Bruno Galvão e João Ribeiro são dois grandes amigos de infância, apaixonados pela música, pela dança e pelo teatro. O facto de terem passado grande parte da infância e adolescência numa academia de música, marcou-os para sempre.

Em 2010, quando decidiram criar a “Elenco Produções”, já traziam muita bagagem. Haviam passado muitos anos rodeados de excelentes professores e colegas com talentos incríveis, como compositores, músicos, atores e bailarinos. Neste cenário, pareceu-lhes lógico criar uma empresa e foi muito fácil escolher a equipa certa para trabalhar. Não contam apenas com artistas profissionais e apaixonados. Contam igualmente com uma equipa criativa e de produção que permite responder a todas as exigências, com a maior eficácia, qualidade e profissionalismo.

Até hoje já deram corpo a um conjunto de espetáculos de grande qualidade e sucesso, entre os quais se destacam “A Ilha do Tesouro”, “Aladino”, “A Volta ao Mundo em 60 Minutos”, “Zorro” ou “Cinderela XXI”. Para saber mais sobre esta produtora artística gaiense, fomos ouvir um dos seus líderes, Bruno Galvão.

Que razões presidiram à criação da “Elenco Produções” e qual o balanço destes primeiros oito anos de atividade?

A “Elenco Produções” nasce, principalmente, pela paixão pela música e pelo teatro musical. Após estudarmos música e começarmos a fazer parte de produções profissionais no âmbito do teatro musical, percebemos que poderíamos fazer a diferença na criação e produção de obras de teatro musical: fazer a diferença nos processos e na forma como gerimos os artistas, técnicos e criativos e, paralelamente, a diferença no tipo de oferta: espetáculos criados de raiz, originais, de grande qualidade artística, com o objetivo de criar correntes de público para esta forma de arte. Ao fim de 8 anos estamos felizes. Primeiro, porque conseguimos criar uma estrutura e dedicarmos a tempo inteiro às artes. Numa segunda instância, porque conseguimos, até ao momento, criar oportunidades de trabalho a mais de 600 pessoas da área artística. E felizes porque sabemos que muito existe ainda por fazer e que a “Elenco” – tal como o teatro musical – está ainda numa fase de crescimento; depois de já termos subido ao palco das principais salas do país, nomeadamente e mais recentemente os Coliseus de Lisboa e Porto com o musical encomendado pelo Santuário de Fátima “Entre o Céu e a Terra – o Musical sobre Fátima”. Paralelamente novas áreas de negócio foram surgindo, como a Elenco Academy – que trabalha as artes performativas junto de instituições de ensino – e o Pocket Show – espetáculos portáteis, criados à medida de pedidos de clientes, sejam eles empresas, municípios, agências ou centros comerciais. Foram 8 anos intensos, que se resumem em 8 obras originais de teatro musical, em 50 Pocket Show à medida criados, em mais de 600 horas no palco e em mais de 350.000 espectadores. 

Apesar de sediada em Vila Nova de Gaia, a “Elenco” muito raramente tem apresentado as suas produções no concelho. A que se deve tal facto?

É do conhecimento geral a falta de equipamentos culturais no Município.O teatro musical requer salas com capacidades técnicas específicas e capacidade para acolher um grande número de público. Apesar de não existirem estes equipamentos, muitos municípios proporcionam aos produtores a possibilidade de se instalarem recintos provisórios ou explorar outro tipo de espaços não convencionais; talvez esteja na altura de reunir com a Câmara Municipal de Gaia (CMG) e estudar-se em conjunto essa possibilidade.

O Centro Cultural e de Congressos, anunciado para 2021, poderá resolver o problema da inexistência de grandes palcos em Gaia. Até lá, o Auditório Municipal não vos seduz como espaço para produções de média escala?

Honestamente, não tenho conhecimento aprofundado das condições, sejam elas técnicas, de produção ou acolhimento, do futuro Centro Cultural e de Congressos. Mas sim, à partida, e tendo havido essa preocupação por parte da CMG aquando do acordo, acredito que possa ajudar bastante os agentes artísticos da cidade. Estou ansioso para conhecer o projeto. No que diz respeito ao Auditório Municipal de Gaia (AMG), tive apenas uma reunião, em 2012, para se estudar uma forma da cidade acolher um espetáculo da “Elenco Produções”; a verdade é que as condições de acolhimento no AMG eram, na altura, completamente proibitivas para qualquer produtor, de uma forma completamente descontextualizada em relação ao que é política nos restantes auditórios do país. Caso haja uma nova política de acolhimento, acredito que o AMG poderá enquadrar-se em alguns projetos que a “Elenco” está neste momento a criar e outros que tem já em carteira.

 

O que se pode adiantar sobre o espetáculo em criação? 

Ainda não chegou a fase de lançar o novo musical da Elenco. Mas há a promessa de darmos continuidade a grandes produções originais de musicais e de estarmos em cena no último trimestre do ano.

Em que cidade e espaço cultural estreia a nova criação?

Infelizmente, e até pela experiência destes anos, até tudo estar contratualizado não devo revelar oficialmente o espaço. Posso adiantar apenas que o projeto destina-se a uma apresentação no Grande Porto e outra em Lisboa. 

E quais são os espetáculos que a “Elenco” tem em carteira, adequados às características do Auditório Municipal de Gaia?

Relativamente aos espetáculos em carteira, estamos a falar de mais de 8 grandes musicais originais apresentados e de 53 espetáculos já criados com características de se adaptarem a qualquer tipo de palco ou espaço; nesse sentido, seja através de espetáculos que temos em carteira ou da capacidade que temos através das equipas criativas disponíveis – maioritariamente gaienses, entre compositores, encenadores, letristas e dramaturgos – a “Elenco” teria toda a capacidade (e vontade) de apresentar espetáculos no Auditório Municipal de Gaia.

Se a “Elenco” tivesse que propor apenas um destes espetáculos, qual deles seria a opção e porquê? 

O primeiro projeto que me vem à cabeça é “Entre o Céu e a Terra – o Musical sobre Fátima”.Sendo Gaia um dos maiores municípios do país, sendo a cidade que nos viu nascer e crescer, sendo a cidade na qual a “Elenco” está sediada, parece-me justo propor – provavelmente – o melhor e maior espetáculo da produtora. Depois de o termos estreado em 2016 no Santuário de Fátima, em 2017 esgotámos os Coliseus do Porto e Lisboa. Agora, faria sentido apresentá-lo na “nossa” casa. O espetáculo foi criado para um público heterogéneo, desde crentes, indiferentes ou não crentes; não é de todo um espetáculo de cariz religioso, mas sim um espetáculo que tem como objetivo perceber a razão de Fátima, 100 anos depois, ainda ser uma realidade. É um espetáculo dedicado aos peregrinos – porque Fátima existe pelos peregrinos – e para todos aqueles que gostam de entrar numa sala de espetáculos e, entre momentos de humor ou outros mais dramáticos, conseguem sair de certa forma transformados de um espetáculo. Além de uma série de artistas gaienses, o elenco conta com nomes como Sofia Escobar, José Raposo ou Marta Andrino. E Gaia merece os melhores! 

O financiamento público às artes ainda é olhado de lado pela nossa sociedade. Mas será que os projetos artísticos conseguem sobreviver sem esse apoio?

A “Elenco” está no mercado há quase 10 anos e nunca teve um financiamento. Acredito que os projetos podem viver sem financiamento, se conseguirem ter uma estrutura não só artística, mas de produção e comercial. Os projetos artísticos só fazem sentido se houver público e, honestamente, a responsabilidade de cativar público é dos produtores e não de quem dá apoios. Com isto quero dizer que é possível sobreviver sem esse apoio, mas é claro que com apoios poderíamos investir mais: nomeadamente, melhores condições para os artistas e técnicos, melhores recursos, melhor comunicação, melhores projetos e maior capacidade para assumir riscos. 

A terminar, quais são as maiores dificuldades com que se têm deparado ao longo da vossa atividade?

Uma das maiores dificuldades com que lidamos é a falta de salas de espetáculos, nomeadamente em Gaia e no Porto. Neste momento, para se fazer um musical no Grande Porto, temos apenas o Coliseu. O Teatro Sá da Bandeira está completamente decadente e com sérios riscos de uma tragédia; o Rivoli tem programação própria e não faz acolhimento. De Gaia já falámos deste tema. Na “Elenco” temos os artistas, temos o público e temos dificuldade em conseguir agenda numa sala de espetáculos. Outra dificuldade passa por conseguir viabilizar os projetos: as pessoas não estão habituadas a pagar um valor que torne viável conseguir investir em bons profissionais, excelentes recursos técnicos e todo o investimento necessário para uma produção. Seja um espetáculo para o grande público seja uma entidade que nos encomenda um espetáculo de raiz. Daí, a nossa ginástica orçamental é um dos grandes desafios com que lidamos diariamente. 

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