Voltamos de novo ao convívio de consagração do grande vencedor do nosso concurso de contos “Um Caso Policial no Natal”, que decorreu no passado dia 25 de maio no restaurante Sabores de Sintra, do músico e cantor de intervenção Fernando Pereira (não confundir com o cantor/imitador, a voz de todas as vozes…), que há muito passou a ser o local preferido da Tertúlia Policiária da Liberdade para as suas jornadas de confraternização, que começaram nos últimos anos por ter por palco a vizinha Taverna dos Trovadores, do mesmo proprietário, para recordar agora um dos nossos maiores cultores divulgadores dos desportos mentais, nomeadamente do Policiário, amplamente reconhecido como um veículo importante no estímulo da leitura e sua interpretação, no desenvolvimento do sentido de análise, do poder de síntese e espírito observador.
Estamos a falar de um cidadão nascido em 1921, que iniciou a sua atividade policiária, em 12 de janeiro de 1947, como orientador de um espaço no Jornal de Sintra, com o título “Mistério e Aventura”, que ele definia em subtítulo como “secção policial”, usando um pseudónimo que descobriu, quando estudante de Liceu, num livro policial, adotando-o até ao fim dos seus dias: Sete de Espadas! E foi com esse nome que andou por vários jornais, revistas e livros, a promover o policiarismo, a literatura policial, o charadismo e as palavras cruzadas, ao longo de seis décadas, cultivando amizades inabaláveis, formando e fidelizando leitores, conquistando milhares de praticantes para o policiarismo, promovendo o gosto pela escrita e pela leitura nos jovens de diferentes gerações, enquanto ia divulgando os melhores autores e ensaístas do género policial.
A sua “obra” maior viria a nascer em 1975, quando, no dia 13 de março, apareceu nas bancas, em todas as papelarias, quiosques e outros pontos de venda de jornais e revistas, mais uma edição do Mundo de Aventuras – uma revista de histórias aos quadradinhos –, que continha nas suas últimas páginas uma secção denominada “Mistério… Policiário”, assinada por Sete de Espadas. E foi a partir deste preciso momento que se gerou um novo impulso no crescimento desta nossa modalidade, envolvendo toda uma geração de jovens, alguns muito jovens, com menos de 12 anos, que geraram um movimento que nos trouxe até aos dias de hoje. E são alguns desses jovens que hoje lhe prestam uma justíssima homenagem com a organização de um torneio que assinala a passagem dos cinquenta anos da criação daquela secção, que decorre no espaço virtual, através dos blogues Local do Crime (localdocrime.blogspot.com), Repórter de Ocasião (reporterdeocasiao.blogspot.com) e A Página dos Enigmas (apaginadosenigmas.blogspot.com).
Associando-nos a esta homenagem, temos vindo a publicar alguns dos problemas que integraram o I Grande Torneio (o primeiro de 25 torneios realizados naquela publicação de Banda Desenhada que fez furor sobretudo entre a “malta” mais jovem durante onze anos), que decorreu entre 4 de setembro de 1975 e 5 de janeiro de 1976, trazendo agora um problema da autoria de Dr. Mistério. E, como sempre, o desafio é que os nossos seguidores leiam com a devida atenção o enunciado do enigma, não dispensando as subsequentes releituras que as dúvidas suscitadas reclamem, de modo que o decifrem com sucesso antes de se publicar a respetiva solução de autor.
Mistério…Policiário, da Revista Mundo de Aventuras
I Grande Torneio
UMA CORRIDA CONTRA O TEMPO
de Dr. Mistério
Numa tarde de março o Inspector Dias sentado na sua cadeira olhava para outro homem sentado na sua frente. Depois de alguns momentos de silêncio o Inspector acendeu o seu cachimbo, levantou-se e começou a falar enquanto andava, com passadas largas, pela sala:
– Oiça – disse o Inspector – você não adianta nada em manter esse silêncio. Temos provas suficientes para o metermos atrás das grades por muito tempo. Se você falasse isso poderia atenuar…
O outro nada disse. Estava imperturbavelmente sentado. Parecia uma estátua.
O Inspector continuou a andar pela sala, pensando:
– «Se este tipo não disser nada, terei que fazer outra busca na casa dele… E se aquela condessa não andasse sempre a chatear-nos por causa das jóias!…»
De repente, o outro, como que adivinhando o pensamento do Inspector, disse:
– Você está muito interessado nas jóias… Isso também o prejudica, não é… Tem de entregar as jóias no dia do meu julgamento… Você nunca o conseguirá. Está a desafiar o relógio, a correr contra o tempo…
– «Ele tinha razão… Se tivesse mais tempo… Não havia outra alternativa, tinha que fazer a busca!»
Eram sete horas quando a busca começou. O Inspector e mais dois dos seus homens passavam minuciosa busca a uma casa magnificamente mobilada.
O Inspector e os seus homens começaram por fazer um plano de busca. O Inspector mais um dos homens ficava na sala, o outro homem ficava nos quartos.
Depois disto, as mãos começaram a trabalhar… Uma hora depois ouviu-se um ding-dong muito ruidoso que saía de um grande relógio de pé alto.
Um dos homens do Inspector afastou-se do móvel que estava a rebuscar e aproximou-se do relógio tentando abrir a portinhola de fechadura que estava na sua base.
– Que é que tu queres encontrar aí?… – pergunta o Inspector. – Talvez um cuco com um colar de diamantes ao pescoço?… Deixa isso em paz!
Eram dez horas quando o Inspector foi para casa.
– «Este arranjou um lugar muito original… Mas qual? Nós rebuscamos a casa de uma ponta à outra…»
O Inspector sentou-se numa cadeira e continuou a pensar…
De repente disse em voz alta:
– Que burro que eu fui! Não me soube servir do indício que ele me deu… Assim, as joias já estariam descobertas…
1 – Onde estariam as joias?
2 – Qual o indício que o Inspector desprezou?


