Assinalam-se por este mês de Maio os 75 anos da Vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, não somente pelo que a data representa como marca distintiva da eliminação duma ideologia, mas também do seu projecto de sociedade hediondo, opressivo, de exploração e tentativa de domínio mundial.

Diz-nos a História, a qual não devemos permitir que seja reescrita, que 60 milhões de pessoas tenham morrido na Europa, Ásia Oriental e Pacífico e que dos 26 países envolvidos no conflito, a União Soviética sofreu as maiores perdas, com mais de 26 milhões de mortos.

O mito de que os nazis se organizaram na base de uma revolta da classe trabalhadora é desmentido pelos laços estreitos da liderança nazi com os principais industriais na Alemanha, nos Estados Unidos e mesmo com elementos da realeza britânica.

A perspectiva norte americana de que a ideologia impulsiona a história foi desenvolvida após a Segunda Guerra Mundial para explicar a ascensão do fascismo europeu, sem no entanto abordar o papel do capitalismo na criação da Grande Depressão.

O caso mais conhecido nos EUA foi o chamado Golpe dos Negócios de 1933, liderado por financeiros de Wall Street e novamente o pano de fundo foi a Grande Depressão e esses financeiros tentaram reverter as reformas do New Deal, alegando que colidiam com a sua liberdade, porém, a conspiração foi denunciada pelo autoproclamado «gangster a favor do capitalismo», general Smedley Butler, que os golpistas tinham tentado aliciar.

A noção de ideologia como propulsora da história, neste caso o fascismo europeu, foi desenvolvida por membros da Sociedade Mont Pelerin, em que o neoliberalismo nos é apresentado como capitalismo pragmático.

O membro fundador e antigo filósofo Karl Popper emoldurou com uma aura de esquerda a economia da direita radical que ficou conhecida como a Escola de Chicago, ignorando ou deturpando os estudos e os trabalhos de Marx e Heidegger, para criar uma visão estado-unidense,  porém o problema é que ele partiu de premissas não documentadas, ou seja, o que é pragmático para os ricos, como por exemplo reduzir salários,  pode ser o oposto para os trabalhadores.

A filosofia de Karl Popper salvou a visão tecnocrática americana, como um método divorciado da ideologia, pois ela teve a sua concretização depois da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA levaram dezenas de cientistas nazis para o País para trabalharem na indústria americana, no que foi chamado na altura de «Operação Paperclip».

Uma pergunta que os americanos provavelmente poderiam fazer a si próprios, mas quase certamente não fazem, é se reconheceriam um governo fascista se fossem seus beneficiários? Obviamente, existem beneficiários dum governo fascista, mas e se esses americanos vivessem em belas casas e tivessem todos os bens de consumo necessários e os ricos oligarcas e executivos de empresas assumissem de facto o controle do Estado? Há uma geração atrás, a crucial pergunta dos alemães era quantos deles sabiam das atrocidades nazis? Foi no pico da Grande Depressão que Adolf Hitler subiu ao poder e as circunstâncias da sua ascensão aliadas à colocação de um grande número de desempregados a trabalhar produziram realidades diferentes para os alemães comuns e para os milhões de vítimas dos nazis.

Não se trata aqui de discutir a equivalência moral, política ou histórica entre os EUA e os nazis, pois existem pontos de interseção e divergência, mas a questão é se podem existir vivências radicalmente diferentes na chamada democracia liberal. Como pode uma nação dita livre ter a maior população prisional absoluta e relativa da história mundial? E ainda se a classe liberal está disposta a viver paredes meias com uma população com cada vez mais dificuldades e se o seu papel como agente dos ricos a torna moral e politicamente culpada por essas condições sem o benefício de ser rica. Isto proporciona uma base material à sua preferência por explicações ideológicas efémeras, como a da ascensão do fascismo europeu. Se a culpa pode ser atribuída a um líder errático e não a crises em série do capitalismo, mudar de líder significaria que o capitalismo se pode manter incólume, o que não bate certo.

A solução neoliberal para a ameaça fascista foi e continua a ser o capitalismo pragmático, embora qualquer pessoa, mesmo com uma compreensão de esquerda do capitalismo, sabe que não existe essa solução, pois o que é pragmático para uma classe não é para outra, por exemplo, os resgates de 2009 repercutiram-se sobre os trabalhadores com a austeridade e sobre as poupanças dos aforradores bancários com execuções de hipotecas, tornando a austeridade nada atraente para os que estão preocupados com o fascismo ascendente e além do mais não esqueçamos que foi a austeridade a preparar o terreno para Donald Trump, ele não criou as condições que levaram à sua ascensão política, mas os liberais sim.

Com este arrazoado, pretende-se simplesmente lançar algumas pistas para uma compreensão das condições objectivas que estão a permitir o novo ascenso das ideias populistas e de extrema direita por toda a Europa, incluindo o nosso País, em cujo Parlamento elas já se manifestam.

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