Os últimos acontecimentos na área desportiva, nomeadamente no futebol, já levantaram uma onda de indignação por todo o País e, como é fácil reconhecer, também tiveram ecos negativos exteriormente.

Esta situação lembra-nos factos idênticos ocorridos na Grã-Bretanha a partir dos anos sessenta e, de tal forma, que a violência no futebol praticada em terras de sua magestade britânica ficou conhecida pelo termo hooligan aplicado aos adeptos, o que traduzido significa desordeiro ou vândalo e este acontecimento chegou mesmo a ser considerado resultante da crise social então existente.

Certamente não estamos esquecidos das cenas violentas transmitidas pelas televisões e nós não fomos poupados, pois também tivemos ocasião de enfrentar a fúria de adeptos britânicos, comportando-se não como visitantes educados, mas causando vários estragos e ofensas logo reprimidos pelas forças policiais.

Na Grã-Bretanha, as entidades competentes meteram pés ao caminho e, após análise criteriosa dos acontecimentos, decidiram acabar com as claques, identificar os respectvos elementos, proibindo-os de frequentar campos de futebol e colocá-los sob custódia durante os jogos.

As medidas surtiram efeito de imediato, mas o mau exemplo do hooliganismo começou a difundir-se noutros países, onde curiosamente as crises sociais também se instalaram, assim proporcionando matéria prima abundante para tornar o fenómeno negativamente visível e do desagrado de todos.

O nosso País também não escapou a esta situação, pois as claques de futebol surgiram avalisadas pelas direcções clubistas e recebendo destas dilatado espaço de actuação ou manobra nunca anteriormente observado e basta olharmos para o espectáculo proporcionado antes, durante e depois dos jogos a mobilizar milhares de elementos das forças policiais para termos a noção do que está em causa.

Enquanto as claques são uma espécie de submundo sobre o qual é referida abertamente a instalação das mais variadas traficâncias, por outro lado são autênticas «tropas de choque» dos clubes que fanfarroneiram pelas ruas, enquanto são instigadas pelos discursos agressivos e violentos dos dirigentes clubistas aos quais até são perdoadas dívidas de milhões de euros na gestão clubista aventureira. Incêndios de bancadas, assassínio de adeptos por tochas ou por atropelamento até se chegar ao ataque de Alcochete, tudo vale nesta onda desordeira e não é por acaso que elementos neonazis se infiltram nas claques «desportivas», pois aí encontram semelhanças com os seus métodos há muito seguidos.

Se o Governo quisesse atacar o problema de raiz olharia para o exemplo do Reino Unido e acabaria com as claques do futebol, mas não se perspectiva como provável tão corajosa atitude, pois o futebol tornou-se numa indústria gigantesca que move grandes interesses capitalistas, negócios nebulosos e marginais ou ilicitudes escondidas no recurso indiscriminado aos paraísos fiscais, como se afirma com frequência, ou seja, há imenso dinheiro a ser lavado nos labirintos do futebol e por essa razão enfrentar esta situação exige uma coragem revolucionária que, manifestamente, não existe para já.

O desporto é um factor do processo global de desenvolvimento que compete ao Estado promover, quer quanto à democratizacção da sua prática quer quanto aos valores que o devem rodear.

A governação deve assumir como objectivo a contribuição para elevar a consciência de que o desporto é um direito que uma sociedade democrática deve seguir e não um espaço para agitar animosidades, rivalidades e conflitos.
A começar no desporto escolar, a pedagogia do desporto e os valores a ele associados de solidariedade, de superação competitiva e de usufruto lúdico, deve estar no centro da acção política.

Por essa razão, devemos condenar as manifestações de violência que se têm registado no campo desportivo, pois os acontecimentos recentes em torno do futebol, com as dinâmicas específicas que os envolvem, não são separáveis de expressões anti-democráticas como a conflitualidade gratuita, o populismo ou o incentivo ao ódio, mais amplamente disseminadas na sociedade.

Mais do que nova legislação, o que se impõe é o cumprimento efectivo da legislação já existente relativa à violência no desporto e ao combate à actividade criminosa, havendo para tal necessidade de vontade política para concretizar tal medida.

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