No período subsequente ao fim da II Guerra Mundial e nos acordos de Potsdam foram ajustados vários pontos entre os aliados, destacando-se no plano político e ideológico a então designada desnazificação termo utilizado para identificar a eliminação da influência cultural nazi, claramente recriminada após a condenação dos seus maiores reprentantes.

No entanto, a História vai-nos dando conta de que a medida atrás referida tem vindo a ser lamentavelmente esquecida durante anos por governos ditos democráticos, mas curiosamente permissivos quanto à reaparição e recrudescimento dessas mesmas ideias com os resultados de todos nós bem conhecidos.

O nosso rincão natal não representa infelizmente excepção, mas tem havido o necessário discernimento para repudiar tais derivas políticas, tanto pela população como pelos partidos sempre defensores a sério da democracia e liberdade pelas quais lutaram, lutam e continuarão a lutar, quer antes quer depois de Abril.

Fomos, porém, surpreendidos há dias por um programa televisivo em que foi entrevistado um conhecido nacionalista e ex-líder da Frente Nacional que esteve preso dez anos por assassínio racista, por crimes como discriminação racial, coação agravada, posse ilegal de arma, danos e ofensas à integridade física de terceiros.

Mais preocupante se torna esta situação ao sabermos como tudo ocorreu a partir do convite do apresentador da TVI Manuel Luís Goucha ao referido «cavalheiro» para este estar presente no programa Você na TV e ser entrevistado por Bruno Caetano na rubrica Diga de sua justiça, em que a pergunta «será desejável um novo Salazar?» ocupou lugar destacado, cena esta seguida depois das desculpas mais estapafúrdias proferidas, quer pelo apresentador, quer pelo director de informação da TVI Sérgio Figueiredo, este chegando a afirmar que «a informação da TVI defende a democracia acima de tudo, fazendo um jornalismo independente e forte».

A presença de um nazi na programação televisiva com a deliberada promoção de uma iniciativa de apoio a Salazar, leia-se ao fascismo, é a todos os títulos antidemocrática, desprezível e falha de independência, não surpreendendo a crítica pública justa e necessária ao programa, importando porém avaliar se estamos perante um caso isolado ou se estamos na presença de uma dinâmica mais geral que possa envolver os principais órgãos de comunicação social, onde o branqueamento e a promoção das ideias fascizantes e reaccionárias esteja a fazer caminho.

Exemplos até não faltam, pois ainda recentemente observamos e continuamos a observar uma especial e estranha cobertura mediática à iniciativa dos chamados coletes amarelos com relevância pelos distúrbios causados, os apelos a sentimentos racistas e xenófobos surgem muitas vezes sem qualquer disfarce e alarga-se o número de comentadores e analistas encartados cujo papel é o da promoção dessas ideias e valores, pois as práticas fascistas não surgem por aí de farda e suástica visível, até muitas vezes se autoproclamam de muito democráticas e assim avançam sem suscitar alarmes ou celeumas, ou seja,no fundo procuram, por via de uma violenta ofensiva ideológica, também no plano internacional, dar suporte à promoção do populismo e de objectivos antidemocráticos que visam subverter o regime democrático e dar novos passos no processo contra-revolucionário que têm por inacabado e, quem diria, todo este panorama nos persegue após termos vivido intensamente a Revolução do 25 de Abril e possuirmos uma Constituição que abomina todas estas práticas.

O Sindicato dos Jornalistas refere em nota que «no atual contexto europeu é fundamental que o jornalismo se exerça em defesa da democracia, sem a qual a liberdade de expressão não existiria. esse mesmo contexto, de crescimento da extrema-direita, do populismo e do nacionalismo, impõe que os jornalistas, a título individual, mas também os órgãos de informação, suas direcções e administrações, reflitam sobre o papel que desempenham na eliminação do racismo, da xenofobia e da discriminação e sobretudo ajam em conformidade».

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