Este ano celebramos o Dia Mundial do Teatro, na escuridão dos nossos lares. Não nos foi permitido a penumbra brilhante e luminosa dos palcos, mas conscientes que o teatro e todas as artes através da História da Humanidade atravessaram épocas de trevas, esperamos pela abertura luminosa do levantar do pano de boca e que a cena se ilumine com a genialidade de actores e autores, dos criativos do teatro que esperarão no final pelo nosso aplauso criativo e agradecido!

Enquanto esperava pela mensagem tradicional, escrevi o texto que a seguir transcrevo. Nos anos 50 do século passado os meus pais assistiram a uma conferência dada pelo actor e encenador francês Jean Louis Barrault na Universidade de Santiago do Chile/Santiago. Em várias oportunidades o meu pai me falou desse encontro, elogiando o saber, a teatralidade e comunicação do conferenciante com a plateia. Não estive nesse momento como poderão imaginar, mais tarde tomei conhecimento do actor Jean Louis Barrault, através do cinema e das muitas intervenções que teve na vida cultural francesa, e o seu papel relevante no Maio de 68 em Paris!

No momento de hoje, tao apelativo a ler e reler livros partilho convosco à maneira de mensagem no Dia Mundial do Teatro parte do prefácio do seu livro “Reflexiones sobre el Teatro”, edição argentina da Peña, del Giudice- Editores, Bs.As.-1953 “…para el teatro el tiempo tiene importancia. El teatro es el arte de lo efímero , está continuamente  en movimiento: el teatro es el símbolo mismo de todas esas muertes sucesivas que día  tras día dejamos por el camino.Si hay un lugar en que “no se baña un o nunca en la misma agua” (como lo decía Heráclito), ese lugar es el teatro. El cambio es nuestra función, he aquí porque no puede reprochársenos si no pensamos a veces como nuestros mayores, he aquí porque tampoco debemos entristecernos cuando nuestros menores ya no piensan como nosotros. En teatro: no dejar de estar “en marcha” Jean Louis Barrault, Paris, setiembre de 1949 – O autor da Mensagem deste ano, O teatro como Santuário, é o dramaturgo paquistanês, SHAHID NADEEM (1947), principal autor dramático paquistanês que dirige, de modo, assaz brilhante, o célebre teatro AJOKA.“

Aquando da digressão de Ajoka no Punjab indiano em 2004, após uma representação muito calorosamente acolhida diante de um público rural de milhares de pessoas, um velho homem veio ver o actor interpretando o papel do grande sofista. O velho homem estava acompanhado de um jovem rapaz. “O meu neto encontra-se muito doente; podereis por favor dar-lhe uma bênção”.

O actor ficou surpreendido e disse: “Babaji, eu não sou Bulleh Shah, sou apenas um actor que interpreta este papel”. O velho homem pôs-se a chorar e disse: “Por favor, benze o meu neto, eu sei que se curará, se o fizeres”. Propomos ao actor de atender o desejo do velho homem. O actor deu a bênção ao jovem. O velho ficou satisfeito. Antes de partir, proferiu estas palavras: “Meu filho, tu não és um actor, tu és uma reencarnação de Bulleh Shah, o seu Avatar”. De repente, um novo conceito de jogo, de teatro, se nos impôs, em que o actor se torna a reencarnação da personagem que encarna.”… “Na Ásia do Sul, os artistas tocam com reverência o piso da cena antes de colocar o pé, uma tradição antiga em que o espiritual e o cultural se mesclam.

É tempo de reencontrar esta relação simbólica entre o artista e o público, o passado e o futuro. A criação teatral pode ser um acto sagrado e os actores podem, com efeito, tornar-se os avatares dos papéis que desempenham e interpretam. O teatro eleva a arte de jogar à um nível espiritual superior. O teatro possui o potencial para se transformar num santuário e o santuário um lugar de representação.” (Versão portuguesa de Kwame Kondé). Shahid Nadeem nasceu no ano de 1947, na Sopore no Caxemira. Tornou-se refugiado na idade de um ano, quando a sua família deveu emigrar para o Paquistão (recentemente criado) após a guerra de 1948 entre a Índia e o Paquistão. Viveu em Lahore, no Paquistão, onde fez a sua licenciatura em psicologia na Universidade do Punjab.

Escreveu a sua primeira peça de teatro enquanto estudante universitário, no entanto, se tornou um autor dramático afeiçoado e devotado quando começou à contribuir, desde o seu exílio político em Londres, na criação e produção peças para o grupo cénico dissidente do Paquistão, Ajoka, criado pela actriz paquistanesa Madeeha Gauhar (1958-2018), uma pioneira do teatro, com quem casou em seguida. È autor de mais de 50 peças em punjabi e em urdu e várias adaptações de peças de B. Brecht.

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