Embora não seja caso inédito, pois já aconteceu por duas vezes e em países membros da NATO, o roubo de material de guerra em Tancos e o aparecimento da respectiva lista de imediato em Espanha, causou perplexidade na população portuguesa e mal-estar no governo e no seio das Forças Armadas.

Tendo sido responsável pelo projecto e construção dos paióis de Tancos, o tenente-general Frutuoso Pires Mateus «estranha haver cinco unidades a fazer segurança e em sistema de rotação à referida estrutura que foi feita no final dos anos oitenta com todas as regras, toda a segurança e um miniquartel lá dentro.

Tem uma caserna e uma área de alimentação para 30 militares em permanência, a cargo de uma unidade especialmente criada para o efeito, tipo Polícia Militar, responsável pela segurança total. Para lá entrar não era fácil e cada paiol tinha um portão com uma chave própria e código de entrada.

Espanta-me que se faça segurança de uma área tão específica com cinco unidades diferentes. Quando se põem unidades em rotação, algo está errado e isto não é arte de comandar. Quem altera as missões desta maneira não pode ser comandante. Podem alterar-se se, de cima, derem ordens para isso e é para cumprir até ao fim. A missão era garantir a segurança dos paióis e foi alterada de forma que não considero normal.

O general Firmino Miguel decidiu que o paiol seria uma unidade independente das unidades em redor e com instalações próprias, aquilo é como um campo de minas, com duas áreas de vedação e o caminho de ronda. E há o acesso a cada paiol para permitir a ronda a cada um, foi tudo feito para isto não acontecer».

A falta de pessoal é uma das razões apontadas para esta situação, foram denunciados cortes estruturais e a redução de efetivos e o tenente-general Joaquim Formeiro Monteiro, presidente da Assembleia-Geral da AOFA, é um dos que assume publicamente o seu desagrado, deixando uma série de perguntas e denunciando a suborçamentação sucessiva que afeta o normal funcionamento das Forças Armadas.

Para este tenente-general, «enquanto o poder político não encarar as dificuldades que existem nas Forças Armadas, situações como a do assalto aos paióis de Tancos tem uma elevada taxa de probabilidade de se repetir, neste ou noutros moldes. Resta a pergunta se esta realidade será premeditada, ou meramente fruto da incompetência de quem tem responsabilidades políticas na matéria».

Num tom particularmente duro, o tenente-coronel Pedro Tinoco de Faria ataca a classe política que tem liderado o país a partir de um «mundo da luxúria, da corrupção, da falta de sobriedade e de desrespeito pela ética e pela moral e de nos submeterem sob a ditadura da democracia, nomeando os seus delfins para o comando das tropas e afastando aqueles que se lhes opõem».

O coronel António Feijó sugeriu que quem conduziu o assalto ao paiol de Tancos sabia o que estava a fazer, «não olhando a meios, incluindo, muito provavelmente, a eliminação de quem, eventualmente, se lhes opusesse. A descredibilização da Defesa e a segurança do país tem sido uma constante dos agentes políticos que têm exercido o poder, sejam de que partido forem. Olham para a estrutura do Estado, como uma sua quinta para colocarem os seus boys na manjedoura do orçamento. E se dúvidas houver, basta olhar para a Proteção Civil e SIRESP. Choram lágrimas de crocodilo. Já é tempo de dizer basta».

Num comunicado emitido a 30 de Junho pelo seu Gabinete de Imprensa, o PCP considera o assalto a um paiol militar em Tancos como «um caso de extrema gravidade a necessitar de todo o apuramento, incluindo a retirada de consequências».

Para o Partido, a existência de um sistema de vídeo vigilância inoperacional há dois anos, segundo notícias vindas a público, é reveladora do «estado de degradação a que as opções políticas de sucessivos governos, e de forma mais violenta do anterior governo PSD/CDS-PP, conduziram as Forças Armadas.

Esta degradação, acrescenta-se, concretiza-se nos planos de material, pessoal e dos direitos dos militares». Resta ainda «perceber exactamente como está tudo o que diz respeito a seguros e apoio aos militares nas denominadas forças nacionais destacadas». Resta-nos aguardar as conclusões da reunião do Conselho de Estado do próximo dia 21 de Julho.

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