Numa crónica anterior dei como sugestão a circulação de projetos culturais do movimento associativo local pelas 24 freguesias que compõem o concelho de Gaia, concertando estratégias que promovam a convivência, a interação, a complementaridade, a permuta e até a produção de iniciativas conjuntas, visando o aumento da oferta e o cruzamento de projetos por todo o território. Até porque, na verdade, estas associações permitem já hoje, apesar de todas as condicionantes de ordem técnica e dos constrangimentos de natureza financeira, construir um discurso razoavelmente rico e informado relativamente à criação e produção artística. Mas para isso, é urgente dar-lhes asas de amparo, através de um diálogo de perfil dinamizador que potencie e difunda a oferta dos bens culturais que estes produzem. E isso requer um papel de charneira e incentivador do Município e Juntas de Freguesia, criando os estímulos que se julguem necessários à concretização desse objetivo.
Atrevo-me a dar como exemplo uma iniciativa recente da vizinha Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, que deu corpo a uma experiência curiosa de descentralização cultural, ao desafiar as freguesias do concelho a candidatarem-se a… Capital Concelhia da Cultura. Com esta estratégia, pretende-se dotar as Juntas de Freguesia de um instrumento que lhes permita programar um conjunto de iniciativas culturais que reforcem a animação do território de uma ou (no máximo) duas freguesias (que concorram em parceria), com o envolvimento direto do movimento associativo local, suportado por um apoio financeiro suplementar do município que oscila entre 50 mil e 120 mil euros. Mas, como esta, há outras formas de espalhar o desenvolvimento cultural por todo o concelho, com ou sem a mediação das autarquias de freguesia. E não venham com a estafada desculpa de falta de espaços de criação teatral nalgumas freguesias do interior para concorrerem em condições de igualdade com as de maior dimensão ou com as situadas no centro do concelho.
Aquelas diferenças podem ser aliás colmatadas com alguma imaginação, utilizando, por exemplo, os mais diversos e improvisados palcos, como espaços não-convencionais, ou até mesmo lugares considerados como improváveis (espaços fabris devolutos, centros comerciais desativados ou com lojas fechadas, etc…), antigos lavadouros ou outros lugares públicos, como jardins e demais espaços verdes. O que importa é a riqueza dos projetos e o seu alcance de públicos, através de uma programação eclética, que inclua uma gama variada de expressões artísticas, de todos os géneros, tendências e estilos, que faça conviver criativamente manifestações tradicionais de raiz com realizações de cunho experimental, tendo sempre como preocupação o estabelecimento de pontes entre a comunidade local, artistas e criadores dos projetos, associando aos eventos culturais as mais diversas iniciativas teóricas voltadas para a formação de massa crítica, como conferências e debates, assumindo, com toda a clareza, a democratização da cultura como paradigma de desenvolvimento.
Até porque os municípios têm agora uma importante ferramenta para colmatar todas as diferenças. Refiro-me mais uma vez ao Plano de Ação para a Cultura Norte 2030, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), que lançou recentemente a constituição da Rede Regional de Centros de Criação, uma ação-piloto que visa consolidar e dinamizar os “ecossistemas criativos da região”, com uma dotação de 4,8 milhões de euros e taxa de cofinanciamento de 80%, destinada à instalação de centros intermunicipais de criação artística contemporânea. Com essa medida, pretende-se, segundo o vice-presidente da CCDR-N para a Cultura, “reforçar o pulmão de criação do Norte, respondendo a uma das maiores carências identificadas: a falta de espaços tecnicamente qualificados para a criação artística”, não se constituindo apenas “um investimento em infraestruturas”, mas sobretudo um “investimento em talento, inovação e sustentabilidade”.
É que, conforme salienta aquele responsável da CCDR-N (Jorge Sobrado), “a cultura não se faz apenas de memória e património [vetores também apoiados com a mesma dotação noutra área deste Plano de Ação para a Cultura Norte 2030]. Faz-se também de risco, de experimentação e de futuro”. E estes centros de criação “são espaços para isso: para investir no nosso potencial artístico e dar-lhe espaço, tempo e condições para florescer”. Para atingir o objetivo pretendido, estes centros de criação deverão ser fundamentalmente lugares de acolhimento de estruturas e criadores com atividade continuada ou em formação, oferecendo condições para residências artísticas, estúdios técnicos, black-boxes para mostra de projetos.
As candidaturas elegíveis nesta área de apoio incluem operações de reconversão e requalificação de espaços existentes, a aquisição de equipamentos técnicos e a contratação de recursos humanos qualificados. E estão abertas, até 5 de setembro de 2025, a municípios, entidades intermunicipais, administração central e entidades do setor empresarial público e privado sem fins lucrativos, desde que integrados em protocolos de cooperação com as autarquias. Pelo que espero que a presidente em exercício da Câmara de Gaia não se sinta condicionada por estar em fim de mandato e avance com uma candidatura a este programa, auscultando os candidatos com maiores probabilidades de ascender ao lugar que hoje ocupa.


