Retomamos o nosso Torneio de Iniciação A. Raposo com a publicação de mais um problema da autoria do seu patrono. A sua ação centra-se numa viagem de comboio a Paris com mais de quatro décadas para uns dias de férias de Tempicos. Ele havia conhecido Nelinha há muito pouco tempo e quis impressioná-la com um banho de cultura. O Museu do Louvre, a Praça da Concórdia e o Arco do Triunfo, foram alguns dos locais que preencheram aquela viagem a Paris do famoso casalinho de namorados. Quem os visse nessa altura, embevecidos e em constantes trocas de carícias e beijos, não diria que aquele romance chegaria ao fim em menos de nada. Mas isso agora não vem ao caso!

O que vem ao caso é o tempo destinado aos “leitores-detetives” para fazerem chegar ao orientador da secção uma proposta de solução ao problema, respeitando as questões suscitadas pelo seu autor, pelo que recordamos os habituais retardatários que têm apenas 15 (quinze) dias para o fazer, através do email salvadorpereirasantos@hotmail.com. Isto vem a propósito de alguns atrasos verificados no envio das propostas de soluções ao primeiro problema do torneio, situação que não pode ocorrer a partir de agora, de forma a que possamos respeitar a calendarização da publicação das respetivas “soluções de autor”. Recordamos, entretanto, os nossos “leitores-detetives” que este torneio policiário de decifração é destinado prioritariamente a principiantes, mas aberto também à participação dos mais experientes, sendo por isso constituídos dois grupos com classificações e processos de avaliação distintos, como se refere mais pormenorizadamente no fecho desta edição.

 

TORNEIO DE INICIAÇÃO A. RAPOSO

Prova nº. 2

“Memórias de Tempicos (Férias em Paris)”, de Raposo & Lena

Já lá vão mais de 40 anos, é verdade, mas recordo com muita saudade. Eu e a Nelinha fomos a Paris, de comboio, como dois passarinhos. A viagem era muito longa e maçadora. A esta distância até nem me parece tanto. Daquela noite, às escuras, no comboio, ainda hoje tenho nos lábios o gosto doce a rebuçados que fomos trincando a meias.

Tinham-me saído uns tostões na Lotaria. Tirei uns dias de férias sem vencimento na PJ e lá fomos de abalada. Ficámos numa pensão barata da rive-gauche, comíamos pelos bistrots baratinhos, mas vimos tudo. Paris estava a nossos pés.

Recordo-me de uma tarde bem passada no Louvre. Longas horas a coscuvilhar todas as salas.

Naquela altura eu já teria uns 40 anos e a Nelinha não mais de 20. Estávamos bem um para o outro. Eu já tinha fama de malandreco, ela a ingenuidade dos verdes anos.

Subimos os degraus do Louvre à descoberta da arte. Era grande a nossa sede de cultura. No topo da escadaria, uma estátua enorme marcava a sua presença. Era em pedra, um corpo de mulher esculpido e no lugar dos braços umas asas. O nome já não me ocorre, mas sei que foi encontrada numa ilha no mar Egeu.

Sei que não estou a fazer confusão com a Vénus de Milo, esta última infelizmente fi motivo de vandalismo, tendo-lhe um visitante quebrado os braços, inutilizando-a.

Seguimos para ver a pintura. Salas e mais salas, quadros e mais quadros, um festival para os olhos. Aqui sucedeu um caso interessante. Ao verificarmos mais detalhadamente um quadro da Idade Média, cujo autor já se me varreu, mas que retratava um garoto descalço com um açafate contendo frutas e legumes, disse à Nelinha: “Estás mais corada que os tomates do açafate”. Reconheço hoje que não são coisas que se digam às senhoras. Ela não achou grande piada.

Como já estávamos com alguma fome, resolvemos sair e viemos comer umas sandes sentados nos degraus da entrado do museu, perto do local onde anos depois vieram semear uma pirâmide em vidro que não casa muito bem com o estilo do edifício circundante. Outros tempos, outros costumes.

Meti a mão no bolso para contar o que restava de francos. Nelinha, vendo as moedas, lembrou-se: “Olha, tenha em casa uma moeda de prata muito bonita. O seu nome é thaler e é de 1780, de Maria Teresa de Áustria. Foi usada em muitas áreas, África do Norte e Próximo Oriente.”

Não só acreditei como lhe contei a seguir a minha história de colecionador: “Tenho uma moeda de baixo valor facial, conhecido por ‘Marcelinho’. Um pobre tostão (X centavos) de alumínio, de 1969. É um pouco maior que as suas congéneres da época. Porém, deve-se ao facto de ser um ensaio. Assim sendo, esta moeda acabou por ser a mais valiosa da minha pobre coleção.”

A Nelinha pareceu também não engolir a história, mas sorriu, condescendente. De repente, resolveu dar uma corridinha pelo terreno circundante e colocar-se junto ao Arco do Triunfo, que está ali mesmo ao pé. Tirei-lhe a foto que estava a pedir. É a única que tenho da nossa viagem a Paris. Está ainda hoje no meu álbum das fotos antigas e tem a legenda “1972. Arco do Triunfo. Jardim das Tulherias. Após visita ao Louvre com a Nelinha.”

Naquele fim de tarde ainda arranjámos tempo para irmos até à Praça da Concórdia. No meio, um enorme pilar de quatro faces, que decorava o local, mandado construir por Napoleão para comemorar a vitória na batalha de Waterloo.

No dia seguinte fomos ver a obra de Toulouse-Lautrec noutro museu, onde vimos o quadro da Jane Avril dançando. Ela estava para Lautrec como a Nelinha para mim, a expressão mais acabada do ideal feminino. Depois veio o 25 de Abril de 1974 e a Revolução e perdi a Nelinha. Ela foi atrás de alguém, mais vistoso e com farda. Nunca mais a vi.

É a vida!

Pergunta-se: qual era a estátua que em vez de braços tinha asas? Existiram as moedas mencionadas? Há mais alguma inverdade histórica no texto?

 

PROCESSOS DE AVALIAÇÃO

As soluções dos “detetives” com menos de 3 anos de atividade na modalidade (Grupo de Iniciados) serão avaliadas através da atribuição de 5 a 10 pontos, correspondendo 5 à simples presença e 10 à solução integral do problema, sendo as pontuações intermédias definidas de acordo com o grau de resolução. No caso dos “detetives” com mais experiência (Grupo Especial), a avaliação distinguirá as três melhores soluções de cada prova com 10, 8 e 5 pontos. Em ambos os Grupos, serão vencedores os concorrentes que acumulem no final um maior número de pontos.

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