Como dizia Fernando Pessoa, «a memória é a consciência inserida no tempo» e nessa conformidade vem-nos à lembrança, entre outros acontecimentos, o colapso da Enron Corporation, as armas de destruição massiva da guerra do Iraque, a burla Madoff, os espiões da Guerra Fria, as ingerências e invasões de países soberanos.

Os media do establishment, ou seja, duma elite social, econômica e política que exerce forte controlo sobre o conjunto da sociedade, funcionando como base dos poderes estabelecidos e sendo pilar do capitalismo, comandam  no seu próprio interesse e segundo suas próprias concepções as principais organizações públicas e privadas de um País, em detrimento da maioria dos eleitores, consumidores e pequenos acionistas.

Em sentido mais restrito, o termo establishment pode referir-se a um grupo de indivíduos com poder e influência sobre determinada organização ou campo de atividade,  podendo ser encarados como uma grande muralha que exclui perspectivas alternativas da consciência do público e assim confinam a opinião dentro de uma faixa estreita de visões aceitáveis, mas não isentas.

Os media de referência são enormemente poderosos e exercem controlo sobre um espaço vasto do território intelectual, mas tal influência omnipresente também origina que os seus adversários locais sejam numerosos, disseminados e fortes opositores.

Como consumidores, enfrentamos, pois, um inimigo poderoso detentor de meios imensos que recorre à manipulação das novas tecnologias de informação procurando ganhar os trabalhadores e outras camadas antimonopolistas para as suas ideias.

Não vivemos numa redoma e não estamos imunes à brutal ofensiva ideológica, mas não podemos perder a consciência que enfrentamos diariamente uma intensa luta de classes, logo devemos evitar a todo o custo sermos arrastados na desinformação, mentira e intriga.

Os media independentes, não se prestando necessariamente  à propagação da ideologia dos grupos dominantes na ordem social, constituem  o tipo de comunicação social que não está vinculada a compromissos com anunciantes ou instituições governamentais, pois vai em contramão à media corporativa que, frequentemente, distorce os fatos e apresenta uma visão de acordo com quem lhe paga mais.

Quem ler atentamente o «Relatório sobre a elaboração de um plano contra a desinformação» apresentado pela Comissão Europeia em 14 de Junho passado ficará chocado ao verificar que a criação de uma autoridade de censura à escala da União Europeia servirá para punir a difusão de informações consideradas por Bruxelas como falsas e perigosas, só que na perspectiva dos responsáveis a palavra «desinformação» é definida como um processo tendo como objectivo «distrair e dividir, semeando a dúvida através da deformação e a falsificação de factos para criar a confusão e minar a confiança das pessoas nas instituições e nos processos políticos estabelecidos», ou seja, não se trata de colocar o acento nos grandes grupos mediáticos que dia após dia desviam a atenção dos factos reais e deformam a verdade com o objectivo de consolidar as relações de poder existentes, mas sim considerar um desinformador a combater alguém que os ponha em causa e revele como funcionam de facto as instituições da União Europeia.

Nesta luta para estabilizar o domínio do capital e nas vésperas das recentes eleições europeias, a Comissão Europeia conseguiu arrancar aos gigantes da internet como Google, Facebook, Twitter e depois a Microsoft um «código de conduta voluntário de luta contra a desinformação» no quadro de acordos de cooperação, mas não sem ameaçar com acções judiciais se os resultados não forem satisfatórios até ao fim de 2019.

Existirá também um sistema de alerta precoce da União Europeia para identificar as informações falsas que reforça igualmente a sua cooperação com as organizações globalizadas da estrutura económica e militar ocidental, por outras palavras os «parceiros internacionais como o G7 e a NATO».

Para a Comunicação Estratégica funciona a «East StratCom Task Force», activa desde Março de 2015, quando foi preciso criar uma hegemonia ocidental sobre o discurso relacionado com a crise ucraniana, após as imagens inquietantes dos combatentes da direita radical nazi na Praça Maidan, em Kiev, utilizando bombas incendiárias e depois armas de fogo contra as forças da ordem, acções estas que deveriam ser apresentadas como expressão de uma aspiração à democracia e à liberdade, mas este desígnio foi prejudicado uma vez que as reportagens dos meios de comunicação russos em inglês, alemão, francês e espanhol desmontaram essa narrativa.

Em suma e pelo atrás exposto, para os utilizadores da comunicação social fica um sério aviso de procurar distinguir o trigo do joio utilizando as ferramentas existentes que dão acesso aos media independentes.

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