Para assinalar os 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial mais de 60 chefes de Estado, incluindo o Presidente da República Portuguesa, participaram em Paris no chamado Dia do Armistício, o qual colocou um ponto final numa das grandes e cruéis chacinas militares mundiais, que só em soldados ceifou a vida a cerca de 10 milhões.

Um pouco por toda a Europa sucederam-se as paradas militares comemorativas e Portugal não foi excepção, pois assistiu ao maior desfile militar de sempre, envolvendo os três ramos das forças armadas e também as forças de segurança.

Para além de acções heróicas praticadas por muitos militares, em que se destacou o nosso soldado «Milhões», as sociedades europeias comemoraram na altura o armistício de 1918 com pompa e circunstância, mas esconderam a verdadeira faceta da guerra: a brutal carnificina em que o capitalismo mergulhou a Europa, com dezenas de milhões de vítimas civis e de militares enterrados vivos nas trincheiras, a gasearem-se uns aos outros, a matarem-se uns aos outros, para se decidir quem iria explorar um conjunto de colónias e de mercados, se os imperialistas alemães ou os imperialistas ingleses e franceses.

Nessa época, cerca de setenta países entraram em conflito, entre os quais seis potências coloniais e imperiais: Alemanha, França, Grã-Bretanha, Império Austro-Húngaro, Império Otomano e Rússia, a que se juntariam Portugal, Itália e Estados Unidos, mas no fim da guerra o mapa da Europa central foi redesenhado com vários novos países menores, sendo formada a Liga das Nações, organização precursora das Nações Unidas, na esperança de evitar outro conflito global, objectivo esse não alcançado e pelo contrário exacerbou-se o nacionalismo nos vários países, a depressão econômica surgiu implacável, assim como os problemas com o Tratado de Versalhes, factores a contribuírem para o início da Segunda Guerra Mundial.

Na opinião do professor catedrático de História na Academia Militar, António José Telo, que trabalha numa investigação ligada à evocação dos 100 anos da 1ª Guerra Mundia, a participação de Portugal resultou de «um projeto político radical» contestado pelo Exército e pela sociedade, criticando a visão histórica «cor-de-rosa» e «falsa» que subsiste sobre este período conturbado.

Aceite-se ou não como verdade histórica esta opinião, o certo é que parece existir uma crescente e inquetante nostalgia da guerra por parte dos produtores da indústria da morte, cuja lógica de mercado mantem acesos os conflitos que se travam e até cria alguns outros «por precaução», assim seguindo as determinações do imperialismo à solta com as suas ferramentas bem preparadas, tais como, Lockheed, Boeing, BEA Systems, Raytheon, Northrop com a cobertura do Pentágono, da NATO e dos governos militarmente aliados, ou seja, o negócio de uns é a desgraça de muitos, pois a guerra, o capitalismo, o neoliberalismo e o fascismo andarão sempre de mãos dadas.

É sintomático observar que nenhum País europeu tenha sido capaz de assinalar o armistício com um acto cívico de reflectir sobre a decisão de condenar milhões de cidadãos a uma morte certa sem saberem ao certo porquê e para quê, sendo certo que desta forma foram martirizados jovens de vários continentes, para ajuste de contas entre imperadores capitalistas com visões distintas de dominação e de acesso aos lucros, aos recursos naturais e às posições geoestratégicas.

Nos dias de hoje e cem anos depois, celebra-se o armistício na base de exibições de poderio bélico, como quem passa a mensagem de estarmos prontos para outra, tudo bem alicerçado com o discurso oficial de serviço à Pátria, como se os militares portugueses na República Centro Africana, no Iemen, no Iraque ou no Afeganistão, por exemplo, estejam a prestar serviço à Pátria e a cumprir a nossa Constituição ou que serviço à pátria prestaram os militares portugueses que foram envolvidos, sob comando norte-americano, nas colossais manobras de guerra recentemente realizadas na Noruega e outros espaços nórdicos, mas sempre com as miras apontadas à Rússia e à China.

A Revolução Soviética apontou um caminho para a humanidade, caminho esse que ainda será possível e necessário trilhar pela Paz, num concerto das nações que respeite em igualdade as suas várias identidades e soberanias.

Estas interrogações não são infelizmente habituais entre o cidadão comum, talvez porque não lhe seja proporcionado o devido espaço para reflexão e pelo contrário não falta entretenimento com as «heróicas» façanhas dos nossos aliados chacinando afegãos, iraquianos, líbios, iemenitas e sírios, em nome da implantação à bomba da democracia e da liberdade, invadindo, matando, saqueando e destruindo, sem hesitações em recorrer a armas proibidas, provocando uma imparável onda de refugiados para os quais até já começam a erguer barreiras impeditivas do obrigatório acolhimento.

Ontem como hoje, a pedra de toque é a exploração e a acumulação capitalista, servindo os interesses de uns poucos em detrimento da esmagadora maioria, com governos atentos, veneradores e obrigados ao grande capital, governos permissivos aos populismos desenfreados e formados por políticos irresponsáveis, levianos, corruptos e a soldo.

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