Vânia Dilac é natural de Moçambique, mas vive em Ponta Delgada desde os três anos. A música foi entrando na sua vida através do coro em que participava da igreja evangélica. Passou por diversos palcos açorianos e chegou à final da 6.ª edição do concurso de talento “The Voice Portugal”, tendo ficado por muitos conhecida como “o furacão dos Açores”. O AUDIÊNCIA falou com a artista, à procura das suas raízes e também das suas ambições.

Em primeiro lugar, Vânia, “Dilac” é o seu nome artístico. Pode contar aos leitores como surgiu este nome?

A minha mãe é moçambicana, de uma terra chamada Quelimane. Ela tinha um pai espetacular, um homem muito distinto que se chamava António Condilac, mas ela não herdou esse nome. A minha mãe é Adelina do Rosário. Quando decidi ingressar no mundo da música, não queria ser chamada por Vânia Câmara. Adoro o meu sobrenome, é o nome do meu pai, mas achava que não era um nome sonante enquanto artista. Eu tenho a mágoa de não me recordar do meu avô, porque saí de lá com três anos e ele morreu pouco tempo depois. É uma maneira de honrá-lo, assumindo uma parte do nome dele. Achei que Vânia Condilac era muito, mas e que tal Vânia Dilac? Ficou.

Com raízes moçambicanas, veio para cá muito cedo.

Nasci 17 de dezembro de 1980, em Quelimane, a terra da minha mãe. Vim para cá com três anos, na altura da descolonização… quando viemos para cá a violência contra os filhos de mistura, os “mulatos”, que era o meu caso, aumentou muito. O meu pai temeu pela vida dos seus filhos e por isso achou por bem voltar para a sua terra natal como forma de nos dar um futuro diferente, um futuro melhor. Apesar de eles terem vivido muito bem e terem tido uma vida muito estável, acabaram por perder toda a sua riqueza, que foi tomada à força. Na Maia nem ficámos seis meses. Para uma mulher que vinha de uma zona que era bastante desenvolvida (na altura Moçambique era muito desenvolvido a comparar com os Açores), a minha mãe achou que devia viver no centro. Então, rapidamente viemos viver para Ponta Delgada, mais propriamente para os Arrifes.

Foi em Ponta Delgada que estudou?

Sim, até ao secundário, o curso que tirei no INOVA e também quando ingressei na universidade, ainda que não tenha completado o curso. A minha vida foi toda cá.

Arrepende-se de não ter completado um curso superior?

Arrependo. Eu fui para a universidade por uma questão de pressão social… normalmente as pessoas da minha cor não têm muita escolaridade, e também porque é importante tirarmos uma licenciatura e termos um canudo da mão… realmente é importante, tanto é que estou a imprimir esse sentimento no meu filho, mas hoje, com a idade que tenho, percebo que quando não estamos no lugar certo, por melhores que sejamos tecnicamente, acabamos por não ser felizes. Eu fui para um curso de gestão, com o qual não me identifico hoje. Se calhar não terminei por causa disso.

Adorava ter tirado uma licenciatura em moda, gosto muito de desenhar e de fazer costura. Ninguém sabe isso. Eu gosto de fazer costura. Teria sido muito mais desafiante e teria terminado a licenciatura, portanto, arrependo-me de não ter completado um projeto porque sou uma pessoa que quando começa uma coisa, gosta de acabar. Mas também sei que tive que interromper porque a música entrou na minha vida repentinamente e tomou conta do espaço.

Como é que começou a cantar?

Comecei a cantar com cinco anos, numa igreja evangélica, que foi para onde os meus pais me levaram. Daí a cultura do gospel estar muito entranhada em mim e por consequência o blues e o soul. Depois comecei a fazer parte dos grupos de jovens… a voz começou a ganhar alguma dimensão apesar da minha timidez. Depois comecei a compor… Mas sentia necessidade de cantar fora da igreja, o que foi muito atrevido para a altura da qual estamos a falar, há eventualmente 23 anos.

Fui para um concurso de karaoke num restaurante. Fiquei em segundo lugar. O Luís Alberto Bettencourt estava lá, ouviu-me, convidou-me para participar no disco dele e quando foi para o apresentar no Coliseu Micaelense, põe-me a cantar dois temas, a abrir e fechar o espetáculo, o que me deu uma projeção enorme. Ele obrigou as pessoas a verem e ouvirem a Vânia. Nunca me esqueço daquela noite no Coliseu, que era o aniversário de um jornal. Entretanto toda a gente ficou a pensar “quem é esta mulher que o Luís descobriu?”. Isto foi em 2009, por aí, há 10 anos. A partir daí também o Zeca Medeiros e o Aníbal Raposo me convidaram para participar nos seus projetos.

Depois disso aparecem os ‘Connection’ que me convidaram para ser vocalista. Foram três anos de grande aprendizagem. Também ia cantando em bares e casamentos. Acabei por formar a minha banda, mas tocávamos em projetos associados a noites de verão, concertos mais intimistas e pequenas atuações.

Alguns artistas que vinham de Lisboa ou de outros sítios para cá, que queriam ter um artista de cá para uma parceria, acabavam por me convidar. O Paulo de Carvalho, por exemplo. Por causa do Zeca Medeiros acabei por fazer um trabalho com o Jorge Palma, também fiz com os HMB, o Luís Represas também me convidou mas acabou por não vir cá. Pensava “mas como é que esta gente me conhece?”. Pelos vistos os discos do Zeca Medeiros acabaram por chegar mais longe do que aquilo que pensava. Pensei “porque não criar um projeto meu?”. Criei a banda e também o grupo gospel [Magma Gospel] que fazia frente a vários tipos de convites.

Claro que o “The Voice” deu-me aquela alavancagem que estava a ser precisa. Porque entretanto estou há cinco anos a trabalhar no disco. Apesar de ter um apoio da DRJ, o resto é com dinheiro próprio. Como o disco ia ficar pronto, pensei em ir ao concurso, porque quando lançasse o disco já iam conhecer-me e lembrar-se de mim.

A Vânia tem noção da voz que tem?

Sim.

Ir ao “The Voice” foi uma surpresa no momento em que todas as cadeiras se viraram?

Eu tinha a rara esperança de que pelo menos uma cadeira se virasse. Tinha a esperança no Anselmo Ralph. Ele também é evangélico, ia perceber a música (“Amazing Grace”) e ia identificar-se. Também pensei na Aurea: ela é uma cantora soul, ela vai entender a minha linguagem. Mas nunca pensei naquele espalhafato todo, e deu-me gozo. Podia não parecer, mas aquele meu estar calada significava que estava mesmo muito emocionada.

Já foi para o palco com uma escolha feita?

Já. Todos nós vamos, a menos que um seja bloqueado. Confesso que se a Marisa Liz não fosse bloqueada, teria sido difícil. Hoje vejo, depois de tudo o que aconteceu, ainda bem que não fiquei na equipa dela porque teria saído bem mais cedo.

Chegou à final.

Sim, fiquei em quarto lugar.

Muita gente, sem serem os açorianos, apostava em si.

Sim, porque durante todo o meu percurso – e isso posso dizer -, era aquela pessoa que cantava, podia desafinar ou não cantar o que queria, mas as pessoas aplaudiam-me de pé. O público escolheu-me sempre, não precisei da votação do mentor para passar… Tive mais de 60% do público a votar em mim. De todos os concorrentes, eu e a Soraia Cardoso fomos as únicas que sem a votação do seu mentor tinham seguido em frente.

Não estava à espera de ganhar, sinceramente. Mas estava à espera de ficar no pódio. Alguma coisa aconteceu… também a primeira música que cantei na final não encheu como as outras encheram. Estou tranquila com o resultado. Sei é que, por todo o meu percurso, muitas pessoas ficaram surpreendidas com o que aconteceu.

Valeu a pena?

Valeu. Quem chega à final de um programa deste tipo, já ganhou. O que eu queria consegui: consegui manter-me na televisão e na casa dos portugueses o máximo de tempo possível.

Foi assim: eu fiz a prova cega e disse “se calhar não passo nas batalhas”. Passei. Agora a meta são os “tira-teimas”. Passei. Depois pensei: “na segunda gala devo ir embora”. Passei a primeira, passei a segunda, passei a terceira, estou na final. Aquilo foi surreal, mas a minha prova cega foi a minha grande vitória. Foi ali que a Vânia mostrou quem era. O resto tem que ver com produção… tenho orgulho no que fiz.

O “The Voice” é muito recente. O que é que tem que fazer para continuar lá em cima?

É muito difícil estar sempre lá em cima no meio da música. Honestamente, é continuar a fazer o que tenho feito. O meu percurso tem sido lento, difícil, de passos muito pensados e de um crescimento muito gradual. Isto representa tempo. Cresci muito devagar e quero continuar assim. As carreiras que são construídas desta forma são as que tendem a durar mais tempo. Porque vai-se conquistando o público, devagarinho, mas é o meu público. Eu já sinto que aqui tenho o meu público e nos Estados Unidos também já tenho. Falta-me o Continente.

Como surgiram os vários convites internacionais este ano?

Espanha foi através da Banda Fundação Brasileira. Eles tinham um protocolo com uma orquestra de lá e ouviram que eu participava com a Fundação. Sabiam que eu era concorrente do “The Voice” e tiveram todo o gosto em pagar-me a passagem para ir com eles.

Para Montreal, Canadá, viram-me na televisão e contactaram-me pelo Facebook. Para New Bedford, foi através de uma parceria que também já tinha e surgiu o convite para ir cantar. Fiz muito sucesso no “The Voice” lá, também no Brasil e Angola. O Anselmo Ralph estava certíssimo que eu ia ganhar por causa disso. Recebo muitas mensagens hoje em dia, especialmente do Brasil, por causa do “The Voice”. Não sei se o programa passa lá, não sei o que aconteceu, mas no Brasil e em África foi um ‘boom’. A minha tia, que vive em Angola, diz que muita gente me conhece lá.

E aqui? Houve alguma diferença?

Até hoje.

Este ano foi convidada para ir a mais festivais que nos anos anteriores.

Muito mais. Aliás, só tinha cantado no Santa Maria Blues, foi o único festival de grande dimensão que tinha feito. Já fiz concertos de grande dimensão, mas no exterior o público é mais difícil. É um público mais jovem. Para dar um exemplo, eu cantei músicas do Prince e pensavam que eram originais meus… é um risco.

O que é que uma pessoa que gosta de música e desse género de música sente nestas alturas?

Sinto que tenho uma grande responsabilidade, que todos os músicos têm uma grande responsabilidade, os promotores e as autarquias também. A cada festival que fazemos, todo o conceito que é criado à volta dele (seja musical ou de logística), estamos a fazer cultura e a educar um público. Estamos a fazer com que os nossos jovens associem a cultura a isso, ou a única e exclusivamente ao atirar os bolos… tudo tem lugar. Não estou a criticar. O que é importante e eu, enquanto cantora, tenho essa responsabilidade, é de fazer os miúdos perceberem que a música é isso, mas não é só isso. Não há mal em gostar de jazz, há muito free jazz, street jazz que é moderno.

Há falta de conhecimento?

O meu filho gosta de blues. Há autores de música mais contemporânea que misturam, por exemplo, rap com géneros mais antigos, mas ele só gosta porque foi obrigado a ouvir vários géneros. Por isso acho que todos os músicos, promotores, autarquias e o Governo Regional, todos nós, temos responsabilidade na forma como estamos a moldar a cultura no nosso país e nos nossos jovens. A cultura é feita de pessoas e daqui a dias ninguém sabe o que é jazz.

No contexto Açores, vivemos numa sociedade que tem muitos e bons músicos. Aqueles que nomeou, Aníbal Raposo, Luís Alberto Bettencourt…

E não só. Temos os The Code, os Prisma… bandas mais recentes e que têm muita qualidade.

O que é que se pode fazer a cantores e bandas desse género para chegarem mais perto dos jovens?

Precisam de ter oportunidade. Oportunidade de tocarem num festival grande sem ser num palco escondido num horário a que ninguém vai, porque é isso que acontece muitas vezes. As pessoas precisam de oportunidades. Outra coisa que é muito importante para os músicos e promotores perceberem é: eu estava cheia de receio este ano em apresentar o reportório que apresentei. Percebi: “fui para o Chicharro, fui para ‘as Marés’, fui para o São João da Vila… e curtiram a minha música! Pensaram que eram originais, mas curtiram a minha música. Aí percebi: nunca subestimar.

Temos que dar a oportunidade às pessoas de se apresentarem, e os artistas também têm de saber pegar no público. Tenho a certeza absoluta que o Luís Alberto Bettencourt haveria de fazer um reportório adequado para um festival. Ele é muito interativo. Toca muito reggae, e a malta nova gosta. Porque não? Iam gostar!

Há um álbum ainda a ser lançado. Como surgiu, onde foi gravado…?

Captação e parte da produção foi na Oficina da Música, com o Paulo Melo. Foi onde começou tudo. Eu fiz as músicas e passei-as ao meu produtor oficial, António Feijó, um contrabaixista exímio. Depois fizemos toda a parte de captação, passámos para a pate de mixagem e masterização. A mixagem ficou assumida pelo Emanuel Cabral, o meu técnico de som. Estamos a terminar esta parte para a masterização ser feita na Alemanha, pelo Tommy Newton, que vai dar o toque final ao som do próprio disco, que se vai chamar ‘Secret Soul Sounds’. E porquê? Porque uma das primeiras entrevistas que dei para perguntaram-me: “por onde andavas? És uma cantora em segredo.”. Eu disse que sim, que cantava o que me ia na alma, essencialmente, e que o fazia muito em segredo. O título também tem que ver com o registo do disco. Soul, R&B, influências de Gospel, Blues e até de Pop Rock.

Quantos temas?

Tem 11 temas.

Tudo em inglês?

Tudo em inglês pelo género que trata. Lá está, foi o que me veio na alma na altura, foi o que eu fiz. Sou muito fiel ao que eu sinto. É o que sinto, é o que vou fazer.

Já há algum ‘single’?

Em 2012 lancei o meu primeiro ‘single’, “Such a Fool”, que foi o que me valeu para ir ao festival de Blues em Santa Maria. É um soul funky, mas já não está igual, tivemos que mexer para alinhar ao resto do disco. Tenho outros temas que prefiro muito mais e acho que vou surpreender.

Quais são as expectativas para este álbum?

Levar-me pelo mundo fora. Acho que vai ser um sucesso. Quando digo “sucesso”, não falo de um sucesso para grandes massas. O meu disco não é para massas porque não sou uma cantora de massas. Tenho noção que o meu público é mais restrito. Acho que vai ser um sucesso, uma surpresa muito agradável, e que é diferente de tudo o que foi feito nos Açores e também a nível nacional pode distinguir-se em alguns aspetos.

Tem o sonho de dar o salto?

Tenho. E só não o darei se não poder. Mas é complicado… sou mãe e gosto muito do meu trabalho. Não é qualquer coisa que me fará arrancar daquilo que eu faço, mas naturalmente que o sonho é ser cantora, mas não só. Gosto muito de associar outras coisas à música… vão ver em alguns temas meus chamadas de atenção a nível social. Gosto muito de trabalho social e gostava de associar a minha carreira artística a essa parte.

Quem é que a inspira?

Em primeiro lugar Deus e Jesus Cristo. Vivo em todas as minhas músicas o bem da alma. A parte espiritual é muito importante para mim. Sem Deus não sou a mesma Vânia, e sei distinguir porque já tive fases em que não o tinha muito presente na minha vida.

Em termos de música, todos aqueles que cantam e que me fazem sentir alguma coisa; as pessoas que fazem as coisas de forma gratuita. A minha mãe é uma grande mulher, a minha irmã é uma mulher que dá sem esperar nada em troca. Todas as pessoas da minha família inspiram-me.

Tenho um casal de amigos que são músicos e vivem nos Estados Unidos da América. São duas pessoas muito humildes. Quando vêm cá, vão tocar para a rua só para animar e tocar as pessoas.

Há outra grande mulher que é um exemplo para mim, a Miriam Taylor. É uma guerreira e uma grande ativista em tudo o que tenha que ver com racismo, feminismo e minorias.

São várias as pessoas que me inspiram. Há uma coisa comum a elas todas, incluído Deus e Jesus Cristo: serem verdadeiras e genuínas. Pessoas que não estão preocupadas com o serem moldadas pela sociedade. Eu encontrei isso naquilo que quero ser. Se eu tiver que mudar de Vânia para ser cantora, prefiro não ser cantora.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com