Costumava dizer, brincando com a verdade, que só era sócio de uma instituição: o Sport Lisboa e Benfica – depois, também “amigo” da Cinemateca Portuguesa. Fui simpatizante do PSD de Sá Carneiro, Cavaco Silva e Passos Coelho (embora lamentasse nos últimos dois a falta de uma dimensão mais humanista) e colaborei com o partido em determinados momentos, com o maior empenho e orgulho, no contexto da minha actividade profissional. Nunca fui militante talvez porque um liberal é essencialmente contrário ao que significam os grandes partidos: um liberal, fundamentalmente, vive e deixa viver.

Nos últimos anos, porém, vieram populismos e demagogias, a direcção nacional do PSD seguiu um caminho em que este simpatizante em particular deixou de se rever e, enquanto, o centro político se vai redesenhando, surgiu um partido com ideias novas e consistentes, sem medo de se afirmar liberal, sem medo de ser de direita, mas de uma direita que é, finalmente, liberal não só no plano económico, mas também no social. E, agora que esse partido dá os primeiros passos nos Açores, decidi, por fim, militar num projecto político.

E porque é, na modesta opinião de açoriano desterrado, o liberalismo faz falta aos Açores e à Ilha Terceira em particular?

Porque custa ver os anos passar e toda a actividade económica cada vez mais dependente de um Governo Regional mais centralista do que o central. Custa ver o comércio fechar. Custa perceber que não se abre uma loja, um restaurante, um projecto turístico, sem um subsídio. Custa discutir uma iniciativa cultural ou filantrópica e a primeira pergunta ser: “e como é que podemos candidatar-nos a um apoio?” Custa perceber que tudo depende do Governo regional porque o Governo Regional tudo fez para que tudo dependesse dele, do seu crivo, da sua autorização, da sua escolha, da “fidelidade” dos “súbditos”.

Custa que, apesar de os Portugueses em geral terem hoje um conhecimento extraordinariamente mais amplo da região do que talvez alguma vez antes, ser cada vez mais surpreendente dizer-lhes que não, os Açores não têm uma capital. Quase não acreditam, porque são constantemente bombardeados com mensagens e comportamentos que indicam o contrário. Custa ver que, em 44 anos de autonomia, escolhemos 20 anos uns e 24 anos outros, como se nada mais houvesse, prova cruel do medo que temos de mudar.

E porque é que temos medo?

Os Açores que foram povoados por gente que deixou tudo e ergueu a civilização no meio do mar. Os Açores aonde os americanos vinham recrutar os baleeiros devido à bravura. Os Açores que vivem em união de facto com sismos e vulcões. Os Açores que recusaram o domínio espanhol, os Açores que recusaram o absolutismo miguelista, os Açores da gente famosamente dura e resistente, que ergue a própria casa, produz a própria comida, enfrenta temporais que, noutro lugar qualquer do país, fechariam estradas e escolas, com o ar de quem sabe que é só mais um dia no mundo e que, em o tempo abrindo, ainda se vai dar um mergulho no fim do trabalho.

Como é que estes Açores foram tão domesticados no plano político que têm hoje medo de abrir um negócio sem passar pelo Governo Regional? Têm medo de se manifestar publicamente contra o PS? Um partido que faz descaradamente propaganda eleitoral com as acções do Governo Regional? Que confunde deliberadamente as duas coisas, como se o orçamento regional fosse o orçamento de campanha do partido? Como é que temos medo de mudar uma política que, depois de 24 anos, deixa os Açores na liderança nacional do RSI e do desemprego jovem?

Que pensaria disto Brianda Pereira? Que pensaria disto Almeida Garrett? Que pensaria disto Ciprião de Figueiredo? Que pensaria disto Dom Pedro IV? Os Açores com medo de mudarem o seu próprio Governo? A Ilha Terceira, com medo de bater o pé a um mero partido político?

Não acreditariam. Não achariam possível. E teriam razão. Não somos assim – não nos podemos deixar ser. Já lã vão 24 anos de socialismo – quanto mais estamos dispostos a esperar até dizer: “se calhar, já é de mais”, “se calhar, já mudávamos”? 30? 40? 50 anos? Quanto mais anos passarem, mais difícil será mudar. Mais o poder desse partido que há tanto tempo ocupa o Governo Regional será absoluto. E teremos sido nós a escolher viver debaixo desse outro “capacete”.

Temos medo de viver sem o dinheiro do Governo Regional? O dinheiro não é do Governo Regional; é dos Açorianos. O dinheiro do Governo Regional é o dinheiro dos Açorianos menos o que gasta na máquina do Governo Regional.

No turismo, no comércio, na agricultura, na ciência, na cultura, na vida em geral, precisamos de liberdade. Precisamos de autonomia da autonomia. Precisamos que nos deixem escolher o que queremos fazer. Precisamos de poder lutar pelos nossos projectos pessoais e enquanto comunidade de uma freguesia, de um concelho e de uma ilha, sem medo de pensar de forma diferente, sem medo de arriscar, sem ter de pedir para tudo o aval do Governo Regional.

Precisamos de ser nós mesmos. Precisamos de liberalismo.

 

Alexandre Borges, escritor e argumentista, candidato a deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores pela Iniciativa Liberal

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