No caso de Gulpilhares, temos uma boa referência desta Câmara, que se comprometeu a renovar o interior do auditório. Já é uma mais-valia, porque nós não temos condições financeiramente para o fazer. Já ficamos contentes. Também investiu muito no Orfeão de Valadares que foi restaurado e ampliado. Sei que também tem o propósito de nos ajudar na solução do problema da Junta de Valadares, na parte antiga, pois está uma miséria. Agora, aquilo que nos exige, mais da comunidade, são os pavimentos e há muitas ruas em mau estado. E isso é a grande preocupação. As pessoas estão sempre em cima de nós a protestar, como se fossemos nós, os responsáveis por colocar tapete no pavimento. Não temos condições financeiras para isso. A estrada Porto/Espinho tem troços que são uma vergonha. Eu sei que a Câmara tem o propósito de a arranjar, mas as pessoas querem que seja mesmo hoje ou daqui a um dia. Eu digo sempre que a Câmara não tem obrigação de dar nada às Juntas. Pela lei não tem. A Câmara, digamos, é responsável por todo o espaço público e se não nos quiser dar nada, não nos dá nada e não nos podemos queixar. É sempre difícil fazer uma distribuição equitativa do dinheiro disponível. Nunca foi possível e julgo que nunca será realizável.

E esses serão os maiores desafios para o resto do mandato?

Os desafios estão inventariados. A Junta também tem que intervir na cobertura do auditório, dado que não está no projeto da Câmara. As sedes também estão a precisar de uma intervenção nas coberturas. Há sempre muitas coisas. Também, se calhar, vamos intervir, a nível financeiro, na sede de Valadares. Temos o propósito de acabar com o problema dos pavimentos no Cemitério de Valadares, no qual já falta pouco para termos os passeios todos prontos.

Falando em investimentos, este ano houve a requalificação do estádio de Gulpilhares…

A Câmara ficou de contribuir para este investimento. Está lá muito dinheiro e espero que quando o presidente lá for nos ajude a resolver o problema. É um investimento muito grande para uma freguesia. Nós não estamos parados. O dinheiro é que é curto. Aqui é uma casa que só faz se tiver dinheiro. Se não houver, não faz. Até ao final do ano, ainda tenho muita despesa. Temo passeio da terceira idade, o Quadro de Excelência, e acabar de pagar o estádio… Isto não é uma vida fácil.

Com a aprovação da desagregação das freguesias, há previsão de uma separação entre Gulpilhares e Valadares?

Deus queira! Eu fui sempre contra assumidamente, desde a primeira hora. Houve colegas que umas vezes eram e outras vezes não eram. Eu fui sempre contra. Sempre admiti que a governação não é fácil, porque é um território com muita gente. Temos quase 20 mil eleitores, mais os jovens até aos 18 anos e as crianças, que também são fregueses. Eu sou favor da separação e espero que aconteça. Com a descentralização, vai acontecer um fenómeno que até hoje não existe, é que as Junta vão ter mesmo que fazer o que está no acordo. Isso vai-nos obrigar a meter pessoal. Vai-nos obrigar a ter gente intermédia, no meu entender. Faz sentido eu não ter ninguém entre o presidente e o indivíduo, que faz o enterramento ou que faz a limpeza das ruas? A estrutura não tem ninguém. Eu precisava de ter um quadro intermédio para dar ordens e ele fazer. Mas isso tem custos. Portanto, quando houver a descentralização, que quando acontecer vai ser em cima do joelho, vai haver um conflito. Se não nos derem dinheiro e capacidade de contratar pessoal para ter as tarefas em dia, vai ser um caos, digo eu. Não acredito na governação. Acho que fazem tudo em cima do joelho. Tenho receio que as coisas não corram bem.

Então, esperam-se complicações num futuro próximo…

Até ao momento, não há nenhum estudo aprofundado sobre isto. Isto era para ter entrado agora em julho e nós tivemos que dizer que não aceitávamos. Não há nenhum trabalho feito sobre os custos e o que vai implicar a mudança. Não há nada… Eles decretaram e depois salve-se quem puder. Os emails, que têm alguma responsabilidade, sou eu que os escrevo todos. Pelo menos, sei o que se passou e sei o que respondi e, caso tiver alguém a chamar-me a atenção, eu estou salvaguardado porque sei o que se passou. Eu podia mandar alguém fazer… Era mais fácil. Mas eu não sou assim. Eu não estou nada animado. Isto não vai ser nem este ano nem no próximo. Vai ser em 2021. Já decidimos. Mas vamos chegar a essa data e não temos nada preparado.

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