Após sucessivos adiamentos devido à pandemia da Covid-19, a terceira edição do Festival de Teatro José Guimarães, certame organizado pela Tuna Musical de Santa Marinha, que se propõe evocar um dos mais criativos e produtivos autores da música ligeira portuguesa e do nosso teatro musicado, ao mesmo tempo que procura contribuir para o reforço da oferta cultural do centro histórico de Gaia, já tem calendário definido.

A sua programação acontece entre 18 de setembro e 20 de novembro de 2021 e une as diversas formas de expressão e territórios artísticos explorados pelo seu patrono, através de seis espetáculos profissionais e de outros tantos projetos amadores oriundos de diversas paragens do território nacional. O espaço da programação destinado a estruturas amadoras, reúne produções da Academia de Teatro d’ Os Plebeus Avintenses (2 outubro), da coletividade organizadora (9, 29 e 30 outubro), do Teatro Amador de Pombal (16 outubro), da Ajidanha – Associação da Juventude de Idanha-a-Nova (23 outubro) e do grupo de teatro do Círculo Católico Operário de Vila do Conde (6 novembro),

Os espetáculos profissionais que integram a programação desta edição do festival de teatro José Guimarães têm como criadores, artistas e estruturas do norte do país.

A peça de abertura (18 setembro, às 21h30) inspira-se na vida do ator, produtor e programador Mário Moutinho, uma das figuras incontornáveis da história do teatro do Porto das últimas quatro décadas. Apesar do seu ponto de partida biográfico, o espetáculo (“Little B”, com texto, direção e interpretação de Ana Vitorino, Carlos Costa, Mário Moutinho e Sara Barros Leitão, numa produção do Visões Úteis) “não tem pretensões documentais, dedicando-se àquilo que aconteceu, ao que poderia ter acontecido, ao que gostaríamos que acontecesse, ao que nunca mais acontecerá e ao que está por acontecer”.

A criação que se segue (25 setembro, às 16h00) tem texto e encenação de Pedro Saraiva, com produção da Imaginar do Gigante. Trata-se de “Duas Casas”, um espetáculo com uma forte componente pedagógica, lúdica e formativa, que tem por público alvo crianças, jovens e famílias, e cujo subtítulo (“um teatro com coisas lá dentro”) remete-nos para um universo de celebração da diferença que nos torna iguais.

A produção seguinte (13 novembro, 21h30), com texto e encenação de Jorge Louraço Figueira, chama-se “À Espera de Godot ou Quaquaquaqua” e tem por ponto de partida as três montagens que Ribeirinho fez da peça À Espera de Godot, de Samuel Beckett. Essa peça de Beckett é sobre impasses, e dá-se o caso de aquelas montagens “coincidirem com três momentos de impasse coletivo em Portugal: em 1959, a ressaca da campanha eleitoral de Humberto Delgado; em 1969, a queda de Salazar; em 1973, quando Ribeirinho leva a peça do Beckett em digressão a Angola, o fim do regime”. Trata-se, em suma, de uma homenagem a um grande ator português, numa reflexão sobre a vontade de não fazer nada e a obrigação de mudar, através de uma viagem pelo imaginário coletivo, onde se cruzam lembranças de personagens de teatro com factos da História do País.

No sábado seguinte (20 novembro) o certame marca o seu encerramento com uma jornada tripla. O dia começa (10h00) com “Arco-Íris”, um projeto de iniciação ao teatro, a partir de jogos de interação e da participação dos bebés na história através dos sentidos, com interpretação e direção de Inês Cardoso e Kátia Guedes. Segundo a produtora Primeira Pedra, “à descoberta dos sentidos junta-se a iniciação à palavra de maneira a criar um ambiente social de interação com “bebés, miúdos e graúdos”. Nesse mesmo dia, ao início da tarde (16h00), o Teatro do Chulé apresenta “A História de um Tigre”, uma criação em estreia de Paulo A. Jorge, a partir do Prémio Nobel italiano Dario Fo, que por sua vez se inspirou no teatro popular chinês e que conta a história de um soldado que, durante a Grande Marcha, é ferido e refugia-se numa gruta nos himalaias. Trata-se de um casamento perfeito do teatro e da música para a infância e juventude, num espetáculo que aborda de forma cómica os dramas da guerra e suas consequências, com recurso ao contador de histórias e à commedia del arte, com muito humor e cumplicidade(s).

Ainda no dia 20 novembro, às 21h30, o festival despede-se com “António Marinheiro”, de Bernardo Santareno, com direção de Roberto Merino e produção dos alunos finalistas da ESAP-Escola Superior Artística do Porto, que podemos resumir assim: Numa taberna de Alfama, o jovem António Marinheiro mata um velho pescador. Ao deparar-se com a viúva, sente por ela uma irresistível atração. E no final ambos descobrem que são na verdade filho e mãe, e que ele havia assassinado seu próprio pai.

 

No âmbito das atividades paralelas do III Festival de Teatro José Guimarães, destaca-se a realização de um ciclo de conferências de teatro (ver calendário em baixo), reunindo alguns dos mais importantes nomes das artes de palco do Grande Porto que são convocados a partilhar as suas experiências pessoais enquanto criadores, a elencar as principais dificuldades com que se debatem nas diversas fases que atravessam a produção dos espetáculos em que participam e a prestar testemunho sobre as medidas que preconizam com vista a um maior desenvolvimento da atividade teatral. Para ajudarem nesta reflexão, são também convidados muito especiais do evento os autarcas, programadores, artistas, jornalistas e públicos locais, protagonistas fundamentais no processo de crescimento e democratização da atividade teatral em Gaia, que aos poucos vai ganhando maior expressão, pese embora se situe ainda num estádio abaixo da reconhecida maturidade já alcançada pelos seus criadores, amadores e profissionais.

 

Conferências de Teatro

 

11 setembro, 16h00

Mário Moutinho: ator, encenador e produtor, tem desenvolvido grande parte da sua carreira ao serviço de quase todas os grupos da Invicta e do FITEI, que dirigiu entre 2005 e 2013. Recentemente, criou com o Visões Úteis o espetáculo “Little B”, inspirado na sua biografia, e foi coautor de um livro sobre o teatro no Porto, temas que dominarão a sessão.

Luísa Martinho: jornalista, com trabalho realizado em diversas publicações do norte do país, tem colaborado com algumas estruturas culturais, entre as quais o Teatro Nacional S. João e o FITEI, onde conheceu Mário Moutinho, com quem escreveu o livro “O Teatro Semiprofissional do Porto”. Ela conta-nos tudo o que sabe sobre o teatro no Grande Porto.

 

18 setembro, 16h00

José Caldas: encenador e ator. Brasileiro de nascimento, veio para Portugal em 1974 e começou a sua atividade na Oficina de Teatro e Comunicação. Mais tarde foi diretor da Companhia Sete Ofícios e hoje dirige a Quinta Parede. O seu percurso é de um verdadeiro nómada, deixando a sua inconfundível e original marca de criador em diversos grupos. Vem mostrar o seu mais novo livro e falar de teatro para todos, crianças, jovens e adultos.

 

25 setembro, 17h00

Pedro Miguel Dias: ator e encenador. Colabora regularmente com diversos grupos de teatro a norte do país e tem também desenvolvido trabalho para televisão e cinema como dobrador de filmes e séries de animação. Fundou recentemente a companhia de teatro Primeira Pedra. É professor e um dos principais responsáveis da Academia de Teatro d’ Os Plebeus Avintenses. E vem falar sobre a importância da formação artística nos grupos amadores.

 

2 outubro, 17h00

José Leitão: encenador, dramaturgista e ator, é fundador e diretor artístico do Teatro Art’ Imagem, estrutura profissional nascida em 1981. Nesta qualidade, dirige igualmente o festival Fazer a Festa, o terceiro mais antigo do país, desde 1982, e o Festival Internacional de Teatro Cómico da Maia desde 1994. Fala-nos da sua experiência profissional e dos efeitos do fascismo, da guerra colonial e da censura no desenvolvimento do teatro no país.

 

9 outubro, 16h00

Luís Trigo: ator, encenador e dramaturgo. Com trabalho de relevo realizado no teatro, cinema e televisão, ao mesmo tempo que ensina teatro a crianças e adultos, atualmente dedica o seu tempo quase exclusivamente à gaiense ETCetera Teatro, estrutura que ajudou a criar e que dirige artisticamente desde 2012. Vem falar da importância da colaboração de artistas e criadores profissionais com grupos de teatro amador, universo de onde é oriundo.

 

16 outubro, 16h00

Roberto Merino: dramaturgo, encenador e pedagogo teatral. Chileno de nascimento, escolheu o exílio quando Pinochet chegou ao poder, em 1973. Depois de algum tempo na Alemanha, acabou por se fixar em Portugal, onde assinou até hoje mais de uma centena de encenações. Atualmente dirige o Curso Superior de Teatro da ESAP e mantém colaboração com outras escolas. A xenofobia, o racismo e os totalitarismos irão cruzar-se com o teatro.

 

23 outubro, 16h00

José Luís Guimarães: professor e investigador universitário, com uma atividade artística diversa e multifacetada, que inclui a escrita em poesia e prosa, a música, o desenho e a pintura, a cenografia e a arquitetura. Desfia memórias sobre os processos criativos de seu pai, José Guimarães, de quem “herdou” a veia artística. E fala-nos da escrita para teatro de revista, uma semana antes da apresentação do espetáculo “Vem à Revista”, de que é autor.

 

30 outubro, 16h00

Ricardo Alves: encenador e dramaturgo. É fundador do Teatro da Palmilha Dentada, estrutura que se define acima de tudo como um grupo de reflexão política e um projeto independente de intervenção cívica com uma forte componente humorística. Desdobra-se pontualmente por diversos outros projetos culturais e artísticos, amadores e profissionais. O teatro de comédia entre nós, do passado à atualidade, será um dos temas a desenvolver.

 

6 novembro, 16h00

Jorge Louraço Figueira: dramaturgo, encenador e professor, coordena a pós-graduação em dramaturgia na ESMAE. Doutorado em Estudos Artísticos, foi crítico de teatro no jornal Público e desenvolve intensa e continuada atividade como investigador em teatro. Iniciou-se na escrita dramatúrgica com “O Espantalho Teso” e juntou depois a encenação à escrita de algumas das suas peças, temas que nortearão certamente a sua comunicação.

 

13 novembro, 16h00

Inês Cardoso: atriz, encenadora, produtora e arquiteta. Colabora regularmente com a estrutura ETCetera Teatro e é cofundadora da associação Primeira Pedra. Recentemente criou o projeto Teatro e Bebés, com a atriz Kátia Guedes. E é fundamentalmente sobre esta sua experiência na criação de espetáculos com e para os mais pequenos de que ela falará.

Paulo A Jorge: músico, professor e ator. Fundador do coletivo The Free Jazz Company, que se dedica à exploração e à experimentação musical, criou em 2002 o Carl Orff Projeto – Educação Musical, que dirige. Mais recentemente, fundou a Real Companhia de Teatro do Chulé. Ele vem falar do “casamento” do teatro e da música para a infância e juventude.

 

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