A atriz Patrícia Queirós, a nossa convidada de hoje, iniciou o seu percurso artístico no Grupo de Teatro e Coral de Lousada, aos 17 anos de idade, tendo ingressado pouco depois no curso de teatro da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo. Nos domínios da formação, participou ainda em workshops de Voz, Caracterização, Cinema e Contadores de histórias.

O seu percurso como atriz foi feito por inúmeros palcos do norte do país, em companhias como Teatro Independente de Paranhos, Mau Artista, Teatro da Palmilha ou Teatro Pé de Vento. Passou também pelo Teatro da Rainha (Caldas da Rainha), Teatro Villaret (Lisboa) e Centro Cultural da Malaposta (Odivelas), mas regressou sempre à cidade do Porto, onde interpretou alguns dos seus maiores sucessos. São disso exemplos as suas prestações em espetáculos como “A Cidade dos Que Partem”, “Os Macacos Não se Medem aos Palmos” ou “O Velho e a sua Linda Nogueira”. A escrita e a direção de projetos com grupos amadores e profissionais têm também preenchido a sua agenda de trabalho.

O cinema e a televisão fazem igualmente parte do seu universo criativo, tendo emprestado o seu talento ao filme “Balas e Bolinhos 3 – O último Capítulo” (na pele de Fabianne) e à Minissérie “Mulheres de Abril” (na pele de Isaurinha). Nos últimos tempos temo-la visto em Gaia, no Monte da Virgem, para interpretar em direto e de improviso a impagável Jacinta Lúcia no programa Praça da Alegria, da RTP. Passemos-lhe a palavra:

 

 

Que papel deve ter o teatro profissional no processo de desenvolvimento e democratização da atividade cultural e artística no concelho de Gaia?

O papel do teatro profissional é fundamental em qualquer processo de desenvolvimento e democratização, pelo tanto que tem de humano. É a arte do encontro, da escuta, do pensar, do sentir – nem precisaríamos de mais argumentos para justificar a importância e urgência de um coletivo teatral profissional em Gaia. Mas não custa nada relembrar o impacto que a atividade do teatro profissional tem no ânimo social, no desenvolvimento educativo, no combate à exclusão, na dinâmica da economia, no sentido de pertença da comunidade, enfim… Acredito que Vila Nova de Gaia tem neste momento a oportunidade perfeita para ajustar contas com a História do município e aproveitar o próximo ano para dar início a um plano de recuperação cultural, com especial foco na arte teatral. Até porque com a cultura de teatro amador que existe no concelho não duvido de que será uma aposta ganha, tanto a nível cultural como social e económico, especialmente numa conjuntura como a que vivemos atualmente. As pessoas estão sedentas de encontro e o Teatro é por excelência a arte do encontro e por natureza a arte da resistência, por isso a leitura que faço é muito clara, é um momento histórico que pode ser bem aproveitado ou não.

 

Exatamente por haver muitos grupos de teatro amador, há quem defenda que não há necessidade de pensar em teatro profissional em Gaia. O que te parece?

Parece-me que só poderá defender tal pensamento quem não tiver a mínima noção da dimensão do trabalho que se faz no teatro. Basta ver o esforço que os próprios grupos de teatro amador fazem para contratar profissionais, para dirigir alguns dos seus projetos, sendo os primeiros a reconhecer a importância de um profissional. O amor pela arte teatral é o mesmo, bem sabemos, mas o conhecimento, a experiência, a técnica, o tempo dedicado é incomparavelmente maior. Ignorar a importância de um coletivo profissional de teatro é, a meu ver, desprezar o seu território humano, diminuir a importância da sua maior força de expressão! Falar de teatro é falar do ser humano, da sua necessidade de se conhecer melhor por dentro, de reconhecer as suas angústias, as suas inquietações, os seus ânimos, os seus medos, as suas forças, as suas dúvidas, as suas interrogações. É uma ferramenta para consertar o nosso interior e orientar a relação com o exterior, para organizar as nossas ideias, para harmonizar as nossas emoções, para aumentar a nossa capacidade de leitura sobre o que nos rodeia, para aumentar a nossa inteligência, a nossa resiliência e desenvolver a nossa existência. Uma terra que não cultive a arte teatral é uma terra empobrecida e eu acredito que Gaia queira aproveitar melhor o terreno patrimonial que tem para cultivar mais e melhor. E acho mesmo que 2021 é a oportunidade perfeita para lançar essa semente.

 

E, na tua opinião, até que ponto a concertação de estratégias entre o teatro amador e o profissional pode propiciar o enriquecimento do tecido cultural de Gaia?

Penso que seria uma estratégia com grandes resultados no médio longo prazo. Porque possibilitaria a criação de uma rede, que iria beneficiar de formação, de fóruns, de circulação de espetáculos, etc, culminando num aumento significativo de público e que potenciaria as dinâmicas culturais em torno desse movimento de criação e produção. Estamos a falar de uma arte tão ou mais antiga que o ofício de fazer pão. É puro alimento para a alma, para o ânimo. Uma atividade coletiva por natureza que envolve corpo, intelecto, voz, sentidos, emoções. Que se relaciona com o próprio e com os outros. Não vejo melhor espaço humano para educar, curar, cultivar e desenvolver que o teatro. Por isso, o enriquecimento do tecido cultural de Gaia seria garantido.

 

Para além do estabelecimento parcerias com os grupos amadores, que papel deve ter o teatro profissional na sua relação com a comunidade escolar local?

Deve ter um papel ativo, muito ativo – espetáculos, fóruns, aulas, enfim, tudo o que puder ser feito para estimular o papel de público/observador, desenvolvendo a empatia, o pensamento crítico, a cooperação, a sensibilidade, despertando a criatividade artística que é a mais pedagógica e estimulante forma de crescer de dentro pra fora. Imagine-se o tanto que um movimento deste calibre pode gerar no sucesso escolar da comunidade de Gaia. Imagine-se que poderosa ferramenta estaríamos a pôr ao alcance de crianças e jovens para a sua expressão, comunicação, compreensão e integração. Só de pensar emociono-me. Seria um avanço educativo e cultural impagável na vida de milhares de pessoas, com impacto direto nas suas vidas e respetivas famílias e comunidade em geral. Pensar que as entidades com autoridade, possibilidade e responsabilidade nesta matéria não avançam com um projeto destes é ver os mais elementares direitos constitucionais serem limitados e impedidos a um nível inaceitável em pleno século XXI.

 

 

Além de ser um poderoso instrumento de inclusão e cidadania, o teatro pode constituir-se num importante meio de criação de valor económico. Concordas?

Sem dúvida. Sendo uma atividade que envolva pessoas, mobilidade e recursos materiais já garante a criação de valor económico. E se a isso juntarmos a dinâmica de públicos então nem se fala. Restauração, comércio, transportes, hotelaria, enfim, gera-se um movimento que beneficia toda a gente. Por isso, aquilo que muitas vezes é entendido como uma despesa, é afinal um investimento mais amplo, não “apenas” na cultura, mas sim no ânimo do comércio e serviços também.

 

Como explicas, então, que ainda haja, entre os nossos autarcas, quem olhe de lado para o investimento público nas artes performativas e no teatro em particular?

Com todo o respeito, considero que o principal motivo seja a própria falta de cultura e de visão.

 

Concordas que a produção, investigação e desenvolvimento artísticos são sustentáveis, sem a ajuda dos organismos públicos, como alguns sustentam?

Sustentáveis não são. Mesmo que se valessem da boa vontade dos seus agentes não seria possível fazê-lo por muito tempo, porque não é possível alguém desenvolver um trabalho com dedicação a tempo inteiro, dispondo do seu conhecimento e necessitando de material técnico, sem remuneração e contribuição para os custos, por muito tempo. Seria o mesmo que pedir a um médico que fosse trabalhar de graça e ainda pagasse o material clínico usado com os pacientes. Seria insustentável, por muita boa vontade que o médico tivesse. Até porque, como sabemos, os impostos servem para isso mesmo, para o acesso ao que é básico numa sociedade minimamente desenvolvida – saúde, educação, segurança, cultura, etc. Portanto, essa responsabilidade é do Estado, seja na figura do Governo Central seja na do Regional ou Local. Assim consta na Constituição e assim sugere o bom senso. É que não se trata, como muitos pensam, de pagar aos artistas para serem artistas… Com isto, recordo uma frase de Ricardo Alves, encenador do espetáculo O Burguês Fidalgo, que a Palmilha Dentada coproduziu com o Teatro Nacional S. João este ano, na dramaturgia que criou a partir do texto de Molière: “Também não pagam aos médicos para serem médicos, mas sim para tratarem os doentes”. E é aqui que está toda a diferença.  Assim como há países onde não se valoriza a saúde, Portugal, de uma forma geral ainda tem que melhorar muito a sua visão sobre o investimento na cultura e no reconhecimento e respeito sobre o trabalho dos seus profissionais. Isto começa logo pela forma diminuída como se olha para o ser humano no seu conjunto, ou seja, a ideia de que uma pessoa é apenas um corpo e que por isso o alimento que lhe basta é de comer e beber. Isto leva a que o Ser emocional e até psicológico seja entregue à sua pouca sorte. Há que abandonar a ideia de que a Arte é apenas lazer, não, a Arte é Alimento do mais essencial que há. Cultura, Educação e Ciência é investimento no Ser integral. Por isso, quanto mais se investir na Cultura menos será necessário gastar em Saúde, Segurança e Justiça, garantidamente.

 

A terminar, fala-me de ti. Em termos profissionais, que projetos tens neste momento em mãos e que ideias andam a germinar pela tua cabeça para o futuro?

Neste momento, apenas coisas pontuais: filmagens e formações online. Futuramente estão previstas uma encenação, um espetáculo de comédia a solo e o resto está no segredo dos deuses. Espero que a “normalidade” seja retomada, porque todas as semanas recebo mensagens de pessoas com saudades da Jacinta Lúcia e acredito que o humor e a comédia são um excelente contributo para combater o maior desafio que se instalou como efeito desta pandemia… O desânimo!

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