Uma gigantesca tela de luz a 130 metros de altura, composta por drones e pirotecnia vai poder ser vista, no dia 27, nos céus de Gaia e do Porto. Trata-se de um espetáculo inédito em Portugal. São 600 drones (os chamados «Drones da Paz») que participarão numa performance idealizada pelo artista chinês Cai Guo-Qiang, o mesmo que organizou a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.
O Jardim do Morro, em Gaia, foi palco, na passada segunda-feira, da apresentação da performance «One Page», um dos momentos mais aguardados do BABELL – Festival Literário e Cultural, que decorrerá entre 24 e 29 de junho, em diversos espaços públicos de Gaia e do Porto.
Luís Filipe Menezes aproveitou a cerimónia promovida pela autarquia para defender a cultura como um instrumento de desenvolvimento económico, de afirmação identitária e de resposta às ameaças que hoje atravessam o mundo. O autarca lançou ainda um desafio concreto à Fundação Lello, representada pelo seu presidente, Pedro Pinto, propôs que o Jardim do Morro e a sua envolvente se transformem num novo polo cultural da Área Metropolitana, capaz de integrar espaços de lazer, galerias de arte, programação artística permanente e uma livraria de referência. O presidente foi mais longe e sugeriu ainda a realização, em Gaia, de um grande colóquio internacional dedicado a Fernão de Magalhães, reunindo cerca de cinquenta autarcas de cidades e territórios por onde passou o navegador português.
O presidente do município salientou que «perante as ameaças reais que o mundo enfrenta, a cultura deve assumir um papel de resgate do sentido da Humanidade». Menezes ironizou ao afirmar que aquilo a que antes se chamavam «forças vivas», os detentores dos poderes, está hoje subordinado a verdadeiros centros de poder numa escala muito mais vasta, mas simultaneamente menos democrática. Como contraponto, Menezes defendeu que os investimentos culturais devem ser encarados como fatores estratégicos de desenvolvimento.
DRONES E PIROTECNIA
O grande momento do festival acontecerá ao final da tarde de 27 de junho, quando as margens do Douro se transformarem num gigantesco palco ao ar livre para acolher «One Page», uma criação inédita concebida por Cai Guo-Qiang especialmente para o BABELL.
Descrita pelo próprio artista como uma «ponte de olhares», a obra pretende unir simbolicamente Porto e Gaia através da palavra, da leitura e da comunicação entre culturas. Inspirada na ideia de uma página em branco aberta ao mundo, a performance transformará o rio Douro numa tela monumental de luz, movimento e som.
Segundo explicou o comissário do festival, Rui Couceiro, o espetáculo envolverá uma complexa operação tecnológica e artística sem precedentes em Portugal. Ao longo de cerca de 500 metros, um sistema suspenso por balões de hélio suportará fogo de artifício concebido para criar imagens e efeitos visuais sobre o rio. Em simultâneo, cerca de 500 drones luminosos desenharão figuras e mensagens no céu, naquele que será um dos maiores espetáculos de drones alguma vez realizados no país.
Batizado informalmente como os «Drones da Paz», o espetáculo pretende lançar uma reflexão sobre o diálogo entre povos num período marcado por conflitos e divisões. A mensagem enquadra-se na visão de Cai Guo-Qiang, um dos mais influentes artistas contemporâneos do mundo, conhecido pelas suas intervenções monumentais em vários pontos do planeta.
A ARTE COMO PONTE PARA A PAZ
Cai Guo-Qiang nasceu em 1957, na cidade chinesa de Quanzhou e é hoje uma das figuras maiores da arte contemporânea mundial. Ao longo de mais de quatro décadas de criação, construiu uma linguagem artística singular, capaz de unir tradição e inovação, Oriente e Ocidente, memória e futuro.
Formado em cenografia na Academia de Teatro de Xangai, viveu vários anos no Japão antes de se estabelecer em Nova Iorque, cidade a partir da qual desenvolveu uma carreira internacional que o levou aos principais museus e centros culturais do mundo, do Metropolitan Museum e do Guggenheim, em Nova Iorque, ao Museu do Prado, em Madrid, às Galerias Uffizi, em Florença, ou ao Museu do Palácio, em Pequim.
A sua obra é mundialmente conhecida pela utilização da pólvora como matéria artística. Inventada na China há mais de mil anos e posteriormente aperfeiçoada e difundida através das rotas marítimas, nomeadamente pelos navegadores portugueses, que ligaram continentes e civilizações, a pólvora surge no trabalho de Cai despojada da sua dimensão bélica. O artista transforma um instrumento associado à guerra num veículo de beleza e emoção.
Entre os seus projetos mais emblemáticos, para além da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, encontram-se a monumental Sky Ladder, a escada de fogo que parece unir a Terra ao céu, a instalação Head On, uma reflexão sobre os impulsos coletivos da humanidade; e a inesquecível direção dos efeitos visuais da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, acompanhada por milhares de milhões de espectadores em todo o mundo. Mais recentemente, assinou The Last Carnival, espetáculo criado para a despedida do Centro Pompidou, em Paris.
Mas a relevância de Cai Guo-Qiang ultrapassa a dimensão estética da sua obra. Os seus projetos procuram estabelecer pontes onde outros erguem fronteiras, recordando que a arte continua a ser uma das linguagens universais mais poderosas.


