Se noticia que: “Paredes de Coura, Viana do Castelo, 06 Maio 2020 (Lusa)- A companhia Comédias do Minho apostou no teatro radiofónico para ganhar nova vida fora dos palcos e chegar, através das ondas hertzianas, ao público do vale do Minho, afastado das salas de espetáculos por causa da covid-19.”

As primeiras experiências de Teatro radiofónico aconteceram nos anos da década dos 20. Maremoto é a primeira peça dramática da história da rádio. Não foi anunciado no programa e apresentado de forma tão realista que o ouvinte pensou surpreender-se, brevemente nas ondas, num drama sem saber que era uma ficção. Os ouvintes poderiam realmente tomar essa retransmissão da história de um naufrágio como se fosse um desastre que estava a acontecer nesse preciso momento. O conjunto de sons era tão perfeito que muitas cartas chegaram à Rádio Paris para sinalizar que um transmissor havia emitido pedidos de ajuda no mesmo comprimento de onda da transmissão original.

Não foi lido na forma de um relatório, como a experiencia de Orson Welles, que foi capaz de apresentar cerca de quinze anos depois “A Guerra dos Mundos”, realizado através de relatos, conversas, às vezes ininteligíveis, de gritos, ruídos e emoções. Em 1924, Pierre Cusy e Gabriel Germinet , cujo nome verdadeiro era Maurice Vinot, ganharam o concurso de literatura de rádio organizado pelo jornal “L’Impartial Français” e o texto de “Maremoto” foi publicado nas páginas deste mesmo jornal. “Senhoras e senhores, não se preocupem, os homens de quem ouviram falar ainda estão vivos” e a leitura desta verdadeira curiosidade que é esta primeira peça de rádio continua ainda a ser, hoje, um verdadeiro clássico. A Guerra dos Mundos.

No dia 30 de Outubro de 1938, Orson Welles punha no ar a emissão que mais impacto teve na história da rádio. “A Guerra dos Mundos”, teatro radiofónico, simulava que os marcianos invadiam a terra. E com tanto realismo que alguns ouvintes terão sido tomados pelo pânico. Cerca de seis milhões de pessoas sintonizaram no programa e metade delas fê-lo depois da introdução, em que se explicava que não passava de uma peça de ficção, calculou a própria CBS. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou ser um fato real, meio milhão teve a certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico, sobrecarregando as linhas telefônicas, com aglomerações nas ruas e congestionamentos, causados por ouvintes tentando fugir do perigo.

O caos paralisou três cidades. O programa foi um sucesso de audiência, fazendo a CBS bater a emissora concorrente a NBC. Vinte anos mais tarde, Matos Maia, locutor português reproduz, na Renascença, uma versão nacional. Em vez de Nova Jérsia, Estados Unidos, as coisas começam por acontecer em Carcavelos. Chamaram-lhe “A Invasão dos Marcianos”. Hê War of the Worlds  (A Guerra dos Mundos),romance de ficção científica de Herbert George Wells, escritor britânico e membro da Sociedade Fabiana, foi publicado em capítulos primeiramente em 1897 no Reino Unido pela Pearson’s Magazine e lançado como um romance no ano seguinte.  A radio e Bertolt Brecht: A utilização de O Voo Transoceânico que relata a aventura transatlântica do capitão Lindbergh através da rádio, foi apresentada em forma experimental no Festival de Música de 1929 de Baden-Baden.

“Por que não utilizar o voo transoceânico como objeto de ensino e não modificar o rádio?” (B. Brecht). Seguindo a tradição outros grandes clássicos teatrais foram adaptados para o radio. “Simplesmente Maria” o folhetim radiofónico de maior sucesso de todos os tempos, escrito por Benjamin Cattan baseado num original peruano produzido em 1969. Começou a ser transmitido a 23 de Março de 1973 e rapidamente conquistou os ouvintes transformando-se num verdadeiro fenómeno à hora de almoço. Ou O Direito de Nascer radionovela homônima do escritor cubano Félix Caignet, primeiro grande clássico da radio-dramaturgia latino-americana mais tarde adaptada a TV. Sou de uma geração que se formou e aprendeu na infância com o Teatro Radiofónico, os invernos eram longos e a volta da mesa como num breve acto de adoração, o Radio convertia-se no centro do mundo no epicentro das nossas férteis imaginações.

Uma breve nota final de amargura e pesar, nestes últimos dias morreu um companheiro de Teatro, amigo, vizinho e com quem no desaparecido FAOJ construímos um grupo itinerante de formadores de teatro. Júlio Couto (1935-2020). “Economista, homem do teatro, rádio e televisão e um dos grandes conhecedores e investigadores da história do Porto. Com Germano Silva e Helder Pacheco, formava “os três mosqueteiros” da cidade. Vítima de covid-19”. Parece-me pertinente a menção dele neste artigo pois foi ele um dos leitores da biblioteca audível na cidade do Porto, dirigida essencialmente aos invisuais. Aos familiares, amigos e companheiros os meus mais sentidos sentimentos.

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