Desde o passado dia 17 de abril que a Bienal de Gaia está de volta, uma organização da Cooperativa Artistas de Gaia, com o apoio da Câmara Municipal de Gaia e, pela primeira vez, do Governo. Em entrevista ao AUDIÊNCIA, Agostinho Santos, diretor da Bienal, explica que a descentralização da cultura é um dos objetivos da iniciativa, motivo pelo qual esta 4ª edição tem como polo principal a Fiação de Lever. Além das exposições, o evento, que se prolonga até dia 10 de julho, contará com debates, colóquios, ateliers e outras iniciativas culturais e recreativas.

 

 

Este ano a Bienal sofreu uma expansão, com oito polos divididos pelo país e mesmo a extensão no local principal passou para três pavilhões. Sentiu que havia essa necessidade de aumentar?

Esta Bienal é diferente das outras porque é uma Bienal que se preocupa com os outros. É uma Bienal que aborda temas sociais, que convoca os artistas, chama a atenção dos artistas para a necessidade de terem um papel fundamental na denúncia e chamada de atenção para aquilo que vai mal no mundo. Então, apesar de não ter um tema em concreto, temos vários temas, apelamos, por exemplo, para as questões da violência, da violência doméstica, das desigualdades entre o homem e a mulher, das desigualdades humanas entre os ricos e os pobres, a questão dos refugiados, da guerra, a necessidade da paz, a democracia que nunca foi tão preciso, nos últimos anos, lutar pela democracia e pelas virtudes da democracia, a importância e a necessidade de defendermos a Constituição, que este ano assinala os 45 anos… Enfim, todo um conjunto de situações que entendemos que os artistas têm a obrigação e o dever de chamar à atenção através da sua obra. E em cada ano vamos tentando melhorar e costumo dizer que para nós a Bienal é uma espécie de uma escadaria com vários degraus, e cada edição é um degrau, e em cada degrau vamos construindo um degrau melhor, mais eficaz, com mais qualidade e mais funcional, indo ao encontro das pessoas. Portanto, vamos tentando melhorar sempre.

 

E esta decisão de, nesta edição, tentar destacar os artistas homenageados com um pavilhão?

A Bienal está a aumentar de ano para ano quer a nível de exposições, quer a nível de obras, quer a nível dos artistas. São 509 artistas, 24 exposições, e mais de duas mil obras. Aqui e nos oito polos, em oito municípios. Saímos de Gaia e vamos a Gondomar, a Monção, à Madeira, a Alfândega da Fé, Vila Flor e Santa Marta de Penaguião. E como vamos aumentando, naturalmente que é preciso mais espaço. E este ano é a maior Bienal de sempre também em área geográfica, com cerca de 6 mil metros quadrados. Somos a bienal mais jovem do país, mas já somos a maior por uma questão muito simples, porque Gaia é uma terra de artistas, que já vem de outros séculos, desde Soares dos Reis, Teixeira Lopes, Guilherme Camarinha, e muitos outros até aos dias de hoje. E é uma terra que tem uma cooperativa, a Artistas de Gaia, precisamente porque continua a haver muitos artistas e havia a necessidade de se juntar. E faz todo o sentido depois fazer a Bienal que se preocupa com os outros, ou seja, uma bienal solidária porque estamos num município solidário, que se preocupa com os mais desprotegidos. Um município que tem programas específicos para crianças e famílias desfavorecidas.

 

Assim como na questão da violência doméstica, é um município que tem investido muito nessa área…

Exatamente, é um município que tem apostado muito nas questões sociais e, portanto, faz todo o sentido termos uma bienal que se preocupa com estas questões sociais e desafia os artistas a pintar, a esculpir, a fotografar e a desenhar temas relacionados com isso.

 

E as obras sobre estes temas acabam também por fazer com que as pessoas se identifiquem mais com elas…

Não, não é por isso, por acaso até acho que é o contrário. Acho que, de uma maneira geral, agora estamos a dar o passo, mas fazendo um ponto da situação, qualquer pessoa não quer ter na sua casa um quadro com uma senhora com o nariz a sangrar. Ninguém fica confortável a jantar e ter um quadro desses ali, ou um sem abrigo, ou uma criança refugiada… as pessoas, tendencialmente, foram educadas para o belo, para ter um quadro em casa muito bonitinho e a condizer com os cortinados. E nós queremos inverter isso, achamos que o artista plástico pode e deve ter o dever de contribuir para melhorar o mundo. Não para mudar o mundo totalmente, não consegue, mas chamar a atenção, quer à população quer aos senhores do poder político e económico, para os males que vão no mundo. Portanto, temos consciência que estes temas que convocamos aqui não são fáceis, mas a nossa ideia é de edição em edição passar a mensagem que a arte também é isto, uma arte com mensagem, com força, com um grito e uma voz que se levanta e que abana as consciências e as mentalidades. É isso que nós queremos, que o público que venha à Bienal saia daqui com esse espírito, que não diga ‘ai que quadro bonito’, embora claro que se pode juntar o útil ao agradável…

 

Mas que leia a mensagem por trás, não é?

Exato. Que a entenda e absorva. Queremos levar as pessoas a refletir, a analisar, a meditar sobre as obras que estão aqui. Esse é o maior elogio que nos podem dar. E por isso digo que é uma bienal diferente das outras. Depois, também acho que faz todo o sentido fazermos uma bienal em Gaia que como disse é um município solidário, e esta bienal é organizada pelos Artistas de Gaia com o apoio da Câmara de Gaia e pela primeira vez com o apoio do Governo. A DGARTES apoio-nos e encaramos esse apoio, que é muito importante, mas acima de tudo encaramos como um incentivo e ao mesmo tempo a um reconhecimento pelo que temos vindo a fazer desde 2015, que foi o ano em que se realizou a primeira exposição, até agora. Mas nós somos ambiciosos e não queremos ficar com os braços cruzados e queremos continuar a construir a nossa bienal por isso é que digo que a nossa bienal está sempre em movimento, em contínua inquietação e agitação porque nós queremos mais no sentido de mais qualidade, com mais artistas, e que a bienal assente numa palavra forte que na nossa opinião é muito importante, que é o diálogo. O diálogo entre tudo, isto é, o diálogo entre os novos e os velhos, os artistas mais consagrados como o José Rodrigues, o Ângelo de Sousa, o Lagoa Henriques, o Siza Vieira, o António Joaquim ou o Cruzeiro Seixas com os jovens acabadinhos de sair das Belas Artes. Porque nós também entendemos que é importante juntar no mesmo espaço gerações diferentes, linguagens diferentes e por outro lado também pô-los em contacto e por o mais conhecido com o menos conhecido, originar um diálogo é importante porque os mais novos também precisam de espaço e de oportunidades. E a nossa função, como Bienal, também é essa, e além do diálogo há outra coisa que também é importante. A filosofia da nossa bienal é não olharmos só para o nosso umbigo. Nós queremos, e temos muito orgulho em Vila Nova de Gaia, na nossa terra, mas a bienal já não é só de Gaia, é uma bienal internacional desde a 2ª edição, temos agora 17 nacionalidades, e fizemos uma coisa que acho que é importante que é, não olhar só para o nosso umbigo, isto é, saímos da nossa zona de conforto, de Gaia, assumimos como sendo uma bienal de Gaia mas também da Área Metropolitana do Porto e da região Norte, achamos que nesta zona há uma lacuna neste tipo de bienal, portanto, estamos a colmatar essa lacuna e, ao mesmo tempo, saímos da zona de conforto, alem de contribuir por ir para um sitio que não está no centro, vimos contribuir para a descentralização, numa zona mais interior, fazemos outra coisa que é ir a 8 municípios onde nem sempre se faz, com a frequência desejável, exposições de arte e colóquios e conversas sobre arte. Por isso é que levamos os nossos artistas a dialogar com a gente de lá e mais, e essa também é a filosofia dos polos, em cada município onde fazemos uma exposição, geralmente, há também artistas locais, que se põe em contacto connosco e já têm acontecido experiências interessantíssimas. Já estão aqui artistas, na nave central em Gaia, oriundos desses polos. Porque nós também funcionamos como uma espécie de “olheiros”, andamos pelo país e pelo mundo, a ver onde estão as melhores obras. Por exemplo, ainda recentemente fui a Vila Flor e deparei-me lá com obras espetaculares, algumas que ficavam muito bem aqui. Vamos lá, registamos o nome, tentamos entrar em contacto com esses artistas e depois chamámo-los para a próxima edição. Daí a necessidade de querermos mais espaço porque estamos sempre a aumentar.

 

Este ano, ao contrário do habitual, houve dois concursos. O concurso internacional que contou com mais de 200 participações…

Sim, o concurso internacional teve mais de 200 participações e o outro 187. São os dois internacionais, mas o normal, aquele que fazemos sempre, foram mais de 200. O do Corona Vírus foi um pouco menos, mas chegou quase às 200 participações também.

 

Ou seja, também tem vindo a crescer?

Tem, este ano, pela primeira vez, fazemos dois concursos internacionais, porque a forma de nós termos também a participação ativa de artistas internacionais é mandarmos o regulamento para as associações de artistas de todo o mundo, colocarmos as nossas redes sociais, dar a conhecer o regulamento e esperar que os artistas de vários cantos do mundo concorram. Além dos portugueses, claro. E depois disso ainda temos uma série de exposições de artistas convidados, as temáticas, sobre a paz, sobre a democracia, mas o concurso para as pessoas apresentarem a obra que depois é submetida à apreciação de um júri, aí entendemos que é fundamental o concurso. Então, fizemos esse concurso habitual e, no ano passado, fruto da situação que estávamos a viver, achamos que podia ser um instrumento, porque na altura não tínhamos a certeza mas agora temos, e ainda bem que o fizemos, ainda bem que lançamos esse repto aos artistas, que a situação era, e nalguns casos ainda é, muito dramática, as pessoas não podiam sair à rua, estávamos em confinamentos, as galerias estavam fechadas, ninguém comprava arte, e as pessoas estavam a passar dificuldades, como noutros setores. Há artistas que passaram muitas dificuldades, sobretudo os que viviam da pintura e da arte em geral porque não podiam fazer exposições. Então nós tínhamos uma solução, ou também íamos para confinamento ou tentávamos dar a volta, ou tentar contribuir para dar a volta incentivando os artistas, abanando-os e dizendo que o mundo não acabou, e para fazerem alguma coisa sobre o vírus, usarem a imaginação e a criatividade, tentarem “dominar” o vírus através da pintura, da escultura, da fotografia e do desenho. Por isso se chamava “Corona Vírus não destrói a criatividade: reações e consequências”. Claro que numa altura em que estavam a morrer todos os dias muitas e muitas pessoas, claro que o ambiente não era bom, e eu próprio também me assustei e levei para o atelier o computador e ligava as notícias e ficava escandalizado. Isso mudou a vida das pessoas e, sobretudo, o estado de espírito das pessoas e isso refletia-se nas obras, então nós tentamos em finais de março, início de abril de 2020, tivemos a feliz ideia, longe de imaginarmos que ao fim deste tempo todo ainda andaríamos de máscara, abrimos um concurso a nível internacional em que os melhores iriam integrar a bienal. Fizemos e ficamos surpreendissímos com os resultados porque concorreram artistas de todo o mundo com propostas fantásticas, com obras fantásticas e estamos muito satisfeitos.

 

E acaba por ter a atualidade na bienal.

Nós chegamos a questionar em reuniões, até com a Câmara, e com outras instituições, depois do Natal em que a situação piorou, e chegamos a ser confrontados com opiniões de que se calhar era melhor não fazer a bienal fisicamente, mas apenas virtualmente. Eu, por acaso, fui sempre contra, só em último caso, porque acho que se este mundo já vai mal, já justifica inteiramente as exposições sobre a questão dos refugiados, dos sem abrigo, da violência doméstica, a abordagem desses temas todos, ainda mais agora se justifica a bienal. Com esta pandemia foi aberto um fosso em que algumas pessoas estão lá metidas e se calhar não saem tão cedo. Se há ano em que fazia sentido fazer uma bienal era este.

 

E há temas que, por força da pandemia que se sobrepôs a todos os outros, ficaram mais encobertos…

Sim, ainda há pouco falamos disso. A questão, que continua a ser atualíssima, da violência doméstica. Quase todos os dias, ou pelo menos com alguma regularidade, saem notícias nos órgãos de comunicação de casos desses. Isto é um pouco como o jornalismo, se existe nós temos de dar a notícia, portanto, se isto existe os nossos artistas têm de os abordar.

 

Ainda relacionado ao Corona Vírus, há também uma homenagem à área da restauração.

Sendo uma bienal que se preocupa com os outros e que não é indiferente ao estado em que isto está, naturalmente que quisemos também de uma forma simbólica, mas bem representativa evocar e de certo modo homenagear um dos setores que, se calhar, tem sido mais afetado pela crise da pandemia que é o turismo, a hotelaria e restauração. Então, pegamos num restaurante emblemático da cidade do Porto, o Ernesto, ponto de encontro e onde vai muitas vezes almoçar e jantar muitos artistas e até muitos políticos e forças vivas da cidade, e onde por acaso o proprietário é um grande apaixonado por arte, é colecionador e alguns artistas deixam lá ficar obras. E entendemos que a melhor forma de lembrarmos e homenagearmos a restauração era trazermos para dentro das nossas paredes e das nossas salas um restaurante emblemático e, a par de outros restaurantes, quando começamos a montar a exposição ainda fechavam ao fim de semana à uma da tarde. Então fez-se a recriação de um restaurante fechado, com as cadeiras em cima, com pó que se vai acumulando, um restaurante vazio, sem ninguém. E é assim que temos feito em todas as exposições, a questão da paz e da democracia também é isso, temos um acordo com o Centro Português para a Paz e Cooperação que a Ilda Figueiredo é presidente, e convidamos a organizar uma exposição a que se deu o título “A Paz e a Constituição”, que se ao mesmo tempo os artistas apelam à paz e chamam a atenção para a importância da paz, e o seu contrário que é a guerra, a necessidade de acabar com a guerra, também houve outros artistas que referiram a importância e assinalaram nas suas obras a importância de um documento como é a Constituição da República, que este ano comemora os 45 anos. Aqui também é uma questão de atualidade, é uma questão de ser notícia, entendemos que era também importante focarmos e apelarmos à importância da defesa da Constituição como também ao convocar e chamar a atenção da palavra diálogo, também a utilizamos aqui na nossa exposição da democracia, onde convidamos o Valter Hugo Mãe a comissariar uma exposição onde ele pôs em diálogo, olhos nos olhos, poetas e pintores, originando um diálogo entre a pintura e a escrita.

 

Volvido mais de um mês da bienal, que balanço faz?

Ainda não estamos em condições de dizer os números certos, até porque ainda não inauguraram os polos todos, ainda falta o de Gondomar, o último vai ser no Mosteiro de Grijó, em Gaia, vai ser lindíssimo porque é uma exposição que até já existe antes da bienal e nós integramo-la na bienal. Mas além dessa vamos ter a inauguração do polo de Gondomar, o polo do Funchal já inaugurou, assim como de Viana do Castelo. Por isso não estamos em condições de dizer os números, mas posso adiantar que já há milhares de visitantes, e a reação das pessoas e os sinais que nos dão, de uma maneira geral, as pessoas gostam, sentem o efeito surpresa e de choque e de impacto ao ver algumas obras de arte, mas acho que nesse aspeto cumprimos o nosso objetivo que é fazer despertar a consciência das pessoas sobre determinada matéria. Portanto, até agora, quase dois meses depois de abrir as portas, abrimos a 17 de abril, estamos em condições de dizer que, até ao momento, está tudo a correr bem, ultrapassa as expetativas, as escolas também têm muitos jovens, e muitos casais novos que vêm cá e acho que até ao momento está a ultrapassar as expetativas porque pelo que vemos e pelo que as pessoas nos dizem, gostam, dão-nos ideias e também ficam contentes porque estamos num local fantástico e com uma grande componente social. Foi uma fábrica onde juntava escola, museu e serviços como bombeiros, era uma cidade dentro da cidade, aliás, Lever nem é cidade, há uns anos atrás estava bem distante do centro de Gaia. Resumindo, estamos muito satisfeitos, valeu o esforço de toda a equipa e o apoio imprescindível que a Câmara de Gaia nos tem dado e o empenho pessoal do presidente da Câmara, e do Governo claro que, apesar de não ser muito, funciona como reconhecimento. O que colhemos, sobretudo, desde que abrimos, é que vale a pena, estamos, na nossa opinião, a conseguir sensibilizar artistas para o nosso lado, isto é, cada vez há mais e há uns anos atrás alguns artistas nunca tinham pintado, desenhado ou esculpido algo de cariz eminentemente social, ainda iam mais para o bonito. E agora não, cada vez há mais artistas preocupados em ver o outro lado da arte, ver a arte por outra perspetiva no sentido de tentar contribuir para melhorar as coisas e isso é visível nas pessoas que vêm cá e também no público porque também reagem de uma forma diferente do que reagiam há uns anos.

 

Esta bienal é também um fator de descentralização pelo local em que se encontra, e desde a primeira edição que foi algo apontado pelas pessoas o facto de se encontrar mais afastado do centro e temos vindo a colmatar essa distância com o autocarro que começou a funcionar, e pelo que se tem percebido tem sido uma iniciativa de sucesso. 

Sim, começou agora e temos a noção que não estamos no centro da cidade, e também temos consciência que, se calhar, se estivéssemos no centro teríamos mais gente do que o que temos, mas o outro lado da questão é que queremos contribuir para a descentralização. E queremos que um público que, normalmente, não está habituado a ver estas coisas que comece a ter a possibilidade de ver. Queremos que todas as pessoas, não só as de Gaia, mas as da Área Metropolitana do Porto, porque esta é uma bienal que se afirma da Área Metropolitana do Porto e da região Norte, venham cada vez mais à bienal porque também andamos a percorrer mundo e sabemos como são as outras bienais e posso falar com toda a honestidade e ao mesmo tempo com toda a modéstia, que esta bienal não fica muito distante de muitas outras. Acho que não se pode comparar, cada uma é como é, cada uma tem as suas características, nós temos as nossas e não encontramos nas outras. Porque as outras poderão ter uma ou outra obra relacionada com o tema, mas nós temos 99 por cento sobre questões sociais. Por isso, um dos nossos objetivos é que conseguirmos trazer ao nosso encontro cada vez mais público, cada vez pessoas mais jovens e utilizamos todos os processos possíveis quer através de debates, não queremos ficar apenas pelo pegar no quadro e pô-lo em exposição, queremos também debater o tema que está no quadro. Por isso é que todas as exposições que estão aqui dão origem a debates e colóquios onde vêm especialistas, ainda recentemente veio cá uma juíza, uma magistrada, falar sobre violência doméstica, juntamente com artistas que abordam esta questão. Nós queremos pegar no tema dos quadros, das esculturas e nas fotografias que estão e que o tema saia da parede e venha ao encontro das pessoas que estão aqui, quer os intervenientes quer quem vem. E por isso, juntamente com a Câmara, estamos a organizar e a fazer as maiores diligências possíveis no sentido de captar cada vez mais público. Então achamos que esta ideia de ter um autocarro que sai do El Corte Inglés, todos os dias, que faz duas viagens à tarde, porque isto só funciona à tarde, das 14h30 às 19h, achamos que o facto de fazermos duas carreiras de autocarro para virem à bienal é positivo e tem vindo muita gente. E estamos a divulgar isso nas nossas redes, nos órgãos de comunicação social, que têm à disposição todos os dias, à exceção da segunda-feira, que estamos fechados, mais esta iniciativa para virem cá.

 

Quais os seus sonhos e ambições para uma próxima bienal?

Como comecei a dizer, e vou terminar com essa ideia, é subir mais um degrau, não é preciso subir dois ao mesmo tempo, por o pé bem assente no degrau e, sobretudo, o que se pretende é que esta bienal que já disse está em permanente movimento, nada é definitivo aqui. Eu, por exemplo, já estou a pensar na bienal de 2023 e já temos alguns temas e coisas pensadas, mas nada está fechado porque também queremos que a nossa bienal tenha alguma atualidade, ou seja, tem a ver com os temas da altura, ou aproximadamente. Portanto, a única coisa que posso dizer é que vamos tentar que tenha a vertente da qualidade, mais qualidade, mais diversidade, e que também possa abordar temas que até agora ainda não foram abordados. E há muitos temas, que aparentemente são vulgares, mas que nas artes ainda não foram abordados e, por isso, vamos tentar organizar isso e vamos por exemplo tentar, é um dos meus sonhos, não quer dizer que seja já em 2023, mas estamos a pensar chamar a nós os artistas que pertencem aos países de expressão portuguesa, como Angola, Moçambique… os PALOP. E convocar também os artistas brasileiros, também é importante. Portanto, estamos com ideia de fazer umas exposições temáticas, mas com artistas oriundos de África.

 

E era mais um ponto de diálogo…

Exatamente. Também é importantíssimo estabelecer um elo e mais um ponto de diálogo entre os artistas portugueses e os artistas desses países. E temos esse objetivo de cada vez fazer mais e melhor e o grande sonho, o grande objetivo é que esta bienal pretende contribuir para a afirmação de Gaia como capital Cidade das Artes, a capital da arte. Nós achamos que às vezes não é preciso candidaturas, não é preciso apresentar papéis é preciso é fazer obra e para isso é preciso abrir os braços e por mãos à obra e é isso que estamos a fazer desde 2015, que é contribuir para que Gaia, a nossa terra, onde a nossa associação nasceu e vive e desenvolve atividade, seja a capital das artes e que seja reconhecida como isso. Temos todos os ingredientes para nos afirmarmos como cidade das artes porque, como disse há pouco, a grande maioria dos artistas, os que já faleceram e os que estão cá a fazer obra, têm uma ligação muito forte, ou viveram ou têm atelier em Gaia, além disso há uma escola em Gaia e isso é muito importante. Queremos manter esta chama viva e queremos também continuar, juntamente com o apoio do município a fazer cada vez mais e melhor e queremos que qualquer lugar que tenha as mínimas condições de qualidade, tenha dignidade, qualquer lugar seja pretexto para se exibir arte. Não precisamos de fazer exposições apenas nos museus e galerias, nos sítios convencionais. Em qualquer lugar, em qualquer território minimamente digno se pode fazer exposições como estas que não foram feitas para museus nem para o recinto de uma bienal mas que se pode adaptar e mostrar.

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