A  história do cinema  como espetáculo começou em Paris no dia 28 de dezembro de 1895. A partir de ai, a chamada sétima arte, experimentou uma série de câmbios em vários sentidos. Por um lado, a tecnologia do cinematógrafo   evolucionou notavelmente, desde os inícios do cinema mudo   dos  irmãos Lumière  até agora com o cinema digital  do seculo XXI. Junto a evolução da linguagem cinematográfica, evoluíram as particularidades e singularidades do género, surgindo assim os diferentes géneros de cinematografia.

“Um gênero artístico é o conjunto de convenções, temáticas e estilos dentro de uma forma de arte e média.” Também o fator social mudou o cinema e o cinema se transformou assim em documento e testemunho das transformações socias. Passaram para o ecrã as grandes revoluções e as duas grandes guerras, também a guerra do Vietnam se converteu num especial género bélico. A todas estas transformações corresponderam também movimentos histórico-artísticos como por exemplo o neorrealismo italiano, marcante em Europa e no mundo.

Passado um ano os Lumière já tinham realizado mais de 500 filmes que tiveram tanto êxito como as primeiras fitas. Ainda em 1895 realizam L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, que foi um dos primeiros filmes a serem apresentados publicamente, na cave do Boulevard des Capucines em Paris. “ A chegada de um comboio à estação ”  será a película que assustará pela primeira vez o público. Contam que grande parte do público fugiu aterrorizado da sala ao ver uma locomotiva aproximando-se e que parecia sair dos limites da tela.  No século XX, foi Ricciotto Canudo * (1877-1923), intelectual italiano radicado na França, pertencente ao futurismo italiano autor do Manifesto das Sete Artes, que define o cinema como a sétima arte “por ser a arte plástica em movimento, aquela que consegue congregar todas as outras em uma só”.

O cinema foi sempre, para mim, como uma enciclopédia, no melhor sentido, só superando a Diderot (que além de filosofo era também um homem de teatro) e D´Alembert, por ser em movimento…“movie”, uma das primeiras palavras americanas para definir filme, película, fita… Durante o período de confinamento, com os cinemas e teatros fechados, esperava ansioso pelo regresso às salas escuras da minha memória. Assim logo que foi possível fui ao cinema, na primeira sessão pública pós-confinamento. Quase espectador solitário, a primeira fita foi “Retrato de uma mulher em chamas”, filme francês de 2019 que narra a atração entre as duas personagens principais, uma retratista e a sua modelo. O filme abre com uma bela frase; “Tomem o tempo de me observar. Observem as minhas mãos, a minha silhueta”, solicita a pintora (Marianne, a atriz Noémie Merlant) e professora de artes plásticas agora modelo, quando posa para às suas alunas.…“O olhar se torna a porta de entrada para a manifestação do desejo”…mas será também o umbral de saída. Em determinado momento a realizadora nos remete ao mito de Orfeu e a esse olhar ulterior e inexplicável que fecha o seu destino de redenção/salvação e morte dos seus protagonistas, Orfeu e Eurídice.

O filme escrito e realizado por Céline Sciamma foi apresentado em competição no Festival de Cinema de Cannes, onde recebeu o prémio de Melhor Argumento e a Queer Palm. Julgo que nunca como agora, neste momento, foi tao estimulante ir ao cinema…se recuperou o silêncio do antigamente, existe o perfeito e aconselhado distanciamento social, quartos de banhos super higienizados, horários diferenciados para evitar contactos e longas filas. A indústria do cinema precisa do nosso apoio, tanto a nível nacional como europeu, ir ao cinema, ao teatro e a espetáculos, é um dever cívico para ajudar esse sector artístico que foi e está a ser tao castigado pela pandemia!

A falta de estreias de fitas americanas que dominam o mercado português beneficiou que cintas de origem europeia encontrassem distribuição nas salas, relativamente à produção nacional a distribuidora NOS Audiovisuais anuncia que vai estrear, entre julho e novembro de 2020, mais de dez filmes portugueses entre eles; SurdinaO Ano da Morte de Ricardo Reis Salgueiro Maia – O Implicado são algumas das produções a ser distribuídas.

Nota: * Em 1911 publicou em Paris um artigo intitulado “La Naissance d’un sixième art. Essai sur le cinématographe“, considerado como o primeiro texto no qual se define o cinema como uma arte.

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