O ator Pedro Manana, o nosso convidado de hoje, nasceu em Lisboa há trinta e oito anos, mas veio ainda criança para Vila Nova de Gaia, onde fez todo o seu percurso escolar (básico e secundário) em Canidelo, tendo dirigido durante dez anos o grupo de Teatro da Escola Secundária Inês de Castro. E concluiu a sua formação académica na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa (antigo Conservatório Nacional), onde obteve o bacharelato em Formação de Atores e a Licenciatura em Teatro e Educação.

Com apenas dezasseis anos começou a fazer dobragens em séries e filmes de animação, assumindo desde há sete anos a direção de algumas delas. Entre 2007 e 2010, foi diretor de cena no Teatro Nacional de São João, onde teve oportunidade de trabalhar com vários encenadores de topo a nível nacional e internacional, o que, segundo ele, funcionou como o seu curso informal de encenação, território de criação que acalenta há muitos anos prosseguir.

Como ator, foi dirigido por encenadores como Jorge Mota, Ricardo Pais, João Cardoso ou, mais recentemente, Renata Portas. Em televisão, entre outros projetos de menor escala, foi argumentista e protagonista da série da RTP “4PLAY”, totalmente produzida entre Gaia e Porto. Oiçamo-lo então:

 

Na tua opinião, o que falta para que o teatro profissional em Gaia se constitua como alternativa à crescente oferta cultural da cidade do Porto?

Respondendo muito claramente à sua pergunta… falta vontade política e verdadeira estratégia cultural. Não o digo como se considerasse que há uma conspiração para “abafar” os agentes culturais, tão conhecidos por serem subversivos e críticos, mas mais no sentido de considerar que há muita ignorância e falta de visão nos representantes políticos. Mas os representantes políticos são exatamente isso, representantes. Representam os cidadãos e acho que o problema radica também muito nos cidadãos. Os políticos receiam ser criticados pelas pessoas que representam por alocar fundos para uma atividade que ainda é vista como de menor importância por muita gente. Para mudar isso, a luta deve começar muito mais cedo (nas escolas, por exemplo). Deve começar na educação dos cidadãos e deve seguir no sentido de exaltar a relevância da atividade artística. Na minha opinião, a atividade artística tem uma função social ao nível da do jornalismo, mas com um caráter menos imediato, naturalmente. A atividade artística deve servir para despertar consciências, sensibilizar o povo, torná-lo mais humano, mais comunitário e menos “umbiguista”.

 

Nesse sentido, que estratégia cultural gostarias de ver implementada em Vila Nova de Gaia?

Creio que a estratégia cultural tem de ser integrada com outras áreas da influência política, como por exemplo o urbanismo e a educação. Se queremos abordar o problema a um nível mais profundo e consequente no longo prazo, acho que seria necessário criar um polo cultural com novas infraestruturas e passo a explicar porquê. A crise de público parece sentir-se menos nos últimos anos, mas se prestarmos mais atenção ao problema, percebemos que as salas que têm conseguido inverter a tendência negativa da falta de público, são as que se encontram mais próximas do coração pulsante da cidade do Porto. As salas que estão perto de zonas de lazer, comércio e restauração, como por exemplo o Teatro Nacional São João, o Rivoli e o Teatro Carlos Alberto, são onde vemos um maior dinamismo. Se pensarmos num teatro como o do Campo Alegre, por exemplo, vemos que a dificuldade em “chamar público” se mantém, mesmo sendo uma sala com excelentes condições, tanto para artistas, como para espectadores. Em Gaia, temos o Armazém 22 que, apesar de ter alguns problemas de acessibilidade, condições técnicas e conforto, consegue atrair muito mais público do que outras salas que não verificam esses problemas. Ou seja, não basta construir um teatro para dinamizar a vida cultural de uma cidade, é preciso saber onde o construir e que infraestruturas deve criar à sua volta. De qualquer forma, as salas existentes em Gaia (as que conheço) são subaproveitadas por falta de incentivo à atividade criativa. Criar uma companhia, tornou-se um processo demasiado complexo e burocrático. Concorrer a apoios estaduais é cada vez mais difícil e conseguir esses apoios é um enorme mistério que parece obedecer mais aos caprichos dos júris que a critérios mesuráveis e rigorosos. Seria necessária uma verdadeira intervenção municipal no apoio à criação artística (não só teatral) para que se conseguissem colmatar as falhas que há a nível nacional. O apoio municipal de que falo, teria que ir mais longe do que o simples subsídio. Estou a falar de apoio jurídico, desburocratizar processos, fornecimento de espaços de ensaio, facilitar o acesso aos equipamentos públicos, facilitar o acesso dos artistas aos decisores políticos e promover ativamente esse contacto. Resumindo, se não há apoio e as perspetivas de ocupação de sala não são animadoras, dificilmente poderá haver uma afirmação cultural de Gaia.

 

E a educação, a comunidade escolar, que papel deve assumir nessa estratégia de afirmação cultural do município de Gaia?

A comunidade escolar tem uma importância preponderante dentro de uma estratégia de médio e longo prazo. Nos últimos anos registo um aumento das ferramentas legislativas que permitem às escolas contribuir positivamente para a aproximação da comunidade escolar à cultura. A flexibilização dos currículos é uma realidade e as escolas têm hoje mais capacidade de integrar diversas expressões artísticas nas suas atividades. No entanto, como em muitas outras áreas da intervenção do estado, esta flexibilização não tem tido resultados muito expressivos e a razão é simples. Tudo o que, hoje em dia, é possível fazer, acaba por não acontecer porque o uso das ferramentas referidas anteriormente é totalmente opcional. Passo a concretizar.  O estágio com que terminei a minha licenciatura em “Teatro e Educação” em 2005 (anteriormente tinha completado o bacharelato em “Formação de Atores”) foi realizado na Escola Secundária Inês de Castro onde, por iniciativa da professora Joana Félix, havia a oferta da disciplina de Teatro, escola essa onde depois permaneci durante dez anos dinamizando o clube de teatro. O trabalho desenvolvido na escola, influenciou a vida de centenas de alunos e muitos desenvolveram uma relação nova com a arte que, desde então, apenas se tem intensificado. A iniciativa via o seu sucesso refletido na atividade vibrante do clube de teatro que chegou a integrar cerca de cinquenta alunos e conquistou vitórias como uma apresentação inédita do seu trabalho integrada na programação do Teatro Nacional São João (curioso, uma escola de Gaia ver o seu trabalho mais reconhecido no Porto que na sua própria cidade), a organização de dois Encontros de Teatro na Escola (evento anual para o qual concorrem escolas de todo o país) e a colaboração com artistas de renome nas suas criações artísticas. Mas esse dinamismo foi-se perdendo porque as mudanças de orientação das diversas direções da escola levaram à extinção da disciplina. Resumindo, o acesso à arte está ligado às vontades e ideias de um administrador escolar. O critério de um homem (ou mulher, estou a falar em termos gerais) é o que importa, porque não há um reconhecimento universal da importância da arte no desenvolvimento dos estudantes. E assim temos escolas que formatam, mais do que ensinam. A escola atual, é cada vez mais ineficaz e no limite poderá até tornar-se obsoleta. Voltando ao teatro, aplaudo o teatro que vai à escola, mas acho que a escola deve ir muito mais ao teatro, e a este respeito declaro-me 100% garrettiano que quando criou o conservatório nacional afirmou que “primeiro é preciso criar o hábito, para depois criar o gosto e por fim a necessidade”.

 

Na tua opinião, os espetáculos de iniciação, os primeiros a que as crianças assistem, devem fazer o cruzamento do teatro com outras artes, ou essa multidisciplinaridade é irrelevante?

Não a acho irrelevante, mas também não a acho fundamental. Acho que deve haver critério na escolha dos espetáculos para que as crianças tenham a melhor experiência possível e possam associar o teatro a algo de positivo. A multidisciplinaridade, como é encarada por muitos professores e diretores de escola, pode até ter o efeito indesejado de fazer com que as crianças associem a experiência teatral, não à fruição artística e ao despertar da consciência, mas unicamente  a uma matéria específica no âmbito de uma qualquer disciplina, como o Português, a História, a Filosofia ou outra qualquer. A própria necessidade que as escolas têm em juntar um conteúdo programático à experiência teatral que proporcionam aos seus alunos só revela a sua falta de noção acerca do poder formativo do teatro e põe em evidência mais uma vez, que a sua preocupação se prende exclusivamente com os conteúdos programáticos e não com a formação do jovem como ser humano e membro da sociedade. Na verdade, a multidisciplinaridade é inerente à criação teatral, mas a que considero mais importante, em geral e também no caso das crianças, é a que vem do casamento entre música, poesia e arte plástica (cenografia e figurinos).

 

A terminar, quando podemos ver-te de novo nos palcos em Gaia? E qual a personagem, a peça ou o autor que ambicionarias para esse regresso?

Não sei quando será possível estar presente nos palcos de Gaia, mas gostaria que isso acontecesse na sequência de um projeto que quero há muito “levantar do chão” onde poria em cena uma trilogia do autor irlandês Martin McDonagh.

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