Há anos atrás, a viragem política à esquerda na América Latina, não apenas em Cuba, Bolívia e Venezuela mas também no Brasil, Argentina, Equador e vários outros países aplicando políticas redistributivas em favor das populações mais necessitadas, constituiu uma fonte de inspiração para forças progressistas de todo o mundo.

Hoje, porém, alguns desses regimes foram derrubados, não porque os seus programas e políticas tivessem perdido apoio popular, mas devido à sofisticada onda de receitas elaboradas nos laboratórios capitalistas e militaristas dos Estados Unidos, Pentágono, CIA, NED, cujos ingredientes principais foram e são golpes de estado caracterizados pelo princípio activo da ingerência, a que se adicionou o boicote económico através de sanções e de seguida o caos social, para finalmente tudo ser devidamente condimentado com a chamada ajuda humanitária, ou seja, estamos perante novos caminhos de saque de recursos naturais, específicos da era do neoliberalismo.

A situação da Venezuela nos dias de hoje resulta essencialmente das dificuldades económicas agravadas pelas sanções impostas pelos EUA, as quais impedem a importação de produtos essenciais como medicamentos para salvar vidas, mas também devido ao congelamento dos activos possuídos pelo Estado venezuelano um pouco por todo o mundo e ainda através do anúncio de que todas as receitas das exportações de petróleo venezuelano para os EUA não serão entregues ao regime democraticamente eleito e constitucionalmente legítimo do presidente Nicolas Maduro, mas sim a Juan Guaidó, auto proclamado presidente, o que na prática equivale a roubar o dinheiro da Venezuela para encenar um golpe na própria Venezuela, um fenómeno que recorda a era colonial quando os povos eram saqueados para financiar conquistas coloniais.

Nesta conformidade, o Governo do Presidente venezuelano está a retirar toneladas de ouro dos cofres do Banco Central do seu País, numa tentativa de obter dinheiro vivo e conseguir contornar as sanções impostas pelos EUA e outros países.

A notícia surge cerca de um mês depois de a agência Bloomberg ter noticiado que o regime venezuelano tentou repatriar cerca de 31 toneladas de ouro, no valor de mais de mil milhões de euros que tem no Banco de Inglaterra e o pedido acabar por ser negado, depois de vários representantes norte-americanos terem contactado os responsáveis britânicos e pedido ajuda na tentativa de isolar economicamente o regime de Maduro, como forma de pressão política.

Desde que Juan Guaidó se auto proclamou Presidente interino do país, os Estados Unidos têm tentado pressionar banqueiros e operadores a não fazerem negócios que envolvam ouro venezuelano.

Está bem à vista de todos que tal roubo e sanções agravam a situação social e económica do País, empobrecendo o povo da Venezuela e a culpa é então atribuída ao governo Maduro com a finalidade de voltar o povo contra ele.

Esta golpada carece, no entanto, de forte apoio internacional e nessa conformidade a União Europeia foi solicitada por Trump a reconhecer o pretenso governo de Juan Guaidó como legítimo da Venezuela, o que acabou por acontecer, aliás, a exemplo de outras situações vividas no Ageganistão, Iraque, Líbia, Iémen, Sudão Somália, Síria, aventuras militaristas e belicistas que já teriam ido mais longe não fora a intervenção da Rússia, China, Irão, África do Sul e outros países que não se revêm nestas práticas políticas geoestratégicas e tentativas de hegemonia mundial.

O caso da Venezuela mostra o importante papel que os media estão agora a desempenhar para persuadir os povos e levá-los a aceitar que uma acção imperialista contra um governo legítimo do terceiro mundo constitui uma defesa da democracia e assim jornais como o The New York Times têm estado a impulsionar fortemente esta linha de conduta.

Em suma, temos agora uma nova ordem mundial, em que igualar interesses corporativos com democracia está a tornar-se um princípio aceite.

O povo venezuelano na sua maioria até agora tem permanecido firme contra o golpe patrocinado pelos EUA, mas por causa desta firme atitude as autoridades estado unidenses estão agora a ameaçá-lo com intervenção armada e se ela acontecer, então será mais uma acção contra um país soberano, desta vez não com o argumento de que apresenta uma ameaça à segurança dos EUA , mas simplesmente com o argumento de que ousou afastar-se de um regime de neoliberalismo activo ao qual todos devem obediência cega.

Rússia e China vetaram na ONU na quinta-feira passada uma proposta de resolução dos Estados Unidos que pedia a realização de eleições gerais na Venezuela, País sul-americano que reelegeu no ano passado para a Presidência da República Nicolás Maduro, com 67% dos votos, eleições constitucionais legítimas onde estiveram mais de 150 observadores internacionais, mas em que a vitória chavista não é reconhecida pela oposição, que tenta desde o início do ano, por meio de um golpe de Estado, apoiado pelos Estados Unidos, impedir que Maduro cumpra o seu novo mandato.

Entretanto a Venezuela fechará o gabinete europeu em Lisboa da empresa Petróleos de Venezuela S.A. e irá transferi-lo para Moscovo, como retaliação do intervencionismo arrogante de Portugal a reboque da União Europeia e ao lado da oposição venezuelana em todo este ilegal e intrincado caso de contornos internacionais.

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