“ Nunca vi uma Lua destas: tão grande, tão redonda, tão gelada!… Se tu pudesses vê-la, Jesus: está toda encarnada…” (Maria do mar na Promessa)

“O Teatro Experimental do Porto estreou A Promessa há sessenta anos, logo a seguir foi proibida por ter aquilo a que se chamou, “religiosidade erótica.”

Neste momento novamente em cena, o texto de Bernardo Santareno, revive com vigor na encenação de João Cardoso/Assedio Teatro que vê no texto não apenas “ a religião, mas sim o drama de uma família, de uma mulher, de vários homens, e de uma promessa de castidade e, por isso, mesmo não foi preciso mudar nada de um texto que não tem data, apesar da idade.”

Bernardo Santareno (pseudónimo literário de António Martinho do Rosário) nasceu em 19 de Novembro de 1920, em Santarém, no Ribatejo, filho de Maria Ventura Lavareda e de Joaquim Martinho do Rosário. Estudou no Liceu Nacional de Sá da Bandeira até 1939, em Santarém, após o que frequentou os cursos preparatórios para a Faculdade de Medicina, na Universidade de Lisboa.

Em 1945 transferiu-se para a Universidade de Coimbra, onde se licenciou em medicina em 1950. Em 1957 e 1958, a bordo dos navios David Melgueiro, Senhora do Mar e do navio-hospital GIL EANES, acompanhou as campanhas de pesca do bacalhau nas águas da Terra Nova como médico. A sua experiência no mar serviria de inspiração a muitas das suas obras, como O Lugre, A Promessa e o volume de narrativas Nos Mares do Fim do Mundo.

“Tal como na imprensa, as leis de censura ao teatro surgem com a Ditadura Militar. Logo em 1927 é criada a Inspeção Geral dos Teatros que fiscalizava todos os recintos públicos onde se realizavam espetáculos ou divertimentos públicos. A esta estrutura competia reprimir quaisquer aspetos que fossem ofensivos “à lei, à moral e aos bons costumes” e por isso tinham poderes para ordenar a suspensão de espetáculos.

Dependente deste organismo funcionava o Conselho Teatral que tinha como responsabilidades a reorganização do teatro Nacional D. Maria II e dar pareceres sobre assuntos do teatro… O Decreto-Lei n. 34590, de 11 de Março de 1945, reorganiza a Inspeção Geral dos Espetáculos e cria um conselho técnico que supervisionava todas as modificações e adaptações nas casas de espetáculos e diversões, e passava as licenças de utilização que eram semestrais (Azevedo, 1999)…

É este o sistema que Marcello Caetano herda quando em Setembro de 1968 substitui Salazar. Uma das suas primeiras iniciativas será a extinção do Secretariado Nacional de Informação (SNI) e constituir, em seu lugar, a Secretaria de Estado de Informação e Turismo dirigida por Moreira Baptista que tinha nos anos 60 presidido à Comissão de Exame e Classificação de Espetáculos.” (Ana Cabrera – Centro de Investigação Media e Jornalismo – A censura ao teatro no período marcelista) Publicada pela primeira vez em 1957, juntamente com dois outros textos de teatro, a peça explora a influência do catolicismo numa comunidade piscatória em meados do século XX.

Levada à cena em estreia absoluta pelo TEP/Teatro Experimental do Porto em 1957, a peça foi retirada de cena, pela censura para voltar aos palcos apenas dez anos depois. No entanto a estreia do jovem dramaturgo (nessa altura com 37 anos!) augurava o início de uma nova época no teatro experimental que se fazia em Portugal, e Santareno, conquistava modestamente, o lugar que nenhuma censura lhe poderia retirar, de ser considerado por muitos, o maior dramaturgo português do seculo XX.

Em 1959 novamente no Tep e sob a direção de António Pedro se realiza a estreia de O Crime na Aldeia Velha. Em 1934, na aldeia de Soalhães, em Marco de Canavezes, uma mulher foi queimada viva por, supostamente, estar possuída pelo diabo, tendo os seus executante em seguida rezado para que a vítima ressuscitasse.

Mais de vinte anos depois, em 1959, esta história foi escrita para teatro por Bernardo Santareno, que também a adaptaria para cinema, para o filme homónimo, realizado por Manuel Guimarães, em 1964. “Obra inicial do Cinema Novo Português, O Crime de Aldeia Velha configura um olhar, de Bernardo Santareno, sobre os rituais do poder e a repressão social sobre a liberdade e a individualidade, além de constituir uma representação dramática e cinematográfica do Portugal do Estado Novo, por parte de criadores que foram, eles próprios, alvo de censura. Este trabalho procura abordar a forma como o poder é representado nesta obra fílmica.”

Saudamos vivamente o regresso ao Teatro Nacional do Porto, a dramaturgia de Bernardo Santareno, um autor que afastado dos palcos profissionais, encontrou(a) eco e voz no teatro amador que se faz em Portugal.

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